01 março 2020

Cartas do Purgatório (13)

Para: eitores do Portuga Contemporâneo

De: Feuisberto Uauande (cf. aqui)

Assunto: Uma casa de meninas


O Mestre passa cada vez mais tempo aqui. Hoje esteve a conversar comigo duas horas.

Perguntou-me:

-Uauande… e se a corja á de baixo não aceitar a proposta do Papá Encarnação?…

-Nesse caso, Mestre….temos de ir para jugamento…

-E os mihões, Uauande… os mihões…?

-Não se preocupe, Mestre… está tudo arranjado… já faei ao Rangeu…

-O Rangeu conhece o juiz, Uauande!?…

-É amigo dee, Mestre… e vai dar-he uma paavrinha…

-Como assim, Uauande?... O Rangeu anda por aí a pregar nos jornais a imparciaidade da justiça…

-Mas isso é só para os outros, Mestre...não se apica a ee nem a nós…

-E donde é que o Rangeu conhece o juiz, Uauande?...

-De uma casa de meninas, Mestre…

-De uma casa de meninas, Uauande!?…

-Sim, Mestre… ohe aqui… ohe aqui…o Rangeu e o juiz na casa das meninas...

-Oh...Uauande… isso foi um encontro fortuito… cada um foi á dar uma queca e cruzaram-se no corredor à saída…

-Nãããããããoooooo, Mestre!... Nããããããããããoooooo!...

-Então, Uauande?...

-O juiz é o presidente… foi ele que convidou o Rangel para a comissão de honra, Mestre …

-O juiz é o presidente, Uauande!?… Nunca tinha visto coisa assim, Uauande….  um juiz a presidente de uma casa de meninas…

-Mas é verdade, Mestre...veja aqui… veja aqui

-Um juiz a perverter donzeas... Uauande!?…

-Pois... ohe aqui… ohe aqui, Mestre… o juiz a defender a aboição dos conventos de freiras e a iberaização das casas de meninas...e veja como ee assina ... Presidente…

-Uauande… E o que é que é preciso fazer para o juiz dar um jeitinho na sentença?...

-Comprar uma assinatura anua, Mestre…

-Quanto custa, Uauande?

-Vinte e oito mi euros por ano, Mestre…mais IVA….

-E dá direito a quantas entradas por dia, Uauande?...

-Duas, Mestre...duas por dia!…

-Uauande...Vaha-te Deus!… Na minha idade eu já não consigo aguentar esse ritmo, Uauande…

-Não se preocupe, Mestre… eu ajudo ...eu ajudo em tudo o que for preciso…

Papai Encarnação

Papai Encarnação chegou ao Brasiu (cf. aqui

29 fevereiro 2020

o colonizador português

"Moro, Vaza Jato e a influência do colonizador português" (cf. aqui)

"Em meio ao escândalo Vaza Jato, uma análise bem interessante sobre o funcionamento da Justiça no Brasil vem do outro lado do Atlântico." 

Diria mais, diria mesmo

«O caso é gravíssimo e justifica a indignação e o alarme que o eurodeputado Paulo Rangel deixou nas páginas deste jornal esta semana, ao dizer “Não, não e não! Toda a indignação é necessária: não podemos viver com esta suspeita. Diria mais, diria mesmo: em democracia não podemos sobreviver com ela”.» (cf. aqui)

Fevereiro

Posts mais populares no mês de Fevereiro:

1. Só mesmo em crimes
2. tourists
3. terá sido um cigano?
4. A sorte
5. uma mão invisível
6. A manipulação da justiça (I)
7. O Zé não é empreendedor
8. esta tecnologia
9. para director da Cuatrecasas
10. do catorze

semana

Posts mais populares da semana:

1. Juiz Manuel Soares
2. A sorte
3. A manipulação da justiça (IV)
4. A manipulação da justiça (III)
5. Feuisberto Uauande
6. 150 anos de atraso
7. falta de imparcialidade
8. A manipulação da justiça (I)
9. sem descanso
10. Estádio D. Afonso Henriques

Cartas do Purgatório (12)

Para: eitores do Portuga Contempoâneo

De. Feuisberto Uauande (cf. aqui)

Assunto: Uma pechincha



O Mestre passa cada vez mais tempo aqui, sinto-o ansioso. Hoje desceu do andar de cima para me perguntar:

-Uauande… tu achas mesmo que vou conseguir empochar os dez mihões?… Precisava tanto de comprar um carrito…

-Mestre... dez mihões não digo… mas um mihãozito é garantido…

-Já chegava para as primeiras impressões, Uauande… a Maria só me pede dinheiro, Uauande…

-É como a minha Uiuiana, Mestre… só sabem pedir dinheiro…

-E o rapaz, Uuauande… o rapaz … aém do curso de chef… agora quer ir fazer o curso de taberneiro… imagina, Uauande, taberneiro… e as propinas estão tão caras, Uauande…

-Taberneiro, Mestre!?…

-Sim, Uauande...para servir vinho de graça aos convidados…

-Não se preocupe, Mestre… o Papá Encarnação já está a eaborar a queixa… enquanto a sociedade de advogados conversa os juízes e os magistrados do Ministério Púbico… e o Rocha de Matosinhos estuda a CEDH  para se certificar que ea não se apica á no rectânguo…

-E o Papá Encarnação está-se a queixar de quê, Uauande!?

-Que a tropa á de baixo he chamou padreca, Mestre!...

-E depois, Uauande!?…

-Depois, Mestre… o Mestre ficou como o Rangeu…

-E como é que ficou o Rangeu, Uauande…?

-Ohe, Mestre… eia aqui… eia aqui… humihado… vexado… triste… irritado… desgostoso...revotado...

-Coitado do Rangeu, Uauande...E depois... Uauande... como é que a gente saca o mihão à matosa á de baixo…?

-Deixe isso com o Papá Encarnação, Mestre…

-(…)

-À boca do jugamento, Mestre...o Papá Encarnação propõe à cambada á de baixo desistir da queixa se ees pagarem um mihão…

-E ees vão nisso, Uauande?

-Garantido, Mestre… um desconto de 90% numa queixa certificada pelo Ministério Púbico, Mestre...é uma autêntica pechincha ...Quem é que não aproveita, Mestre?...


28 fevereiro 2020

Crime não é trabalho

No post em baixo citei o parágrafo final do artigo do Francisco Teixeira da Mota de hoje no Público.

Neste post, proponho-me transcrever um trecho mais longo do mesmo artigo para, no final, tirar uma conclusão e deixar uma pergunta (os ênfases são meus):

"Os factos já foram abundantemente divulgados: em 2006, Ricardo Sá Fernandes foi abordado pelo empresário Domingos Névoa com o intuito de corromper o seu irmão José Sá Fernandes e gravou a conversa que o corruptor teve consigo sem, naturalmente, o informar que ia proceder a tal gravação. De seguida, foi à Polícia Judiciária, entregou a gravação e, já com autorização judicial, procedeu à gravação de uma outra conversa com o corruptor, assim permitindo que o mesmo viesse  a ser condenado pelo crime de corrupção.
(…) 
Certo é que o construtor civil em causa, incomodado por ter sido exposto nacionalmente como um corruptor, moveu contra Sá Fernandes as mais diversas ações, cíveis e criminais, nunca tendo tido qualquer êxito em nenhuma delas, salvo no processo em que eu patrocinei Sá Fernandes, nacional e internacionalmente, e sobre o qual o Tribunal Europeu dos Direitos do Homem se pronunciou esta semana" 

Conclusão: O construtor civil cometeu o crime de corrupção pelo qual viria a ser condenado. E cometeu também os crimes de acusar falsamente um inocente [Sá Fernandes] e de litigar de má-fé contra ele.

Nestes últimos crimes, o construtor civil teve a cumplicidade do seu advogado.

Pergunta: O que é que acontece ao advogado que, em nome do seu cliente, acusa falsamente uma pessoa de crimes que ela não cometeu e litiga de má-fé contra ela?

Gostava que o Teixeira da Mota respondesse a  esta questão num dos seus próximos artigos. A Ordem dos Advogados ou a Lei terão alguma penalização para este advogado?

Não venha dizer que o advogado está a trabalhar. Não está. Está a cometer um crime (na realidade, vários crimes). Crime não é trabalho.

O cirurgião que propositadamente retira o fígado ao seu paciente não está a trabalhar. Está a cometer um crime [de homicídio]

Quando os advogados deixarem de ter licença para serem criminosos - criminosos legais, é certo, mas, ainda assim, criminosos - a Justiça em Portugal vai melhorar substancialmente. O mesmo vale para os magistrados do Ministério Público que, na prática, são os advogados de acusação por parte do Estado.

Quando uns e outros responderem pelos crimes que cometem no exercício da sua profissão, como qualquer pessoa normal (v.g., médico, motorista), o mundo da Justiça no país vai mudar para muito melhor. E o negócio dos crimes - que tem normalmente os advogados como intermediários e principais beneficiários - vai baixar drasticamente.

É muito curioso - e, certamente, bastante corporativo - que o advogado Teixeira da Mota mencione pelo nome o empresário Domingos Névoa mas nunca mencione o nome do seu colega a quem o Domingos Névoa pagou para cometer crimes contra o Sá Fernandes (e dos quais, o Teixeira da Mota, por via indirecta, também beneficiou).

Justiça e decência

"Até quando terão os portugueses de se deslocar a Estrasburgo para encontrar Justiça e decência?" (cf. aqui)

27 fevereiro 2020

Cartas do Purgatório (11)

Para: eitores do Portuga Contemporâneo

De: Feuisberto  Uauande (cf. aqui)

Assunto: "Os indígenas do rés-do-chão" 


Hoje o Mestre passou aqui no primeiro andar com um ar muito apreensivo e perguntou-me:

-Uauande… tu achas mesmo que eu tenho aguma chance de empochar os dez mihões?...

Eu respondi como podia:

-Mestre... á no meu rectânguo tudo é possíveu 

-É que dava mesmo jeito, Uauande… tenho andado com tantas despesas…

-Pois, Mestre... eu sei o que isso é… com a minha Uiuiana Uauande…

-A Maria só me pede dinheiro… e o rapaz quer ir tirar um curso de chef…

-Chef, Mestre… chef de quê?...

-Chef de peixes, Uauande … mutipicação de peixes...vê á tu, Uauande… mutipicação de peixes…

-Mestre... o que é preciso é constituir uma boa equipa…o resto tudo se arranja…

-Para aém do Rocha de Matosinhos e do Papá Encarnação… quem é que me sugeres mais, Uauande?...

-Mestre... sugiro aqui o meu vizinho do ado...o Vasco…

-Para quê, Uauande?...

-Para escrever crónicas para o Diário do Purgatório, Mestre… 

-(…)

-Já estou a ver o títuo da primeira crónica, Mestre… "Os indígenas do rés-do chão"...

-E mais… quem mais, Uauande?…

-Mestre... uma grande sociedade de advogados com um sóido currícuo a comprar juízes e magistrados do Ministério Púbico, Mestre…

-E tens aguma sugestão, Uauande?...

-Tenho, Mestre… mas só he posso dizer ao ouvido…

-Então diz, Uauande…

-Cuatre…

-Quatro quê, Uauande!?...com a idade estou a ficar muito surdo deste ouvido... 

actividade celestial

Aquilo que o Público (cf. aqui) tem revelado é que a Justiça em Portugal se tornou um negócio.

Eu não tenho nada contra os negócios.

Desde que não seja em crimes onde os descontos podem ir até 95% (cf. aqui).

Se é para ser negócio, a justiça tem de ser institucionalizada como negócio.

Não como actividade celestial.

Público

O Público é o jornal que mais e melhor tem trabalhado em prol da reforma democrática da justiça, uma reforma que nunca foi feita, mas que é urgente fazer.

Desta reforma depende uma democracia saudável em que as instituições estejam ao serviço de todos e não apenas de alguns.

Parabéns ao Público e que mantenham o bom trabalho!

Cartas do Purgatório (10)

A: eitores do Portuga Contemporâneo

De: Feuisberto Uauande (cf. aqui)

Assunto: O Rocha de Matosinhos


-Uauande… estou a pensar pôr um processo por difamação aquea mata á de baixo…,

disse-me hoje o Mestre.

-Sim, Mestre… já tenho o teefone do magistrado do Ministério Púbico que o pode ajudar, Mestre…,

respondi eu

-Quem é, Uauande?

-É o Rocha, Mestre...o Rocha de Matosinhos…

-O ta que diz que a Convenção Europeia dos Direitos do Homem não se apica á no teu rectânguo, Uauande?...

-Esse mesmo, Mestre…

-Então, é esse que me convém… Quanto é que achas que devo pedir de indemnização, Uauande?...

-Dez mihões, Mestre…nunca menos…

-Tanto, Uauande?...Será que a gajada á de baixo tem essa massa para me pagar, Uauande?...

-Não faz ma, Mestre… Eu depois recomendo-he um advogado que hes faz 99.9% de desconto, Mestre…

-99.9% de desconto, Uauande… isso é negócio de ciganos, Uauande!?...

-Sim, Mestre… é o Papá Encarnação... 

explicar no Parlamento

"Van Dunem terá de explicar no Parlamento o que se passa na distribuição de processos judiciais" (cf. aqui)

É simples. De vez em quando a máquina avaria. (cf. aqui).

Como medida de emergência tem de se recorrer ao velho método das sortes: "Este vai ter sorte, aquele vai ter azar… este vai ter sorte, aquele vai ter azar…" (cf. aqui)

Oliveira Martins

A referência do Vasco Pulido Valente era o Oliveira Martins, o autor do livro - Portugal Contemporâneo - que dá o nome a este blogue.

Um dia dei-me ao trabalho de reler o Portugal Contemporâneo do Oliveira Martins à procura de encontrar um português de quem ele dissesse bem. Não me lembro de ter encontrado algum.

O Vasco Pulido Valente era igual. Dizia mal de tudo aquilo que era português e de todos os portugueses.

Excepto de um - ele próprio.

O grande milagre da vida do Vasco Pulido Valente foi o de ele ter conseguido viver a vida inteira no meio de 10 milhões de abencerragens.

Seria o próprio Oliveira Martins a baptizar a Geração de 70 como Os Vencidos da Vida (cf. aqui).

Passaram a vida a falar de portugueses derrotados pelo que, eles próprios, só poderiam acabar derrotados.

Cartas do Purgatório (9)

Para: eitores do Portuga Contemporâneo

De: Feuisberto Uauande (cf. aqui)

Assunto: Rangeu



Esta manhã o Mestre passou por aqui de fugida e perguntou-me:

-Uauande!... O que é que se passa á em baixo com o Rangeu!?

-São dois..Mestre...

-Dois... Uauande!?...

-Sim... Mestre… são dois … o juiz … e o poítico…

-Faa-me do Rangeu juiz, Uauande!...

-O Correio da Manhã chamou-he caoteiro e ee ficou ofendido, Mestre…

-E o Rangeu poítico, Uauande…?

-Ah...isso foi o Arroja que he chamou poitiqueiro e ee também ficou ofendido...

-Estou a ver que é do nome, Uauande...os Rangeus ofendem-se muito... Uauande…

-Pois é... Mestre…

-E o que é que aconteceu depois, Uauande?…

-O Rangeu juiz e o Rangeu poitico queixaram-se ao Ministério Púbico…

-(…)

-Os jornalistas foram condenados a pagar ao Rangeu juiz 50 mi e o Arroja foi condenado a pagar ao Rangeu poítico 10 mi…

-Uauande!… teefona já ao Arroja para te dar os nomes dos magistrados do Ministério Púbico que ee conhece…

-Para quê, Mestre!?

-Ontem fui á a baixo ao rés-do-chão e aquea canahada ofendeu-me... imagina… chamaram-me padreca, Uauande...

o funcionário público

O Vasco Pulido Valente era o exemplo acabado do funcionário público presunçoso sempre a dizer mal da mão que lhe dava de comer - a dos contribuintes portugueses.

Só se lhe conhecem empregos no sector público à parte o gancho da Católica. Talvez porque, no sector privado, ao segundo dia, seria despedido.

Aquilo que dá importância social decisiva ao intelectual, e torna o intelectual verdadeiramente livre,  é a sua desinstitucionalização. O Vasco Pulido Valente nunca fez isso. Criticava o sistema mas não podia passar sem ele.

Da Geração de 70 só o Antero de Quental parece ter sido excepção.

No fundo, era um saudosista da sociedade fechada, aristocrática, retrógrada e pomposa do passado e um adversário da democracia. Para ele, o povo eram os indígenas. 

Aquele detalhe de ter rejeitado os apelidos do pai para adoptar os da mãe diz muito acerca do seu pensamento social. Para ele, a relevância social vinha do nome de família, não do trabalho aplicado e do mérito como é próprio de uma sociedade aberta, progressiva e democrática.

Sempre crítico dos políticos da democracia, não recusou ele próprio fazer umas perninhas pela política partidária e até pelo poder. A ultima, como deputado do PSD, durou poucos meses e veio embora queixando-se que o restaurante do Paramento era um cochicho.

sem descanso

A Justiça sem descanso: "Ex-presidente da Relação usou tribunal para ganhar 280 mil euros com julgamento privado"  (cf. aqui e aqui)

26 fevereiro 2020

150 anos de atraso

O Vasco Pulido Valente - Deus lhe tenha a alma em descanso - era o intelectual da Geração de 70 com 150 anos de atraso.

Sobre decência e vergonha

Há dias dediquei-lhe um post (cf. aqui) e hoje já o citei em baixo, mas gostaria de reiterar que é mais um excelente artigo do juiz Manuel Soares, presidente do sindicato do juízes, aquele que ele assina hoje no Público (cf. aqui).

É assim que deve ser, como ele diz. Muito bem.