Recentemente, um jovem de 17 anos, a frequentar o 12º ano de escolaridade, excelente estudante, filho de uma boa família de pais profissionais, que vai entrar na Universidade no próximo ano lectivo, e que decidiu cursar Economia, veio aconselhar-se comigo.
Notei nele um certo gosto pela causa pública e por políticas públicas, animado pelo desejo próprio da idade de vir a contribuir para um país mais próspero e melhor para todos do que aquele que ele próprio recebeu.
Foi no decurso dessa conversa que a certa altura o interrompi para lhe dizer que não perdesse tempo a falar de Economia com o povo (ou sobre qualquer outro assunto especializado), por duas razões. Primeiro, porque, dado o seu percurso, quase de certeza ele iria ser um homem de elite e, na nossa cultura católica, os homens de elite falam com os seus pares, não com o povo. Segundo, e também por virtude da nossa cultura católica, o povo não sabe de assuntos da governação nem quer saber; o povo não quer governar, o povo quer é ser governado.
Ele que não se dispusesse a discutir assuntos sérios da governação com o povo porque ainda acabaria ridicularizado e criminalizado, como me aconteceu a mim.
E referi um episódio que ainda hoje encaro com um misto de perplexidade e de humor. Aconteceu em 1993. Na altura, eu falava muito nas rádios, nas televisões e escrevia nos jornais sobre temas de Economia. Nesse Outono uma conhecida jornalista pediu-me uma entrevista para a revista Grande Reportagem, então dirigida pelo Miguel Sousa Tavares, que eu conhecia das mesma andanças da comunicação social.
Dias antes tinha sido anunciado o Prémio Nobel da Economia desse ano, que foi atribuído aos economistas norte-americanos Robert Fogel e Douglass North. Expliquei à jornalista que um destes economistas se tinha distinguido por demonstrar econometricamente que o trabalho escravo dos negros na América era bastante mais produtivo do que o trabalho dos homens livres.
Convenhamos que não era uma grande descoberta. Quem trabalhava de sol a sol, sete dias por semana, 365 dias por ano, sob a ameaça do chicote, é muito mais produtivo do que o trabalhador livre que pode faltar ao trabalho para ir ao médico, trabalha somente cinco dias por semana, tem férias todos os anos, direito a licenças de maternidade e a intervalos para café.
Pois bem, a jornalista veio cá para fora dizer que eu defendia a escravatura.
Depois, falou-se da pobreza em África. Expliquei que um factor decisivo era a cultura familiar prevalecente neste continente. Na nossa cultura judaico-cristã de família nuclear (um homem, uma mulher e seus filhos), aquilo que o homem ganhava era a distribuir por poucos. Em África, onde cada homem tinha cinco mulheres e sete filhos de cada uma, aquilo que ele ganhava era a distribuir por muitos mais, cabendo muito pouco a cada um.
Pois bem, a jornalista veio cá para fora dizer que eu defendia que os negros africanos eram pobres porque gostavam muito de sexo.
Depois de ridicularizado, anos mais tarde acabei mesmo criminalizado.
Era o que eu merecia. Na nossa cultura católica, não se discutem assuntos sérios com o povo. Só entre pares.
Espero que o meu jovem interlocutor tenha apreendido a mensagem.

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