O gráfico acima pode parecer apenas mais uma comparação entre dois países europeus. Na realidade, conta uma história muito mais profunda. Conta a história de duas trajectórias civilizacionais que partiram de pontos radicalmente diferentes em 1991 e que, ao longo de trinta e cinco anos, convergiram de forma surpreendente.
Quando a União Soviética colapsou, a Estónia era um pequeno país recém-independente, com instituições frágeis, pouca riqueza acumulada, uma economia em transição e enormes incertezas quanto ao futuro. Portugal, pelo contrário, era já uma democracia consolidada, membro da NATO, beneficiário dos fundos europeus e integrado no mercado comum. Se alguém tivesse previsto, em 1991, que a Estónia viria a rivalizar com Portugal em rendimento per capita, inovação, governação e capacidade institucional, teria sido considerado optimista ou mesmo ingénuo.
Contudo, foi precisamente isso que aconteceu e o gráfico permite compreender por quê.
O eixo horizontal representa a Absorção de Incerteza (U), ou seja, a capacidade de uma sociedade manter ordem, previsibilidade, segurança e estabilidade institucional. O eixo vertical representa a Capacidade Emergente (E), isto é, a capacidade de gerar inovação, empreendedorismo, adaptação e criação de novas soluções.
Estas duas variáveis constituem a base do Civilizational Balancing Index (CBI).
A definição funcional de civilização é simples: uma civilização é uma camada social que absorve incerteza ao mesmo tempo que preserva um espaço controlado para fenómenos emergentes.
A maioria das análises políticas concentra-se apenas numa destas dimensões. Algumas valorizam sobretudo a estabilidade. Outras enfatizam a liberdade e a criatividade. Mas as sociedades mais bem-sucedidas não escolhem uma ou outra. Conseguem combinar ambas.
É precisamente isso que a trajectória da Estónia revela.
Em 1991, a Estónia encontrava-se numa posição muito distante do chamado "sweet spot" civilizacional, a zona superior direita do gráfico onde coexistem elevados níveis de U e E. Ao longo das décadas seguintes, porém, a sua trajectória foi quase diagonal. Melhorou simultaneamente a estabilidade institucional e a capacidade de inovação.
A digitalização da administração pública, a criação de uma identidade digital universal, a simplificação burocrática, a aposta na educação tecnológica e o desenvolvimento de um ecossistema empreendedor permitiram aumentar a emergência sem sacrificar a ordem. O resultado foi uma aproximação contínua à zona de equilíbrio óptimo.
Portugal seguiu uma trajectória diferente.
Partindo de uma posição muito mais favorável, Portugal conseguiu melhorar a sua capacidade institucional e consolidar a estabilidade. O eixo U evoluiu positivamente. Contudo, a evolução da capacidade emergente foi muito mais modesta. Em vez de uma trajectória diagonal, observamos um movimento predominantemente horizontal.
Em termos simples, Portugal tornou-se mais previsível do que inovador.
Durante algum tempo isso não constituiu um problema. A riqueza acumulada, os fundos estruturais europeus e a integração económica permitiram uma convergência significativa com os países mais desenvolvidos da Europa. Contudo, a partir da década de 2010 a trajectória começou a estagnar. O aumento da complexidade administrativa, a carga fiscal crescente, a dependência do Estado e uma menor dinâmica empresarial dificultaram novos avanços na capacidade emergente.
O resultado é visível no gráfico. Enquanto a Estónia continuou a aproximar-se do sweet spot, Portugal começou lentamente a afastar-se dele.
Este afastamento não significa colapso nem declínio absoluto. Portugal continua a ser uma sociedade estável, segura e funcional. Mas o gráfico sugere que a sua arquitectura civilizacional está a perder equilíbrio. O aumento da absorção de incerteza deixou de ser acompanhado por um aumento equivalente da emergência.
É precisamente aqui que o CBI oferece uma perspectiva diferente da análise económica tradicional.
O PIB per capita mede riqueza acumulada. O CBI procura medir a capacidade de continuar a gerar riqueza no futuro.
Uma analogia útil seria a diferença entre a velocidade actual de um automóvel e a potência do seu motor. O PIB mostra a velocidade. O CBI tenta medir a qualidade do motor.
Vista por essa lente, a história da Estónia torna-se particularmente interessante. O país ainda não atingiu os níveis de riqueza da Suíça ou da Dinamarca, mas a sua posição no espaço U/E sugere um potencial de convergência adicional. A arquitectura institucional que construiu aproxima-se da encontrada em algumas das sociedades mais bem-sucedidas do mundo.
Portugal enfrenta um desafio diferente. Não precisa de reconstruir instituições nem de criar estabilidade. Precisa de recuperar capacidade emergente. Precisa de criar condições para que mais inovação, mais empreendedorismo e mais experimentação possam florescer sem comprometer a ordem já alcançada.
A principal lição deste gráfico é que a prosperidade não depende apenas da estabilidade nem apenas da liberdade. Depende do equilíbrio entre ambas.
Em 1991, Portugal possuía uma vantagem esmagadora sobre a Estónia. Em 2026, essa vantagem desapareceu. A explicação não reside na geografia, nos recursos naturais ou na dimensão do país. Reside na trajectória civilizacional.
A Estónia aproximou-se do sweet spot. Portugal estagnou e começou a afastar-se dele.
Se o Civilizational Balancing Index estiver a captar algo real sobre o funcionamento das sociedades, então este gráfico não descreve apenas o passado. Pode também conter uma pista importante sobre o futuro.
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