A Ausência de Caridade* num País Católico
Há algo de perturbador na forma como o país reage à morte das suas figuras públicas. Mal o corpo arrefece, multiplicam-se as vozes apressadas, os insultos reciclados, os juízos ferozes. Já não há silêncio, nem luto, nem respeito — apenas comentários.
Num país que se diz católico, onde a palavra caridade deveria ainda significar amor ao próximo, a morte tornou-se ocasião de espetáculo. Confunde-se franqueza com crueldade, opinião com ressentimento. O morto, tornado indefeso, converte-se em alvo: o último a quem se pode bater sem risco de resposta.
É legítimo não gostar de Francisco Pinto Balsemão, de um político, de um empresário, ou de quem quer que seja. Mas a decência manda esperar. Há um tempo para o juízo e outro para o luto. A família, os amigos, até o simples decoro — exigem contenção.
De onde vem esta brutalidade? Talvez do esvaziamento religioso. Perdemos o sentido de transcendência e, com ele, o pudor. A tradição católica ensinava que o silêncio diante da morte é um ato de misericórdia: não pelo morto, mas pelos vivos. O que resta, quando essa educação desaparece, é um vazio moral onde a indignação se confunde com virtude e o insulto com coragem.
Mas há também um traço de primitivismo social. Nas redes, muitos comportam-se como aldeias antigas à volta do cadafalso — curiosos, excitados, prontos a lançar a pedra. É o prazer de participar no linchamento simbólico, sob o pretexto da “liberdade de expressão”. E isso denuncia uma falta profunda de educação cívica, emocional e espiritual.
A ausência de caridade não é apenas uma falha moral — é um sintoma de decadência cultural.
Um povo que perdeu o respeito pelos mortos perdeu, antes disso, o respeito pelos vivos.
* Tomás de Aquino considerava a caridade como "a mais excelente das virtudes".
Sem comentários:
Enviar um comentário