As acusações de natureza pessoal que surgem em plena campanha eleitoral colocam sempre um dilema delicado entre o foro judicial e o foro político. Em democracia, é essencial não confundir planos. O julgamento criminal ou civil pertence aos tribunais; o julgamento político pertence à opinião pública — e obedece a regras diferentes, mais imediatas e mais exigentes quanto à forma, ao tom e ao sentido de responsabilidade. A história política oferece exemplos instrutivos. Thomas Jefferson, enquanto presidente dos Estados Unidos (1801–1809), desaconselhou explicitamente membros do seu governo de mover ações por difamação contra cidadãos. Fê-lo por convicção republicana: o poder político não deve recorrer aos tribunais para se proteger da crítica dos governados. Num regime livre, erros, exageros ou injustiças combatem-se com palavra, carácter e transparência, não com intimidação jurídica. Há também exemplos contemporâneos de gestão política de crises pessoais. Pete Hegseth enfrentou uma acusação de natureza sexual optando por uma entrevista frontal, colocando as cartas na mesa e assumindo o risco público. Não foi um julgamento judicial, mas uma recuperação de agência narrativa: deslocou o foco do que se suspeita para a forma como se responde. Em política, essa diferença é decisiva. Quando uma acusação emerge a poucos dias de uma eleição, o desafio central não é jurídico, mas político e simbólico. O eleitor observa sobretudo a reação: serenidade ou agressividade, clareza ou evasão, autocontrolo ou perda de domínio. A política torna-se inevitavelmente “teatral” — não no sentido de falsidade, mas no sentido clássico: a capacidade de se apresentar em público à altura da função a que se aspira. Como diz a expressão, “quem não aguenta o calor deve sair da cozinha.” Esta nota pretende ser um incentivo a todos os políticos que atravessem crises semelhantes: não confundam a defesa judicial (legítima, no seu tempo próprio) com a resposta política (imediata, pública, exigente). Ameaças de processos raramente convencem; franqueza, compostura e responsabilidade pública quase sempre contam a favor. Importa sublinhar algo fundamental: este comentário não é um julgamento. Não me compete apurar factos, atribuir culpa ou inocência, nem substituir o trabalho dos tribunais. Trata-se exclusivamente de um juízo de opinião política, legítimo numa sociedade aberta, sobre a adequação da resposta dada por um candidato sob forte pressão. Declaração final de interesse
Independentemente deste episódio, nunca votaria neste candidato, por discordar profundamente da sua defesa da militarização da Europa e do keynesianismo militar, que considero perigosos, economicamente irresponsáveis e politicamente regressivos. Esta posição é anterior e independente das acusações agora em debate. Dito isto, desejo sinceramente que o candidato demonstre capacidade para liderar nesta crise. Portugal precisa de presidentes fortes, capazes de enfrentar momentos difíceis com serenidade, verdade e sentido de Estado. Em democracia, acusações não devem substituir o voto. Mas a forma como um candidato reage a uma crise pessoal é um ensaio geral do modo como reagirá a crises nacionais. Esse juízo — na opinião pública, não nos tribunais — cabe inteiramente à consciência dos cidadãos.
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