28 junho 2019

colega de trabalho

-Será que eles se conhecem?

Esta foi a questão que, desde a primeira sessão, eu me pus em relação àqueles dois homens sentados à minha frente na tribuna, a cerca de cinco metros de distância, um à direita do outro, mas com um espaço suficiente entre eles para darem a aparência de serem independentes um do outro.

Um era o juiz, o outro era o acusador oficial, o magistrado X.

Desde o primeiro momento me pareceu uma injustiça haver dois acusadores e uma só defensora, ainda por cima um dos acusadores tinha honras especiais, sentava-se à direita do juiz e retirava-se para a mesma sala do juiz durante os intervalos do julgamento.

-Como é que este juiz  pode ser imparcial se ele anda sempre acompanhado de um acusador - o acusador oficial que tem quase as mesmas honras que ele?

perguntava-me eu.

E eu próprio respondia: Não pode.

Eu precisava de mais indícios para provar aquilo que parecia óbvio ao meu espírito, a saber, que dificilmente um juiz nestas condições pode ser imparcial. Até que ponto iria a intimidade entre ele e o magistrado X?

-Eles devem-se conhecer… 

Sentado no banco dos réus, eu escrutinava ao detalhe todas as comunicações entre o juiz e o magistrado X à procura do mais ínfimo sinal que confirmasse as minhas suspeitas.

E ele acabou por chegar à quarta ou quinta sessão.

No final da sessão, o juiz puxou da agenda para marcar a sessão seguinte, e virando-se para a direita, sugeriu ao magistrado X uma data.

Mas antes que o magistrado X pudesse responder, foi o próprio juiz que se antecipou:

-Oh...desculpe...essa data não pode ser porque já temos outro julgamento marcado para esse dia.

É muito difícil um juiz conseguir ser imparcial nestas condições, quando o acusador oficial é um seu colega de trabalho. O ideal de Justiça fica prostituído.

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