Quando as universidades deixaram de exigir livros, não tornaram o ensino mais fácil — tornaram-no hereditário.
Durante décadas, o livro foi o eixo invisível do ensino superior. Não era apenas uma fonte de informação; era uma estrutura. Um bom manual organizava um campo do saber, impunha uma hierarquia de conceitos, exigia tempo, concentração e esforço. Ler um livro era, no fundo, aprender a pensar dentro de uma disciplina.
Hoje, esse eixo dissolveu-se. Em muitos cursos, o manual desapareceu do centro e foi substituído por slides, resumos, vídeos curtos e bancos de perguntas. O conhecimento tornou-se fragmentado, modular, adaptado à lógica da avaliação. Aprende-se o suficiente para responder — não necessariamente para compreender.
À primeira vista, isto parece uma democratização. Menos exigência formal, mais acessibilidade, menos barreiras. Mas a realidade é mais ambígua.
Nas universidades de elite, como Harvard University ou Princeton University, a cultura do livro não desapareceu — tornou-se implícita. Os estudantes chegam já treinados para ler textos exigentes, muitas vezes por influência familiar, escolar ou social. Mesmo que o curso não o imponha, eles procuram naturalmente essa profundidade. O livro continua presente, mas deixou de ser visível.
Nas restantes instituições, o sistema adapta-se ao mínimo necessário para cumprir os objetivos formais. Se é possível passar com slides, então os slides tornam-se o currículo real. E muitos estudantes — especialmente os que não trazem esse capital cultural de origem — nunca chegam a desenvolver a capacidade de leitura profunda e estruturada.
O resultado é uma desigualdade silenciosa.
Dois estudantes podem obter o mesmo diploma, mas não a mesma formação. Um internalizou uma estrutura de pensamento; o outro acumulou fragmentos de informação. A diferença não está no conteúdo explícito, mas na forma como o conhecimento foi assimilado.
Aqui, a intuição de Pierre Bourdieu mantém-se atual: os sistemas educativos não reproduzem desigualdades apenas pelo que ensinam, mas pelo que pressupõem. Quando a universidade deixa de exigir leitura exigente, não elimina a necessidade dessa competência — apenas a desloca para fora do sistema formal.
O livro tinha uma função niveladora. Era exigente, mas universal. Estava disponível para todos os que estivessem dispostos a fazer o esforço. Ao desaparecer, a profundidade deixa de ser uma exigência comum e passa a ser uma escolha individual — frequentemente condicionada pela origem.
Há ainda uma consequência mais profunda. Profissões como a medicina, o direito ou a engenharia não dependem apenas de informação, mas de julgamento. E o julgamento constrói-se sobre estruturas mentais sólidas, não sobre fragmentos. Quando essas estruturas enfraquecem, cresce a dependência de protocolos, algoritmos e autoridades externas.
A ironia é clara: num tempo em que o conhecimento está mais acessível do que nunca, a capacidade de o integrar pode estar a tornar-se mais rara.
Não se trata de nostalgia pelos livros, mas de compreender o que eles representavam. Sem essa exigência comum, a universidade arrisca-se a deixar de ser um instrumento de mobilidade — e a tornar-se, discretamente, um mecanismo de reprodução.
Não tornou o ensino mais fácil. Tornou-o hereditário.
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