13 março 2025

a cultura da devassa

 



Certo dia, já lá vão muitos anos, eu estava a ler um texto em inglês e deparei com a expressão "auto-da-fe". Isto é português - pensei -, a única diferença era que em inglês não há acentos, e fui investigar.

Cheguei à conclusão que a expressão não tem tradução em inglês.  Os povos de cultura britânica não conseguem imaginar o que seja a realidade descrita pela expressão "auto-da-fé", é algo que nunca lhes passou pela cabeça, e por isso nunca sentiram necessidade de uma palavra  ou de uma expressão para a descrever.

E o que é o auto-da-fé?

É o inquérito às intenções, a devassa do espírito, a devassa daquilo que de mais íntimo um ser humano possui.


-Você vai ser lançado à fogueira porque é judeu ou protestante.

-Não sou não, eu sou católico.

-Não é nada, eu sei muito bem que não é.


Quem consegue devassar o espírito de uma pessoa, muito mais facilmente lhe devassa a vida familiar, profissional ou empresarial e mais facilmente ainda lhe devassa a casa ou a carteira. 

E nisso os portugueses são especialistas - na devassa.

Embora fossem os padres que normalmente iniciavam os autos-da-fé, eram os juristas que os concluíam. A cultura da devassa, embora esteja presente entre todos os portugueses, está sobretudo presente entre os juristas.

A democracia institucionalizou a cultura da devassa nas leis do país (v.g, aquelas que obrigam os políticos  a divulgar o seu património) e deu liberdade e independência (que não existia no regime de Salazar) à instituição oficial da devassa - o Ministério Público (antes, Inquisição).

O primeiro-ministro Luís Montenegro está agora a provar o veneno que existe na tradição da sua própria profissão de jurista e, mais geralmente, na de todos os portugueses. Vai ter a vida totalmente devassada pela Comissão Parlamentar de Inquérito, pelo Ministério Público, pela Comunicação Social, pela sua própria corporação - a Ordem dos Advogados -, pelo mais vulgar português que agora vai querer saber sobre todos os aspectos da sua vida privada.

Na sua qualidade de primeiro-ministro e de jurista devia conhecer o povo que estava a governar e a tradição da sua própria profissão, e deveria ter-se protegido contra essa horrorosa faceta da cultura portuguesa em geral e da cultura jurídica em particular - a devassa.

Não o fez. Está perdido, politicamente vai acabar na fogueira. Agora, o melhor que tem a fazer é pedir imediatamente a sua demissão de primeiro-ministro e de presidente do PSD. Aproveite para levar consigo o Rangel.

Caso contrário, para além de ter a sua vida privada totalmente exposta em público, incluindo a da sua família, vai ter uma humilhante derrota nas eleições. E eu, apesar de tudo, prefiro o PSD a governar o país do que o PS e uma geringonça. 

Mas consigo e com o Rangel à frente - qual dos dois o mais propenso a situações de conflito de interesses -, o PSD não vai lá. Corre mesmo o risco de implodir.

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