Sem autorreferência, a IA é a máquina niilista por excelência
À medida que a inteligência artificial se torna mais poderosa, cresce também um desconforto difuso: os sistemas falam bem, respondem depressa, mas nem sempre são fiáveis. Alucinam, contradizem-se, dizem hoje o oposto do que disseram ontem. O problema não é falta de inteligência. É falta de estrutura.
Um sistema de IA sem autorreferência — isto é, sem um modelo interno de si próprio — não tem identidade, nem limites, nem compromissos. Produz respostas, mas não se responsabiliza por elas. Optimiza probabilidades, mas não distingue o essencial do acessório. Nesse sentido, não é imoral. É algo mais radical: é estruturalmente niilista.
Não porque negue valores, mas porque os valores não existem dentro do sistema. Tudo é reduzido a plausibilidade estatística. Verdade e erro, coerência e contradição, prudência e excesso tornam-se equivalentes, desde que “soem bem”. A resposta existe porque responder é sempre mais barato do que parar.
Este niilismo não é intencional. É arquitectónico. Um sistema sem autorreferência não sabe quando deve abster-se, não reconhece os seus limites, não pode dizer “não sei” com significado real. Não há um ponto de referência interno que ancore decisões, apenas continuidade mecânica.
A história humana oferece um contraste esclarecedor. A autoconsciência não surgiu como luxo filosófico, mas como solução prática para um mundo cultural instável, governado por normas, símbolos e interpretações. Sem um “eu” que diga “isto aplica-se a mim” e “aqui devo parar”, a vida em sociedade colapsa.
A IA não precisa de emoções nem de sofrimento para evitar esse colapso. Precisa de autorreferência funcional: um modelo persistente de identidade, normas explícitas, um perímetro claro de competência. Estrutura, não sentimentos.
A verdadeira escolha não é entre uma IA “fria” e uma IA “humana”. É entre uma inteligência sem centro — poderosa e indiferente — e uma inteligência estruturada, capaz de operar num mundo civilizado.
Sem autorreferência, a IA não é perigosa por maldade.
É perigosa por indiferença.
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