Top-5:
1
2
3
4
5
31 agosto 2017
30 agosto 2017
o fim
Nessa tarde de Setembro cheguei cedo a Lisboa. Estacionei o carro num dos parques das Avenidas Novas e pus-me a passear por ali a fazer horas para a reunião. Iria ser recebido, às 14:30, pelo vice-presidente do Tribunal de Contas, juiz-conselheiro José Tavares, na sede da instituição, na Avenida da República, próximo do Saldanha.
Aquela zona da cidade era-me familiar, já tinha estado por ali três semanas antes, no Ministério da Saúde. Olhando para oeste na avenida, descortinava-se ao fundo o arvoredo do Campo Grande onde, lá mais para a direita, havia de estar escondida a um canto a pequena igreja onde eu fora baptizado. Mesmo ali próximo, o bairro de Alvalade onde eu nascera.
Olhando para o outro lado da avenida, o Saldanha e depois, descendo sobre a esquerda havia de estar o largo de D. Estefânia, e o café Vitória, onde eu pedira namoro à minha mulher havia mais de quarenta anos. Tínhamos estudado os dois por ali numa dependência do Instituto Comercial de Lisboa que funcionava nas antigas instalações da Escola António Arroio.
É interessante como a vida pode dar tantas voltas - pensava eu - e levar-nos de volta ao ponto de partida. Aqueles eram os lugares que eu tinha frequentado em criança e na adolescência. E agora estava de volta a eles por causa de crianças e de adolescentes.
Mas se me perguntassem por que é que eu estava ali naquele momento, eu não saberia responder - era um mistério que só desvendaria várias semanas mais tarde. Tinha sido eu a pedir a reunião no Tribunal de Contas, mas eu não tinha descoberto ainda quem é que tinha metido o Tribunal de Contas no Joãozinho, ou o Joãozinho no Tribunal de Contas.
A que propósito é que o presidente de uma associação mecenática, que ia doar uma obra ao Estado, que era uma instituição privada, e que não aceitava dinheiros do Estado, estava ali para prestar contas ao Tribunal de Contas, que tem por missão zelar pela boa utilização dos dinheiros do Estado?
Esta era uma ironia que, na altura, eu não conseguia ainda compreender.
Tudo começou em Junho. Depois da agitação produzida pelo meu comentário de finais de Maio no Porto Canal sobre o Dr. Paulo Rangel e a Cuatrecasas, rapidamente a Dra. Fátima Pereira e os serviços jurídicos do HSJ chegaram a acordo sobre a versão final do protocolo tripartido, a Cuatrecasas tendo sido afastada desta fase final do processo.
Estando o protocolo pronto a ser assinado, os camiões da Lucios e da Somague iriam em breve poder avançar sobre o Hospital de S. João e, finalmente, começar a obra.
Ou assim pensava eu.
Vivia dias de optimismo e esperança quando, um desses dias de manhã, a Dra. Fátima Pereira me entrou pelo gabinete dentro com cara de caso.
Tinha recebido um telefonema do Dr. João Oliveira a dizer-lhe que o Tribunal de Contas tinha pedido ao Hospital de S. João informações sobre o protocolo e a obra do Joãozinho, em resultado do alvoroço mediático provocado pela minha intervenção do Porto Canal. E, agora, enquanto, o Tribunal de Contas não se pronunciasse, a obra não poderia começar.
Fiquei para morrer. O Tribunal de Contas metido nisto!? Iria passar um ano até que o Tribunal de Contas se pronunciasse e eu não iria ter maneira de segurar as construtoras. Desde há dois meses que elas aguardavam o início da obra com as equipas de trabalho contratadas. Era o fim do Projecto Joãozinho, era o fim de tudo o que tinha feito - eu não iria conseguir aguentar um ano ou mais de espera.
Pela primeira vez senti que estava tudo acabado.
Aquela zona da cidade era-me familiar, já tinha estado por ali três semanas antes, no Ministério da Saúde. Olhando para oeste na avenida, descortinava-se ao fundo o arvoredo do Campo Grande onde, lá mais para a direita, havia de estar escondida a um canto a pequena igreja onde eu fora baptizado. Mesmo ali próximo, o bairro de Alvalade onde eu nascera.
Olhando para o outro lado da avenida, o Saldanha e depois, descendo sobre a esquerda havia de estar o largo de D. Estefânia, e o café Vitória, onde eu pedira namoro à minha mulher havia mais de quarenta anos. Tínhamos estudado os dois por ali numa dependência do Instituto Comercial de Lisboa que funcionava nas antigas instalações da Escola António Arroio.
É interessante como a vida pode dar tantas voltas - pensava eu - e levar-nos de volta ao ponto de partida. Aqueles eram os lugares que eu tinha frequentado em criança e na adolescência. E agora estava de volta a eles por causa de crianças e de adolescentes.
Mas se me perguntassem por que é que eu estava ali naquele momento, eu não saberia responder - era um mistério que só desvendaria várias semanas mais tarde. Tinha sido eu a pedir a reunião no Tribunal de Contas, mas eu não tinha descoberto ainda quem é que tinha metido o Tribunal de Contas no Joãozinho, ou o Joãozinho no Tribunal de Contas.
A que propósito é que o presidente de uma associação mecenática, que ia doar uma obra ao Estado, que era uma instituição privada, e que não aceitava dinheiros do Estado, estava ali para prestar contas ao Tribunal de Contas, que tem por missão zelar pela boa utilização dos dinheiros do Estado?
Esta era uma ironia que, na altura, eu não conseguia ainda compreender.
Tudo começou em Junho. Depois da agitação produzida pelo meu comentário de finais de Maio no Porto Canal sobre o Dr. Paulo Rangel e a Cuatrecasas, rapidamente a Dra. Fátima Pereira e os serviços jurídicos do HSJ chegaram a acordo sobre a versão final do protocolo tripartido, a Cuatrecasas tendo sido afastada desta fase final do processo.
Estando o protocolo pronto a ser assinado, os camiões da Lucios e da Somague iriam em breve poder avançar sobre o Hospital de S. João e, finalmente, começar a obra.
Ou assim pensava eu.
Vivia dias de optimismo e esperança quando, um desses dias de manhã, a Dra. Fátima Pereira me entrou pelo gabinete dentro com cara de caso.
Tinha recebido um telefonema do Dr. João Oliveira a dizer-lhe que o Tribunal de Contas tinha pedido ao Hospital de S. João informações sobre o protocolo e a obra do Joãozinho, em resultado do alvoroço mediático provocado pela minha intervenção do Porto Canal. E, agora, enquanto, o Tribunal de Contas não se pronunciasse, a obra não poderia começar.
Fiquei para morrer. O Tribunal de Contas metido nisto!? Iria passar um ano até que o Tribunal de Contas se pronunciasse e eu não iria ter maneira de segurar as construtoras. Desde há dois meses que elas aguardavam o início da obra com as equipas de trabalho contratadas. Era o fim do Projecto Joãozinho, era o fim de tudo o que tinha feito - eu não iria conseguir aguentar um ano ou mais de espera.
Pela primeira vez senti que estava tudo acabado.
o helicóptero
Existiam agora duas parcelas de terreno envolvidas no Projecto Joãozinho. Uma era a parcela de terreno onde seria construído o hospital pediátrico, a outra, situada a cerca de cem metros de distância, era a parcela de terreno onde seria construído o supermercado.
Meses depois, num artigo de página inteira para o Público, a jornalista Margarida Gomes misturou acidentalmente as duas parcelas de terreno numa só e informava os seus leitores que eu tinha andado a negociar clandestinamente com o Continente a instalação de um supermercado na parcela de terreno que me tinha sido cedida pelo HSJ para construir o hospital pediátrico.
Agarrei logo a ideia, na qual vi imediatamente substanciais economias de escala e também de escopo. A minha imaginação pegou fogo. Eu considerava o Continente a ideia mais valiosa que tinha tido ao serviço do Joãozinho. Mas agora tinha outra que complementava a anterior e que tornava o Joãozinho um projecto mecenático verdadeiramente original e único no mundo.
Era a de construir o hospital pediátrico e o supermercado na mesma parcela de terreno.
Das duas versões que pude considerar da ideia - construir o hospital pediátrico em cima do supermercado ou o supermercado em cima do hospital pediátrico - a que mais me agradou foi definitivamente a segunda. Por questões de estética.
Mas havia vários problemas logísticos a resolver.
Como é que se fariam os acessos ao supermercado, pela recepção do hospital ou pelo corredor que dava para a enfermaria? E neste segundo caso, como disciplinar o trânsito entre macas, cadeiras de rodas e carrinhos de compras - seriam necessários semáforos? É que ia haver acidentes de certeza...
E o movimento nos elevadores, como seria ? Eu conseguia imaginar os maqueiros a descerem de urgência pelo elevador uma criança para a sala de operações, e a D. Maria comprimida ao canto, o carro a abarrotar de compras, a protestar para o marido: "Que horror... estes elevadores não têm espaço nenhum...Para a semana vamos mas é ao Pingo Doce que os preços aqui estão fogo..."
De madrugada, eu imaginava o camião de abastecimento do Continente a descarregar os frescos na recepção e a barrar o caminho à ambulância, as sirenes ainda a tocar, as luzes intermitentes, os dois motoristas a discutirem acaloradamente à chuva quem é que tinha prioridade...
E o helicóptero ... onde é que iria aterrar o helicóptero?...
Meses depois, num artigo de página inteira para o Público, a jornalista Margarida Gomes misturou acidentalmente as duas parcelas de terreno numa só e informava os seus leitores que eu tinha andado a negociar clandestinamente com o Continente a instalação de um supermercado na parcela de terreno que me tinha sido cedida pelo HSJ para construir o hospital pediátrico.
Agarrei logo a ideia, na qual vi imediatamente substanciais economias de escala e também de escopo. A minha imaginação pegou fogo. Eu considerava o Continente a ideia mais valiosa que tinha tido ao serviço do Joãozinho. Mas agora tinha outra que complementava a anterior e que tornava o Joãozinho um projecto mecenático verdadeiramente original e único no mundo.
Era a de construir o hospital pediátrico e o supermercado na mesma parcela de terreno.
Das duas versões que pude considerar da ideia - construir o hospital pediátrico em cima do supermercado ou o supermercado em cima do hospital pediátrico - a que mais me agradou foi definitivamente a segunda. Por questões de estética.
Mas havia vários problemas logísticos a resolver.
Como é que se fariam os acessos ao supermercado, pela recepção do hospital ou pelo corredor que dava para a enfermaria? E neste segundo caso, como disciplinar o trânsito entre macas, cadeiras de rodas e carrinhos de compras - seriam necessários semáforos? É que ia haver acidentes de certeza...
E o movimento nos elevadores, como seria ? Eu conseguia imaginar os maqueiros a descerem de urgência pelo elevador uma criança para a sala de operações, e a D. Maria comprimida ao canto, o carro a abarrotar de compras, a protestar para o marido: "Que horror... estes elevadores não têm espaço nenhum...Para a semana vamos mas é ao Pingo Doce que os preços aqui estão fogo..."
De madrugada, eu imaginava o camião de abastecimento do Continente a descarregar os frescos na recepção e a barrar o caminho à ambulância, as sirenes ainda a tocar, as luzes intermitentes, os dois motoristas a discutirem acaloradamente à chuva quem é que tinha prioridade...
E o helicóptero ... onde é que iria aterrar o helicóptero?...
29 agosto 2017
eufórico
Quando, no final de Julho, arrumei as coisas e parti para férias, deixei dois pedidos à minha secretária:
-Por favor, marque-me uma reunião com o secretário de Estado da Saúde, Dr. Manuel Teixeira... e outra com o Presidente do Tribunal de Contas... O assunto é o mesmo, o Joãozinho ... Qualquer dia e hora para mim estão bem... Vou estar em S. Martinho do Porto e ponho-me em Lisboa no espaço de uma hora.
A reunião no Ministério da Saúde veio primeiro e ocorreu no final de Agosto. Eu tinha estado com o Dr. Manuel Teixeira pela última vez em Novembro e tinha agora três assuntos a tratar com ele.
Primeiro, dar-lhe a conhecer os desenvolvimentos do Projecto Joãozinho desde essa data. Segundo, dar-lhe uma palavra sobre o bruabá mediático de finais de Maio que muito provavelmente tinha chegado ao seu conhecimento. Terceiro, apresentar-lhe o "Dossier Mecenas-Continente".
Descrevi-lhe o Dossier em detalhe e deixei-lhe uma cópia da documentação, que incluía o projecto do supermercado. Acrescentei que este dossier, depois de descontado num banco, permitiria pagar mais de metade da nova ala pediátrica do HSJ. E não apenas isso. Estando o Continente envolvido no Joãozinho a esta dimensão, muitas outras empresas viriam atrás e, juntamente com todas aquelas que já estavam envolvidas, a obra estaria paga e ainda sobrava dinheiro.
Se concordasse com a operação, vinha pedir-lhe que o Ministério da Saúde desse autorização para o HSJ ceder o terreno à Associação.
Não apenas se dispôs prontamente a dar a autorização pelo Ministério da Saúde como se disponibilizou para ele próprio ir junto da sua colega das Finanças para o mesmo fim. Instruiu-me, em seguida, acerca de como devia proceder para respeitar os canais institucionais.
Deveria escrever uma carta à Administração do HSJ, capeando o dossier, pedindo-lhe a cedência do espaço ao abrigo da Lei do Mecenato e como contrapartida da obra que a Associação se propunha fazer em benefício do Hospital. A administração do HSJ remeteria o dossier para ele, e ele trataria do resto.
Ao sair dali, eu estava de tal maneira eufórico que telefonei imediatamente ao professor António Ferreira para lhe descrever o teor da reunião com o secretário de Estado. Às minhas colegas da direcção que, como eu, se encontravam de férias, escrevi assim a 25 de Agosto:
Dias depois, quando regressei ao Porto, encontrei-me com o professor António Ferreira no meu escritório, e disse-lhe como iria proceder, seguindo as instruções do secretário de Estado que ele, entretanto, também teria recebido.
E assim fiz. Enviei a carta à administração do HSJ, incluindo o anexo relativo à identificação do espaço a ceder.
A carta nunca viria a chegar ao Ministério da Saúde.
-Por favor, marque-me uma reunião com o secretário de Estado da Saúde, Dr. Manuel Teixeira... e outra com o Presidente do Tribunal de Contas... O assunto é o mesmo, o Joãozinho ... Qualquer dia e hora para mim estão bem... Vou estar em S. Martinho do Porto e ponho-me em Lisboa no espaço de uma hora.
A reunião no Ministério da Saúde veio primeiro e ocorreu no final de Agosto. Eu tinha estado com o Dr. Manuel Teixeira pela última vez em Novembro e tinha agora três assuntos a tratar com ele.
Primeiro, dar-lhe a conhecer os desenvolvimentos do Projecto Joãozinho desde essa data. Segundo, dar-lhe uma palavra sobre o bruabá mediático de finais de Maio que muito provavelmente tinha chegado ao seu conhecimento. Terceiro, apresentar-lhe o "Dossier Mecenas-Continente".
Descrevi-lhe o Dossier em detalhe e deixei-lhe uma cópia da documentação, que incluía o projecto do supermercado. Acrescentei que este dossier, depois de descontado num banco, permitiria pagar mais de metade da nova ala pediátrica do HSJ. E não apenas isso. Estando o Continente envolvido no Joãozinho a esta dimensão, muitas outras empresas viriam atrás e, juntamente com todas aquelas que já estavam envolvidas, a obra estaria paga e ainda sobrava dinheiro.
Se concordasse com a operação, vinha pedir-lhe que o Ministério da Saúde desse autorização para o HSJ ceder o terreno à Associação.
Não apenas se dispôs prontamente a dar a autorização pelo Ministério da Saúde como se disponibilizou para ele próprio ir junto da sua colega das Finanças para o mesmo fim. Instruiu-me, em seguida, acerca de como devia proceder para respeitar os canais institucionais.
Deveria escrever uma carta à Administração do HSJ, capeando o dossier, pedindo-lhe a cedência do espaço ao abrigo da Lei do Mecenato e como contrapartida da obra que a Associação se propunha fazer em benefício do Hospital. A administração do HSJ remeteria o dossier para ele, e ele trataria do resto.
Ao sair dali, eu estava de tal maneira eufórico que telefonei imediatamente ao professor António Ferreira para lhe descrever o teor da reunião com o secretário de Estado. Às minhas colegas da direcção que, como eu, se encontravam de férias, escrevi assim a 25 de Agosto:
Estive ontem com o Sec. Estado da
Saúde, Dr. Manuel Teixeira, a desencadear a "Operação
Continente".
A receptividade foi
total.
Reúne em Lisboa esta Quinta-feira
com o Prof. AF e darão seguimento imediato ao
assunto.
Com um pouco de sorte teremos o OK
do Min. da Saúde e das Finanças ainda antes das
eleições.
PA
Dias depois, quando regressei ao Porto, encontrei-me com o professor António Ferreira no meu escritório, e disse-lhe como iria proceder, seguindo as instruções do secretário de Estado que ele, entretanto, também teria recebido.
E assim fiz. Enviei a carta à administração do HSJ, incluindo o anexo relativo à identificação do espaço a ceder.
A carta nunca viria a chegar ao Ministério da Saúde.
uma vaca-leiteira
Desde aquele dia depois do Natal que o menino dos meus olhos era o Continente. O próprio professor António Ferreira logo sugeriu que a cedência do terreno seria feita nos mesmo moldes da que tinha sido feita à Fundação Ronald McDonald. Mas também alertou que seria necessária autorização da tutela - o Ministério da Saúde - e também do Ministério das Finanças, e que no caso da Fundação McDonald essas autorizações tinham demorado dois anos.
Não me assustei. Eu resolveria isso em muito menos tempo.
Um mês e meio depois o projecto de supermercado estava pronto e voltámos a reunir no HSJ, o professor António Ferreira e o Dr. João Oliveira por parte do Hospital, eu por parte da Associação, o Eng. Luís Moutinho e o Eng. Diogo Mendes por parte do Continente.
Era um projecto líndissimo e que eu próprio imediatamente baptizei de Continente-Joãozinho. Ficava situado na ala poente dos terrenos do Hospital, na esquina que dá para a Circunvalação e para o IPO, numa parte dos terrenos do Hospital que não tem qualquer utilização útil, e que eu próprio viria a chamar "um matagal". Era a versão Bonjour do Continente, com um pequeno estacionamento exterior e muitos lugares de garagem subterrâneos.
Um supermercado nos terrenos do Hospital? Sim, pois se, para além da Casa McDonald, já lá existe um hotel e até um centro comercial, e também uma farmácia; e, no interior das instalações, um banco, cafeterias e muitas outras lojas. Era uma grande conveniência para os cerca de 5700 empregados do HSJ e, mais geralmente para as quase vinte mil pessoas que diariamente circulam pelos terrenos do Hospital. O HSJ dava mais um passo para se aproximar do conceito americano de Hospital-cidade.
A imagem que eu fazia do futuro supermercado era a de uma vaca-leiteira, permanentemente a espargir leite para alimentar o Joãozinho, que ficava mesmo ali a cem metros de distância, e por muitos e bons anos - cinquenta, que era o prazo por que o HSJ havia cedido o terreno à Fundação McDonald.
Nesse dia, cheguei a casa com uma notícia para dar à minha mulher, que era cliente do Continente, com cartão e tudo, situado nos Pinhais da Foz, a duzentos metros de nossa casa. A notícia era a de que em breve iríamos passar a fazer as compras da semana no Continente-Joãozinho porque uma parte do dinheiro que lá gastássemos reverteria a favor da obra.
Antecipei qual seria a reacção dela - "Vou agora fazer compras para o Hospital de S. João se tenho o Continente mesmo aqui à porta..." -, e preparei a resposta mesmo antes de entrar em casa: "Eu levo-te lá...". Há muito que eu tinha interiorizado que uma das minhas principais funções, no âmbito da economia doméstica, era a de chauffeur.
Outras reuniões iriam de seguida ter lugar no HSJ entre os estados-maiores das três instituições, estando eu ausente de uma delas que só iria tratar de questões técnicas relativas à implantação do supermercado. Mas foi naquela realizada em Fevereiro que, pela primeira vez, se falou de dinheiro, e a minha ideia inicial tinha sido a de pedir ao Continente uma percentagem sobre as vendas.
Mais adiante, viria a afastar-me desta ideia. Preferia, antes, um pagamento fixo anual porque, eliminando a incerteza, me permitiria mais facilmente fazer a intermediação da operação junto da banca. Acabaria por conseguir do Continente as duas coisas, uma contribuição fixa de 300 mil euros por ano - totalizando 15 milhões de euros em 50 anos, desprezando o factor tempo; e uma contribuição variável sobre as vendas das campanhas que anualmente o Continente se comprometia a organizar em favor do Joãozinho.
A arquitectura jurídica da operação estava também encontrada e baseava-se na Lei do Mecenato e no precedente da Fundação Ronald McDonald. A Associação fazia mecenato ao HSJ no valor de 20 milhões de euros. Ora, a lei do mecenato prevê que o beneficiário possa dar contrapartidas em espécie ao mecenas até ao valor de 5% por ano. O terreno a ceder não tinha, nem de longe, no mercado de arrendamento o valor de um milhão de euros (5% de vinte milhões) ao ano.
Assim, o HSJ cedia a parcela de terreno à Associação pelo período de 50 anos, como contrapartida mecenática; e esta, que não tem nem pode ter fins lucrativos, re-cedia a mesma parcela de terreno ao Continente pelo mesmo período e para os mesmos fins..
Não me assustei. Eu resolveria isso em muito menos tempo.
Um mês e meio depois o projecto de supermercado estava pronto e voltámos a reunir no HSJ, o professor António Ferreira e o Dr. João Oliveira por parte do Hospital, eu por parte da Associação, o Eng. Luís Moutinho e o Eng. Diogo Mendes por parte do Continente.
Era um projecto líndissimo e que eu próprio imediatamente baptizei de Continente-Joãozinho. Ficava situado na ala poente dos terrenos do Hospital, na esquina que dá para a Circunvalação e para o IPO, numa parte dos terrenos do Hospital que não tem qualquer utilização útil, e que eu próprio viria a chamar "um matagal". Era a versão Bonjour do Continente, com um pequeno estacionamento exterior e muitos lugares de garagem subterrâneos.
Um supermercado nos terrenos do Hospital? Sim, pois se, para além da Casa McDonald, já lá existe um hotel e até um centro comercial, e também uma farmácia; e, no interior das instalações, um banco, cafeterias e muitas outras lojas. Era uma grande conveniência para os cerca de 5700 empregados do HSJ e, mais geralmente para as quase vinte mil pessoas que diariamente circulam pelos terrenos do Hospital. O HSJ dava mais um passo para se aproximar do conceito americano de Hospital-cidade.
A imagem que eu fazia do futuro supermercado era a de uma vaca-leiteira, permanentemente a espargir leite para alimentar o Joãozinho, que ficava mesmo ali a cem metros de distância, e por muitos e bons anos - cinquenta, que era o prazo por que o HSJ havia cedido o terreno à Fundação McDonald.
Nesse dia, cheguei a casa com uma notícia para dar à minha mulher, que era cliente do Continente, com cartão e tudo, situado nos Pinhais da Foz, a duzentos metros de nossa casa. A notícia era a de que em breve iríamos passar a fazer as compras da semana no Continente-Joãozinho porque uma parte do dinheiro que lá gastássemos reverteria a favor da obra.
Antecipei qual seria a reacção dela - "Vou agora fazer compras para o Hospital de S. João se tenho o Continente mesmo aqui à porta..." -, e preparei a resposta mesmo antes de entrar em casa: "Eu levo-te lá...". Há muito que eu tinha interiorizado que uma das minhas principais funções, no âmbito da economia doméstica, era a de chauffeur.
Outras reuniões iriam de seguida ter lugar no HSJ entre os estados-maiores das três instituições, estando eu ausente de uma delas que só iria tratar de questões técnicas relativas à implantação do supermercado. Mas foi naquela realizada em Fevereiro que, pela primeira vez, se falou de dinheiro, e a minha ideia inicial tinha sido a de pedir ao Continente uma percentagem sobre as vendas.
Mais adiante, viria a afastar-me desta ideia. Preferia, antes, um pagamento fixo anual porque, eliminando a incerteza, me permitiria mais facilmente fazer a intermediação da operação junto da banca. Acabaria por conseguir do Continente as duas coisas, uma contribuição fixa de 300 mil euros por ano - totalizando 15 milhões de euros em 50 anos, desprezando o factor tempo; e uma contribuição variável sobre as vendas das campanhas que anualmente o Continente se comprometia a organizar em favor do Joãozinho.
A arquitectura jurídica da operação estava também encontrada e baseava-se na Lei do Mecenato e no precedente da Fundação Ronald McDonald. A Associação fazia mecenato ao HSJ no valor de 20 milhões de euros. Ora, a lei do mecenato prevê que o beneficiário possa dar contrapartidas em espécie ao mecenas até ao valor de 5% por ano. O terreno a ceder não tinha, nem de longe, no mercado de arrendamento o valor de um milhão de euros (5% de vinte milhões) ao ano.
Assim, o HSJ cedia a parcela de terreno à Associação pelo período de 50 anos, como contrapartida mecenática; e esta, que não tem nem pode ter fins lucrativos, re-cedia a mesma parcela de terreno ao Continente pelo mesmo período e para os mesmos fins..
28 agosto 2017
fariseus
Durante um mês a Associação procurou negociar o protocolo com o HSJ, eu com o professor António Ferreira, a Dra. Fátima Pereira com o Dr. João Oliveira. Estávamos agora sob grande pressão porque a construtora tinha as equipas de trabalho contratadas, os custos estavam a correr, e não havia obra.
Até ao dia em que os telefones do HSJ deixaram de ser atendidos.
Tomei a decisão já no final da semana. O meu próximo comentário no Porto Canal estava à distância de poucos dias. A minha inspiração era Jesus Cristo (Mt: 23). Ele falou à multidão para dizer, alto e bom-som, o que pensava dos fariseus. Deve-lhe ter custado fazer aquilo - a ele, que era um homem que pregava a amizade entre os homens. Mas tinha de ser, ele era a verdade e os fariseus eram só aparência. Havia que separar as águas.
Eu tinha só de escolher o alvo e as palavras certas. Não podia falhar. A margem de erro era zero.
Ninguém iria compreender que o presidente de uma associação mecenática que estava a fazer uma obra em favor das crianças internadas no HSJ se pusesse, em público, contra a administração do próprio Hospital, nem eu tinha, na altura, sinais que implicassem o Hospital. Pelo contrário, tinha era a evidência naquele documento, que podia exibir publicamente, contra a Cuatrecasas. O alvo iria ser a Cuatrecasas, que era a autora do documento.
Eu não sabia quem, na Cuatrecasas, tinha redigido o documento, nem procurei saber. Mas sabia quem era o director. E o director de uma empresa tem obrigação de saber o trabalho que se faz lá dentro e o que sai cá para fora.
Enquanto nesses dias corria sobre os passadiços de Miramar e Francelos, procurei escolher meticulosamente as palavras. Tinham de ser contundentes para despertar o interesse público que eu visava atingir, mas não podiam ser excessivas. Contundência e equilíbrio eram as palavras de ordem. Preparei o tom e, gradualmente, o discurso foi-se construindo no meu espírito.
Na Segunda-feira de manhã, como habitualmente, informei a Fátima Ribeiro de Almeida, produtora do Porto Canal, acerca do teor do meu comentário para essa noite.
Reproduzo o e-mail:
Saiu tudo na perfeição. Directo, contundente, certeiro, impressivo, arrasador.
Consequências? A Cristo tinham-no pregado na cruz. A mim, logo se veria. Mas que eu estava a lidar com verdadeiros fariseus, disso eu já não tinha dúvidas nenhumas.
Dois dias depois, já tinha os primeiros sinais e eram positivos. Uma semana depois, o Hospital de S. João estava a aceitar uma versão razoável do protocolo tripartido que, estando embora ainda longe das minhas expectativas, acabei, mais tarde, por assinar.
Até ao dia em que os telefones do HSJ deixaram de ser atendidos.
Tomei a decisão já no final da semana. O meu próximo comentário no Porto Canal estava à distância de poucos dias. A minha inspiração era Jesus Cristo (Mt: 23). Ele falou à multidão para dizer, alto e bom-som, o que pensava dos fariseus. Deve-lhe ter custado fazer aquilo - a ele, que era um homem que pregava a amizade entre os homens. Mas tinha de ser, ele era a verdade e os fariseus eram só aparência. Havia que separar as águas.
Eu tinha só de escolher o alvo e as palavras certas. Não podia falhar. A margem de erro era zero.
Ninguém iria compreender que o presidente de uma associação mecenática que estava a fazer uma obra em favor das crianças internadas no HSJ se pusesse, em público, contra a administração do próprio Hospital, nem eu tinha, na altura, sinais que implicassem o Hospital. Pelo contrário, tinha era a evidência naquele documento, que podia exibir publicamente, contra a Cuatrecasas. O alvo iria ser a Cuatrecasas, que era a autora do documento.
Eu não sabia quem, na Cuatrecasas, tinha redigido o documento, nem procurei saber. Mas sabia quem era o director. E o director de uma empresa tem obrigação de saber o trabalho que se faz lá dentro e o que sai cá para fora.
Enquanto nesses dias corria sobre os passadiços de Miramar e Francelos, procurei escolher meticulosamente as palavras. Tinham de ser contundentes para despertar o interesse público que eu visava atingir, mas não podiam ser excessivas. Contundência e equilíbrio eram as palavras de ordem. Preparei o tom e, gradualmente, o discurso foi-se construindo no meu espírito.
Na Segunda-feira de manhã, como habitualmente, informei a Fátima Ribeiro de Almeida, produtora do Porto Canal, acerca do teor do meu comentário para essa noite.
Reproduzo o e-mail:
A obra do Joãozinho foi parada.
A política meteu-se pelo
meio.
Por cada dia que passa é mais um dia
em que as crianças sofrendo das doenças as mais graves em toda a região Norte, e
que vão parar ao HSJ, ficam internadas num barracão feito de contentores
metalicos e não num moderno edifício de 5 qndares que a comunidade portuguesa
pretende oferecer ao HSJ.
O boicote a esta obra humanitária
veio através da sociedade de Advogados Cuatrecasas, cujo Director no Porto é o
deputado do PSD Paulo Rangel.
Comentarei em seguida sobre a
promiscuidade entre política e negócios e, em especial, entre política e
sociedades de advogados.
Pedro
Arroja.
Saiu tudo na perfeição. Directo, contundente, certeiro, impressivo, arrasador.
Consequências? A Cristo tinham-no pregado na cruz. A mim, logo se veria. Mas que eu estava a lidar com verdadeiros fariseus, disso eu já não tinha dúvidas nenhumas.
Dois dias depois, já tinha os primeiros sinais e eram positivos. Uma semana depois, o Hospital de S. João estava a aceitar uma versão razoável do protocolo tripartido que, estando embora ainda longe das minhas expectativas, acabei, mais tarde, por assinar.
ao estômago
Era o dia 26 de Abril, o Jantar de Gala no Dragão-Caixa tinha sido um enorme sucesso três dias antes, e o presidente Pinto da Costa, através da sua secretária, tinha-me enviado nessa manhã por e-mail um artigo escrito por si e que sairia brevemente num jornal associado ao F. C. Porto:
Dragão Solidário
No dia em que completei 33 anos na presidência do FC Porto, tive a enorme alegria de ver o «Dragão Caixa» transformado em Dragão Solidário.
De facto, na Gala Joãozinho, ali realizada, respirou-se solidariedade.
Um conjunto de pessoas e instituições juntaram-se para dar o «pontapé de saída» para a construção duma ala pediátrica no Hospital S. João para as crianças que sofrem de cancro e hoje estão instaladas em condições desumanas.
Foi lindo o espectáculo, foi comovente o espirito de união entre todos, para uma obra que devia competir ao estado realizar, mas que só «arrancou» pela vontade dos que aqui estiveram no dia 23 de Abril.
Desde logo tenho que salientar e agradecer a lição de vida em favor dos necessitados, que o Prof. Pedro Arroja, alma mater do evento, nos transmitia a todos, sem excepção.
Por isso, a presença do nosso querido Bispo do Porto D. António Francisco dos Santos, verdadeiramente a primeira figura da nossa cidade, que nos marcou a todos, como sinal do caminho a seguir – lutar para que o pavilhão se construa.
E ele será construído!
Há empresas que não têm no seu vocabulário, apenas, a palavra ganhar, mas também a «solidariedade». Só assim a Somague e a Lucius iniciaram a obra, acreditando nos homens, e pensando nas crianças doentes.
As grandes instituições da cidade, que são o nosso orgulho, estiveram «quase» todas representadas,
- A universidade na pessoa do seu Digníssimo Reitor Professor Doutor Sebastião Feyo de Azevedo.
- O Hospital de S. João com uma equipa liderada pelo Presidente do Conselho de Administração, Professor Doutor António Ferreira.
- A Santa Casa da Misericórdia do Porto, com uma delegação que incluía o seu provedor António Tavares.
- A Câmara Municipal de Gaia com uma representação significativa, em que figurava o seu Presidente Dr. Eduardo Vitor Rodrigues.
- A presença do deputado Luis Montenegro, do Prof. Sobrinho Simões, do Dr. Silva Peneda, e tanta gente do mais alto gabarito da sociedade nortenha, fazem-nos acreditar que a obra não será só um sonho.
Por último mencionar com uma profunda gratidão, a presença sem encargos dos artistas Rui Reininho e Paulo Gonzo. Grandes artistas e enormes seres humanos. Ambos, desde a primeira hora aderiram à causa, de alma e coração.
Poucos dias antes da Gala, a querida companheira do Paulo Gonzo, Pequenina Rodrigues, sofreu um terrivel acidente, que lhe provocaram danos que a levaram a um estado de coma. Mesmo assim, e explicando-me que não podia fazer nada, nem estar junto do seu amor, entendeu estar presente para poder ajudar as crianças que sofrem. Que grandeza de alma, que coração cheio de amor isto revela. Que lição para todos. Que orgulho do Paulo, terá neste momento Pequenina Rodrigues, que entretanto partiu para junto de Deus (...).
Dragão Solidário
No dia em que completei 33 anos na presidência do FC Porto, tive a enorme alegria de ver o «Dragão Caixa» transformado em Dragão Solidário.
De facto, na Gala Joãozinho, ali realizada, respirou-se solidariedade.
Um conjunto de pessoas e instituições juntaram-se para dar o «pontapé de saída» para a construção duma ala pediátrica no Hospital S. João para as crianças que sofrem de cancro e hoje estão instaladas em condições desumanas.
Foi lindo o espectáculo, foi comovente o espirito de união entre todos, para uma obra que devia competir ao estado realizar, mas que só «arrancou» pela vontade dos que aqui estiveram no dia 23 de Abril.
Desde logo tenho que salientar e agradecer a lição de vida em favor dos necessitados, que o Prof. Pedro Arroja, alma mater do evento, nos transmitia a todos, sem excepção.
Por isso, a presença do nosso querido Bispo do Porto D. António Francisco dos Santos, verdadeiramente a primeira figura da nossa cidade, que nos marcou a todos, como sinal do caminho a seguir – lutar para que o pavilhão se construa.
E ele será construído!
Há empresas que não têm no seu vocabulário, apenas, a palavra ganhar, mas também a «solidariedade». Só assim a Somague e a Lucius iniciaram a obra, acreditando nos homens, e pensando nas crianças doentes.
As grandes instituições da cidade, que são o nosso orgulho, estiveram «quase» todas representadas,
- A universidade na pessoa do seu Digníssimo Reitor Professor Doutor Sebastião Feyo de Azevedo.
- O Hospital de S. João com uma equipa liderada pelo Presidente do Conselho de Administração, Professor Doutor António Ferreira.
- A Santa Casa da Misericórdia do Porto, com uma delegação que incluía o seu provedor António Tavares.
- A Câmara Municipal de Gaia com uma representação significativa, em que figurava o seu Presidente Dr. Eduardo Vitor Rodrigues.
- A presença do deputado Luis Montenegro, do Prof. Sobrinho Simões, do Dr. Silva Peneda, e tanta gente do mais alto gabarito da sociedade nortenha, fazem-nos acreditar que a obra não será só um sonho.
Por último mencionar com uma profunda gratidão, a presença sem encargos dos artistas Rui Reininho e Paulo Gonzo. Grandes artistas e enormes seres humanos. Ambos, desde a primeira hora aderiram à causa, de alma e coração.
Poucos dias antes da Gala, a querida companheira do Paulo Gonzo, Pequenina Rodrigues, sofreu um terrivel acidente, que lhe provocaram danos que a levaram a um estado de coma. Mesmo assim, e explicando-me que não podia fazer nada, nem estar junto do seu amor, entendeu estar presente para poder ajudar as crianças que sofrem. Que grandeza de alma, que coração cheio de amor isto revela. Que lição para todos. Que orgulho do Paulo, terá neste momento Pequenina Rodrigues, que entretanto partiu para junto de Deus (...).
Foi depois ler este artigo do presidente Pinto da Costa, que naturalmente me encheu de satisfação, que comecei a ler o protocolo que tinha acabado de receber do Hospital de S. João.
À medida que os meus olhos iam passando pelo clausulado, lentamente eu ia interiorizando a mensagem que aquele documento trazia para mim e para a Associação Joãozinho: "Não assinem!".
E a mensagem era transmitida com requintes. Chegava ao ponto de imputar à Associação Joãozinho a obtenção das licenças de construção para a ala pediátrica do HSJ, como se fosse possível a Associação pedir licenças para construir em terrenos que não eram seus.
E a mensagem era transmitida com requintes. Chegava ao ponto de imputar à Associação Joãozinho a obtenção das licenças de construção para a ala pediátrica do HSJ, como se fosse possível a Associação pedir licenças para construir em terrenos que não eram seus.
Naquele momento, eu estava pronto a subir pelas paredes acima, mas decidi não me precipitar. Telefonei ao Dr. Miguel Cadilhe pedindo-lhe que passasse pelo meu escritório, tinha um assunto a tratar com ele. Eu não queria cometer nenhuma injustiça para com o Hospital de S. João, e ninguém como o Dr. Miguel Cadilhe para me conter.
Ele era um grande amigo do HSJ. Ele tinha sido o fundador da Liga dos Amigos do Hospital de S. João e era o seu sócio número um. Tinha sido por sua acção que a Liga já tinha entregue vinte mil euros à Associação para a obra do Joãozinho.
No dia seguinte, estávamos os dois no meu gabinete. Dei-lhe o documento a ler com a pergunta "O senhor assinava este documento se estivesse no meu lugar?", e fiquei em silêncio.
No fim, quando levantou a cabeça disse, com um ar pesaroso:
-É um documento leonino... ingrato ... e...,
utilizando um terceiro adjectivo que não recordo.
No mesmo dia telefonei ao presidente de uma empresa que tinha assinado dias antes um grande acordo de mecenato com a Associação Joãozinho e enviei-lhe o documento por e-mail. No dia seguinte, voltei a ligar-lhe para saber a reacção:
-Até me deu volta ao estômago...
proibida a entrada
Todas as exigências feitas pelo HSJ sobre o contrato de empreitada foram aceites pela Associação e pelo consórcio construtor. O processo foi conduzido pela Dra. Fátima Pereira, da Associação Joãozinho, intermediando as relações entre, por um lado os serviços jurídicos das duas construtoras e o HSJ, na pessoa do administrador João Oliveira, que se apoiava na assessora jurídica do Hospital - a sociedade de advogados Cuatrecasas.
A principal exigência dizia respeito ao chamado direito de retenção, mediante o qual as construtoras renunciavam ao direito de propriedade sobre a obra já realizada, em caso de incumprimento do pagamento por parte da Associação.
Os grandes beneficiários desta obra mecenática eram as crianças, presentes e futuras, internadas no HSJ, mas institucionalmente era o próprio HSJ. Porém, a administração do HSJ comportava-se agora de uma maneira que me fazia lembrar um amigo de juventude, que nunca passou de furriel na tropa, mas que se considerava muito importante, e que exprimia esse sentimento de auto-importância, dizendo constantemente para quem o queria ouvir: "Quem quiser que me engraxe as botas" .
A exigência respeitante ao direiro de retenção também foi aceite mas era, em parte, redundante. De facto, o acordo a que eu chegara com as construtoras - e que se baseava na minha confiança total em obter o dinheiro para fazer andar a obra -, segundo o qual a obra seria feita à medida das disponibilidades financeiras da Associação, tinha expressão numa cláusula do contrato que estipulava que os trabalhos só avançavam - e só iriam avançando à medida - das entregas de dinheiro feitas pela Associação ao consórcio construtor.
Por outras palavras, esta era uma obra em que os trabalhos a realizar em cada mês seriam pagos antecipadamente. E eu já tinha em meu poder um mapa que previa os trabalhos a realizar em cada um dos 24 meses previstos para a execução da obra, e o respectivo custo. O primeiro milhão de euros que eu iria entregar à construtora com o início dos trabalhos dava exactamente para os primeiros quatro meses de trabalhos.
Aceites todas as imposições do HSJ, o contrato estava pronto a ser assinado entre a Associação Joãozinho e o consórcio construtor. Pedi à Dra. Fátima Pereira que comunicasse ao Dr. João Oliveira que iríamos proceder à assinatura imediata do contrato e que, na semana seguinte, daríamos início à obra.
Dias depois, recebemos na Associação a notícia, vinda da construtora, de que tinha enviado o pessoal e os camiões para o HSJ para procederem aos trabalhos de demolição, mas que lhes tinha sido proibida a entrada, e tiveram de voltar para trás.
A Dra. Fátima Pereira contactou imediatamente o administrador João Oliveira para saber o que se passava. Este respondeu-lhe que enquanto não fosse assinado um protocolo tripartido, regulando as relações entre a Associação Joãozinho, o consórcio construtor e o Hospital de S. João, a obra não poderia ser iniciada.
Cerca de uma semana depois, por e-mail - via Dr. João Oliveira e Dra. Fátima Pereira -, o protocolo chegava a mim, e eu sentava-me calmamente à secretária para o ler. Era um documento de cerca de dez páginas e tinha o logotipo da Cuatrecasas.
A principal exigência dizia respeito ao chamado direito de retenção, mediante o qual as construtoras renunciavam ao direito de propriedade sobre a obra já realizada, em caso de incumprimento do pagamento por parte da Associação.
Os grandes beneficiários desta obra mecenática eram as crianças, presentes e futuras, internadas no HSJ, mas institucionalmente era o próprio HSJ. Porém, a administração do HSJ comportava-se agora de uma maneira que me fazia lembrar um amigo de juventude, que nunca passou de furriel na tropa, mas que se considerava muito importante, e que exprimia esse sentimento de auto-importância, dizendo constantemente para quem o queria ouvir: "Quem quiser que me engraxe as botas" .
A exigência respeitante ao direiro de retenção também foi aceite mas era, em parte, redundante. De facto, o acordo a que eu chegara com as construtoras - e que se baseava na minha confiança total em obter o dinheiro para fazer andar a obra -, segundo o qual a obra seria feita à medida das disponibilidades financeiras da Associação, tinha expressão numa cláusula do contrato que estipulava que os trabalhos só avançavam - e só iriam avançando à medida - das entregas de dinheiro feitas pela Associação ao consórcio construtor.
Por outras palavras, esta era uma obra em que os trabalhos a realizar em cada mês seriam pagos antecipadamente. E eu já tinha em meu poder um mapa que previa os trabalhos a realizar em cada um dos 24 meses previstos para a execução da obra, e o respectivo custo. O primeiro milhão de euros que eu iria entregar à construtora com o início dos trabalhos dava exactamente para os primeiros quatro meses de trabalhos.
Aceites todas as imposições do HSJ, o contrato estava pronto a ser assinado entre a Associação Joãozinho e o consórcio construtor. Pedi à Dra. Fátima Pereira que comunicasse ao Dr. João Oliveira que iríamos proceder à assinatura imediata do contrato e que, na semana seguinte, daríamos início à obra.
Dias depois, recebemos na Associação a notícia, vinda da construtora, de que tinha enviado o pessoal e os camiões para o HSJ para procederem aos trabalhos de demolição, mas que lhes tinha sido proibida a entrada, e tiveram de voltar para trás.
A Dra. Fátima Pereira contactou imediatamente o administrador João Oliveira para saber o que se passava. Este respondeu-lhe que enquanto não fosse assinado um protocolo tripartido, regulando as relações entre a Associação Joãozinho, o consórcio construtor e o Hospital de S. João, a obra não poderia ser iniciada.
Cerca de uma semana depois, por e-mail - via Dr. João Oliveira e Dra. Fátima Pereira -, o protocolo chegava a mim, e eu sentava-me calmamente à secretária para o ler. Era um documento de cerca de dez páginas e tinha o logotipo da Cuatrecasas.
549
O entendimento com a Lucios e a Somague foi rápido e teve lugar no meu escritório, entre mim e os presidentes das duas companhias. Depois de lhes agradecer muito aquilo que tinham feito, permitindo-me ultrapassar a maior - e até à data, a única - dificuldade que tinha encontrado para fazer esta obra, passámos imediatamente ao trabalho e eu próprio propus as condições financeiras da nossa relação.
Primeira, o preço a pagar seria o preço médio das propostas apresentadas pelas duas construtoras, o qual foi prontamente calculado - 20,2 milhões de euros (mais IVA) -, e aceite.
Segunda, pedia que as duas construtoras se comprometessem como mecenas do Joãozinho, subscrevendo cada uma delas um acordo de mecenato com a Associação e com contribuições anuais de 30 mil euros cada uma, durante o período de dez anos, condição que foi pronta e igualmente aceite.
Terceira, a minha ideia inicial, e que estava prevista no concurso, era a de pagar a dez anos. Mas os avanços que entretanto tinha feito, garantiam-me que conseguiria pagar a obra dentro do prazo de execução (dois anos), ou pouco mais. Assim, para além do pagamento inicial de um milhão de euros, propunha que a obra fosse feita à medida das disponibilidades financeiras da Associação - o que estenderia a obra no máximo até três anos.
O pagamento inicial daria para os primeiros quatro meses de obra, e eu entretanto estava a assinar os primeiros acordos de mecenato, recebendo também as primeiras prestações; outras contribuições eventuais estavam a entrar na conta bancária da Associação; e, acima de tudo, o "Dossier Mecenas-Continente" estava a avançar a um excelente ritmo.
O projecto de supermercado já estava feito e até ao final do ano eu seria capaz de o intermediar na banca, proporcionando uma receita de pelo menos 10 milhões de euros à Associação. É que agora a garantia a apresentar à banca já não seria uma garantia frágil, como um acordo de mecenato. Era uma garantia SONAE.
Pedi ao Eng. Filipe Azevedo e ao Eng. Vieira de Sá que me enviassem uma proposta do contrato de empreitada, que eu pretendia submeter à aprovação do HSJ e informei que a Associação só o iria assinar depois de obter o OK do Hospital. Os serviços jurídicos das duas construtoras e a Dra. Fátima Pereira, pela Associação, no dia seguinte estavam ao trabalho.
Entretanto na reunião executiva seguinte da Associação, que, como habitualmente, tinha lugar aos Domingos nas instalações da minha empresa, pedi a comparência deles e da administração do HSJ. Estiveram o professor António Ferreira pelo HSJ e o Eng. Filipe Azevedo a representar o consórcio.
Nesse encontro eu pretendia que as três partes se conhecessem e queria também relatar à administração do HSJ a extraordinária disponibilidade que as duas construtoras tinham demonstrado, resolvendo, em pouco mais de vinte e quatro horas, o problema que a Teixeira Duarte inesperadamente, e à última hora, tinha criado, bem como as condições gerais do contrato que, entretanto, a Associação tinha acertado com o consórcio construtor.
O professor António Ferreira agradeceu muito ao Eng. Filipe Azevedo e tudo ficou combinado para que dentro de duas ou três semanas a obra pudesse começar.
Perante a iminência do início da obra e o pagamento de um milhão de euros que seria devido ao consórcio construtor, duas semanas depois chegou finalmente à Associação o dinheiro que o HSJ tinha angariado para o Joãozinho durante os cinco anos em que o Projecto esteve sob a sua tutela: 549 mil euros.
Primeira, o preço a pagar seria o preço médio das propostas apresentadas pelas duas construtoras, o qual foi prontamente calculado - 20,2 milhões de euros (mais IVA) -, e aceite.
Segunda, pedia que as duas construtoras se comprometessem como mecenas do Joãozinho, subscrevendo cada uma delas um acordo de mecenato com a Associação e com contribuições anuais de 30 mil euros cada uma, durante o período de dez anos, condição que foi pronta e igualmente aceite.
Terceira, a minha ideia inicial, e que estava prevista no concurso, era a de pagar a dez anos. Mas os avanços que entretanto tinha feito, garantiam-me que conseguiria pagar a obra dentro do prazo de execução (dois anos), ou pouco mais. Assim, para além do pagamento inicial de um milhão de euros, propunha que a obra fosse feita à medida das disponibilidades financeiras da Associação - o que estenderia a obra no máximo até três anos.
O pagamento inicial daria para os primeiros quatro meses de obra, e eu entretanto estava a assinar os primeiros acordos de mecenato, recebendo também as primeiras prestações; outras contribuições eventuais estavam a entrar na conta bancária da Associação; e, acima de tudo, o "Dossier Mecenas-Continente" estava a avançar a um excelente ritmo.
O projecto de supermercado já estava feito e até ao final do ano eu seria capaz de o intermediar na banca, proporcionando uma receita de pelo menos 10 milhões de euros à Associação. É que agora a garantia a apresentar à banca já não seria uma garantia frágil, como um acordo de mecenato. Era uma garantia SONAE.
Pedi ao Eng. Filipe Azevedo e ao Eng. Vieira de Sá que me enviassem uma proposta do contrato de empreitada, que eu pretendia submeter à aprovação do HSJ e informei que a Associação só o iria assinar depois de obter o OK do Hospital. Os serviços jurídicos das duas construtoras e a Dra. Fátima Pereira, pela Associação, no dia seguinte estavam ao trabalho.
Entretanto na reunião executiva seguinte da Associação, que, como habitualmente, tinha lugar aos Domingos nas instalações da minha empresa, pedi a comparência deles e da administração do HSJ. Estiveram o professor António Ferreira pelo HSJ e o Eng. Filipe Azevedo a representar o consórcio.
Nesse encontro eu pretendia que as três partes se conhecessem e queria também relatar à administração do HSJ a extraordinária disponibilidade que as duas construtoras tinham demonstrado, resolvendo, em pouco mais de vinte e quatro horas, o problema que a Teixeira Duarte inesperadamente, e à última hora, tinha criado, bem como as condições gerais do contrato que, entretanto, a Associação tinha acertado com o consórcio construtor.
O professor António Ferreira agradeceu muito ao Eng. Filipe Azevedo e tudo ficou combinado para que dentro de duas ou três semanas a obra pudesse começar.
Perante a iminência do início da obra e o pagamento de um milhão de euros que seria devido ao consórcio construtor, duas semanas depois chegou finalmente à Associação o dinheiro que o HSJ tinha angariado para o Joãozinho durante os cinco anos em que o Projecto esteve sob a sua tutela: 549 mil euros.
27 agosto 2017
o esterno
A cerimónia do lançamento da primeira-pedra, que teve lugar no salão nobre das antigas instalações da Faculdade de Medicina, no edifício principal do Hospital de S. João, correu muito bem.
O salão estava cheio, com muitos professores da Faculdade de Medicina. Desde o início do meu mandato à frente da Associação Joãozinho que a Faculdade foi sempre uma instituição genuinamente interessada em fazer avançar a obra. O professor Agostinho Marques, na altura director da Faculdade, é mesmo, desde o início, o presidente da Assembleia Geral da Associação, e a professora Amélia Ferreira, que entretanto lhe sucedeu, continuou a demonstrar o mesmo empenho.
Existiam pelo menos três razões. A primeira é que é na ala pediátrica que, em parte, se formam os futuros médicos pediatras licenciados pela Faculdade. A segunda é que muitos dos médicos que lá trabalham são também professores da Faculdade de Medicina e as suas condições de trabalho são tão degradantes que alguns dos melhores têm mesmo mudado de Hospital. Finalmente, o terreno onde está actualmente o barracão metálico que serve de internamento pediátrico ao HSJ, é propriedade da Faculdade de Medicina, e não do Hospital, e a Faculdade precisa do espaço para se expandir.
A mesa da honra estava repleta de personalidades, com o primeiro-ministro ao centro. Talvez para me retribuir a homenagem que eu naquele dia lhe prestava, a Dra. Ana Maria Príncipe, assessora da administração do HSJ, e que fez a afectação dos lugares, reservou-me um lugar especial. Olhando da entrada, onde estavam colocadas as câmaras de televisão e as objectivas dos fotógrafos era o lugar do fundo, no canto mais distante da mesa - tão literalmente ao canto que, ao movimentar-me, várias vezes embati com o esterno na esquina da mesa.
O primeiro-ministro fez um discurso improvisado de cerca de vinte minutos onde elogiou a iniciativa das "gentes do norte" e falou longamente sobre as dificuldades orçamentais que o país estava a atravessar, ao mesmo tempo que a pressão sobre as despesas de saúde não cessava de aumentar.
Quando chegou a minha vez de falar, fiz um breve agradecimento a todos os mecenas presentes e ausentes, e anunciei que a obra iria ser realizada pelo consórcio Lucios-Somague. Em seguida, fiz um agradecimento destacado ao Eng. Filipe Azevedo e ao Eng. Rui Vieira de Sá, que estavam sentados nas primeiras filas.
Dias depois, o presidente Rui Moreira, que também esteve presente, mas a quem não foi dada a palavra, convidou-me para ir falar sobre o Joãozinho a um espaço televisivo que ele próprio tinha na RTP. Era uma iniciativa da cidade do Porto da qual, naturalmente, ele se orgulhava, numa altura em que a cidade estava já visivelmente na moda e era invadida por milhares de turistas todos os dias. Logo no início do meu trabalho, ele tinha-me recebido na Câmara do Porto e encorajado vivamente o Projecto, disponibilizando-se para facilitar todas as licenças necessárias à obra.
No Jantar de Gala, que viria a realizar-se no mês seguinte no Pavilhão do Estádio do Dragão, a Câmara Municipal do Porto estaria representada pela empresa municipal Águas do Porto, então presidida pelo actual ministro do Ambiente, Eng. Matos Fernandes, e comprou uma mesa. A Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia, presidida pelo Dr. Eduardo Vítor Rodrigues fez o mesmo.
O secretário de Estado da Saúde, Dr. Manuel Teixeira, veio de Lisboa para a cerimónia. Homem discreto, será para sempre, na minha avaliação, um dos grandes mecenas do Joãozinho. O novo bispo do Porto, D. António Francisco dos Santos, que tem uma figura bondosa como a do Papa João Paulo II, também esteve presente, e voltaria a estar no Jantar de Gala, sentado na mesa do Presidente Pinto da Costa.
Foi só pena que, ao contrário do que estava previsto com a Teixeira Duarte, eu não tivesse conseguido ter a construtora nesse dia no local da obra. Mas já não houve tempo de fazer os arranjos necessários com a Lucios e a Somague.
O salão estava cheio, com muitos professores da Faculdade de Medicina. Desde o início do meu mandato à frente da Associação Joãozinho que a Faculdade foi sempre uma instituição genuinamente interessada em fazer avançar a obra. O professor Agostinho Marques, na altura director da Faculdade, é mesmo, desde o início, o presidente da Assembleia Geral da Associação, e a professora Amélia Ferreira, que entretanto lhe sucedeu, continuou a demonstrar o mesmo empenho.
Existiam pelo menos três razões. A primeira é que é na ala pediátrica que, em parte, se formam os futuros médicos pediatras licenciados pela Faculdade. A segunda é que muitos dos médicos que lá trabalham são também professores da Faculdade de Medicina e as suas condições de trabalho são tão degradantes que alguns dos melhores têm mesmo mudado de Hospital. Finalmente, o terreno onde está actualmente o barracão metálico que serve de internamento pediátrico ao HSJ, é propriedade da Faculdade de Medicina, e não do Hospital, e a Faculdade precisa do espaço para se expandir.
A mesa da honra estava repleta de personalidades, com o primeiro-ministro ao centro. Talvez para me retribuir a homenagem que eu naquele dia lhe prestava, a Dra. Ana Maria Príncipe, assessora da administração do HSJ, e que fez a afectação dos lugares, reservou-me um lugar especial. Olhando da entrada, onde estavam colocadas as câmaras de televisão e as objectivas dos fotógrafos era o lugar do fundo, no canto mais distante da mesa - tão literalmente ao canto que, ao movimentar-me, várias vezes embati com o esterno na esquina da mesa.
O primeiro-ministro fez um discurso improvisado de cerca de vinte minutos onde elogiou a iniciativa das "gentes do norte" e falou longamente sobre as dificuldades orçamentais que o país estava a atravessar, ao mesmo tempo que a pressão sobre as despesas de saúde não cessava de aumentar.
Quando chegou a minha vez de falar, fiz um breve agradecimento a todos os mecenas presentes e ausentes, e anunciei que a obra iria ser realizada pelo consórcio Lucios-Somague. Em seguida, fiz um agradecimento destacado ao Eng. Filipe Azevedo e ao Eng. Rui Vieira de Sá, que estavam sentados nas primeiras filas.
Dias depois, o presidente Rui Moreira, que também esteve presente, mas a quem não foi dada a palavra, convidou-me para ir falar sobre o Joãozinho a um espaço televisivo que ele próprio tinha na RTP. Era uma iniciativa da cidade do Porto da qual, naturalmente, ele se orgulhava, numa altura em que a cidade estava já visivelmente na moda e era invadida por milhares de turistas todos os dias. Logo no início do meu trabalho, ele tinha-me recebido na Câmara do Porto e encorajado vivamente o Projecto, disponibilizando-se para facilitar todas as licenças necessárias à obra.
No Jantar de Gala, que viria a realizar-se no mês seguinte no Pavilhão do Estádio do Dragão, a Câmara Municipal do Porto estaria representada pela empresa municipal Águas do Porto, então presidida pelo actual ministro do Ambiente, Eng. Matos Fernandes, e comprou uma mesa. A Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia, presidida pelo Dr. Eduardo Vítor Rodrigues fez o mesmo.
O secretário de Estado da Saúde, Dr. Manuel Teixeira, veio de Lisboa para a cerimónia. Homem discreto, será para sempre, na minha avaliação, um dos grandes mecenas do Joãozinho. O novo bispo do Porto, D. António Francisco dos Santos, que tem uma figura bondosa como a do Papa João Paulo II, também esteve presente, e voltaria a estar no Jantar de Gala, sentado na mesa do Presidente Pinto da Costa.
Foi só pena que, ao contrário do que estava previsto com a Teixeira Duarte, eu não tivesse conseguido ter a construtora nesse dia no local da obra. Mas já não houve tempo de fazer os arranjos necessários com a Lucios e a Somague.
cinco milhões
O Eng. Gouveia Capelão é uma pessoa de tal modo delicada e eu tinha estabelecido com ele uma relação de trabalho de tal modo agradável que, ainda hoje, passados dois anos e meio, não consigo ter o mínimo ressentimento em relação a ele. Nem contra a Teixeira Duarte que é uma das nossas maiores e mais reputadas empresas do sector da construção.
Ao longo dos últimos quatro meses eu sentia que tinha envolvido o Eng. Capelão emocionalmente naquela obra, como conseguia envolver toda a gente com quem falava acerca dela. Não era uma obra normal. Era uma obra que tanto eu como ele sentíamos orgulho em fazer, e que tínhamos de fazer.
As condições especiais em que aquela obra seria feita seriam também a contribuição mecenática da Teixeira Duarte para com o seu grande e fiel cliente - o Hospital de S. João. A tal ponto - gracejava eu às vezes com o Eng. Capelão - que no sector da construção se falava no Hospital de S. João como sendo uma quinta da Teixeira Duarte.
Faltavam cerca de dez dias para a cerimónia do lançamento da primeira pedra e, um pouco antes das onze da manhã desse dia, eu chegava ao Lagoas Park, em Oeiras, indo do Porto para mais uma reunião com o Eng. Capelão a fim de acertar os últimos pormenores para o início da obra, que estava iminente.
Entrei para aquela grande sala de reuniões que eu já conhecia e fiquei a contemplar a paisagem pela janela enquanto esperava pelo Eng. Capelão. Esperei mais do que era habitual. Até que ele entrou na sala, cumprimentámo-nos, sentou-se na parte lateral da grande mesa, e eu, em frente, do outro lado. Foi então que, com um ar obviamente consternado, me disse:
-Professor Pedro Arroja ... lamento informá-lo... mas a Teixeira Duarte não fará a obra sem que nos apresente uma garantia de cinco milhões de euros...
Fiquei sem pinga de sangue. Protestei energicamente. A Teixeira Duarte sabia - porque era uma das condições do concurso -, que a Associação não tinha garantias para dar. Andávamos a trabalhar há quatro meses e nunca isso foi levantado, nem poderia ser, porque era matéria assente entre as duas partes. Era agora, a dez dias da cerimónia do lançamento da primeira-pedra, com a presença do primeiro-ministro já confirmada, que me vinha impor aquela condição que ele sabia que eu não poderia cumprir?
Depois de mais alguma troca de palavras, levantei-me e encaminhei-me para a porta. Ele acompanhou-me. Antes de sair ainda me virei para ele e perguntei:
-A Teixeira Duarte não estará sequer presente na cerimónia do lançamento da primeira-pedra?...
Ele baixou os olhos e respondeu:
-Não...
Saí dali atordoado, como se me tivessem dado uma grande pancada na cabeça. Dez dias depois, no salão nobre do Hospital de S. João, realizar-se-ia a cerimónia de lançamento da primeira-pedra da obra do Joãozinho. A sala iria estar cheia. Iriam estar presentes o primeiro-ministro, o presidente da Câmara do Porto, o secretário de estado da saúde, o bispo do Porto, o presidente do HSJ. Iriam estar presentes muitas pessoas e muitas instituições. Só faltaria a principal - a construtora para fazer a obra.
Quando, na cerimónia, me perguntassem qual era a construtora, o que é que eu iria responder?
Que vergonha... Era o descrédito total, - meu, da Associação Joãozinho, do próprio Projecto do Joãozinho...
Nessa tarde conduzi de volta ao Porto profundamente angustiado, até o carro parecia não querer andar. Ao longo do caminho não consegui encontrar uma saída - uma única luz que fosse e me acalentasse. Onde é que, em dez dias, eu iria arranjar uma garantia de cinco milhões de euros, ou uma construtora que me fizesse a obra nas condições especiais que, desde há quatro meses, eu vinha a negociar com a Teixeira Duarte?
Nessa noite não consegui dormir. Pela primeira vez em treze meses, o Joãozinho tirou-me o sono.No dia seguinte, às sete e meia da manhã já estava no meu escritório, à espera que as pessoas chegassem aos empregos. Tinha dois telefonemas a fazer.
Pelas dez, falei ao director da Lucios que me tinha ido pedir para a empresa se apresentar ao concurso, mesmo não tendo sido convidada. Eu tinha gostado da atitude daquela empresa, chegando-se espontaneamente à frente numa obra mecenática e ombreando com as grandes. Ainda por cima, estava ali mesmo à mão, a sede era na Maia.
Disse-lhe que precisava de falar urgentemente com ele. Respondeu-me que estava numa reunião, ali a trezentos metros do meu escritório e que dentro de uma hora estaria comigo.
Quando chegou, expus-lhe a situação e contei-lhe a história da Teixeira Duarte. Estaria a Lucios ainda disponível para fazer a obra? Respondeu-me que o Eng. Filipe Azevedo, que era o dono da empresa, estava em França a acompanhar trabalhos que a empresa tinha lá, mas que até ao final do dia me daria uma resposta.
Disse-lhe que, por uma questão de segurança - faltava apenas pouco mais de uma semana para o lançamento da primeira-pedra - iria também falar ao Eng. Rui Vieira de Sá, da Somague, que me tinha recebido muito bem e que tinha grande apreço pela obra do Joãozinho.
Respondeu-me que o fizesse. Por acaso, - acrescentou - a Lucios e a Somague até tinham um consórcio em Moçambique que estava a funcionar muito bem.
Pouco depois estava a falar para a Somague. O Eng. Vieira de Sá ouviu-me em silêncio do outro lado da linha, e no fim respondeu-me:
-Pode contar connosco!...
Pu-lo ao corrente da minha conversa com a Lucios e ele disse-me que não via inconveniente nenhum.
Ao final do dia, recebi um e-mail da Lucios: "O Eng. Filipe Azevedo manda dizer que, sozinhos ou em consórcio, faremos a obra".
Se Deus não estava comigo, não sei quem poderia estar.
Nessa noite, em casa, sentei-me à secretária, e enviei um e-mail à administração do HSJ a informar do que se tinha passado, antes de me deitar e adormecer profundamente: A Teixeira Duarte, à última da hora, tinha-me exigido uma garantia de cinco milhões de euros. Mas o problema já estava resolvido. A ala pediátrica do HSJ seria construída pelo consórcio Lucios-Somague.
Eu não fazia ideia na altura de que naquela mensagem só estava a dar à administração do HSJ meia-novidade. Como viria a concluir mais tarde, sem margem para erro, a exigência da Teixeira Duarte tinha partido da administração do seu grande e fiel cliente - o Hospital de S. João.
É que, a partir daquele dia, e até ao final do ano, eu iria passar a gastar mais de metade do meu tempo a lidar com os obstáculos que, uns atrás dos outros, a administração do Hospital de S. João iria colocar no caminho da obra. Um deles acabaria por me valer um processo-crime na Justiça.
Ao longo dos últimos quatro meses eu sentia que tinha envolvido o Eng. Capelão emocionalmente naquela obra, como conseguia envolver toda a gente com quem falava acerca dela. Não era uma obra normal. Era uma obra que tanto eu como ele sentíamos orgulho em fazer, e que tínhamos de fazer.
As condições especiais em que aquela obra seria feita seriam também a contribuição mecenática da Teixeira Duarte para com o seu grande e fiel cliente - o Hospital de S. João. A tal ponto - gracejava eu às vezes com o Eng. Capelão - que no sector da construção se falava no Hospital de S. João como sendo uma quinta da Teixeira Duarte.
Faltavam cerca de dez dias para a cerimónia do lançamento da primeira pedra e, um pouco antes das onze da manhã desse dia, eu chegava ao Lagoas Park, em Oeiras, indo do Porto para mais uma reunião com o Eng. Capelão a fim de acertar os últimos pormenores para o início da obra, que estava iminente.
Entrei para aquela grande sala de reuniões que eu já conhecia e fiquei a contemplar a paisagem pela janela enquanto esperava pelo Eng. Capelão. Esperei mais do que era habitual. Até que ele entrou na sala, cumprimentámo-nos, sentou-se na parte lateral da grande mesa, e eu, em frente, do outro lado. Foi então que, com um ar obviamente consternado, me disse:
-Professor Pedro Arroja ... lamento informá-lo... mas a Teixeira Duarte não fará a obra sem que nos apresente uma garantia de cinco milhões de euros...
Fiquei sem pinga de sangue. Protestei energicamente. A Teixeira Duarte sabia - porque era uma das condições do concurso -, que a Associação não tinha garantias para dar. Andávamos a trabalhar há quatro meses e nunca isso foi levantado, nem poderia ser, porque era matéria assente entre as duas partes. Era agora, a dez dias da cerimónia do lançamento da primeira-pedra, com a presença do primeiro-ministro já confirmada, que me vinha impor aquela condição que ele sabia que eu não poderia cumprir?
Depois de mais alguma troca de palavras, levantei-me e encaminhei-me para a porta. Ele acompanhou-me. Antes de sair ainda me virei para ele e perguntei:
-A Teixeira Duarte não estará sequer presente na cerimónia do lançamento da primeira-pedra?...
Ele baixou os olhos e respondeu:
-Não...
Saí dali atordoado, como se me tivessem dado uma grande pancada na cabeça. Dez dias depois, no salão nobre do Hospital de S. João, realizar-se-ia a cerimónia de lançamento da primeira-pedra da obra do Joãozinho. A sala iria estar cheia. Iriam estar presentes o primeiro-ministro, o presidente da Câmara do Porto, o secretário de estado da saúde, o bispo do Porto, o presidente do HSJ. Iriam estar presentes muitas pessoas e muitas instituições. Só faltaria a principal - a construtora para fazer a obra.
Quando, na cerimónia, me perguntassem qual era a construtora, o que é que eu iria responder?
Que vergonha... Era o descrédito total, - meu, da Associação Joãozinho, do próprio Projecto do Joãozinho...
Nessa tarde conduzi de volta ao Porto profundamente angustiado, até o carro parecia não querer andar. Ao longo do caminho não consegui encontrar uma saída - uma única luz que fosse e me acalentasse. Onde é que, em dez dias, eu iria arranjar uma garantia de cinco milhões de euros, ou uma construtora que me fizesse a obra nas condições especiais que, desde há quatro meses, eu vinha a negociar com a Teixeira Duarte?
Nessa noite não consegui dormir. Pela primeira vez em treze meses, o Joãozinho tirou-me o sono.No dia seguinte, às sete e meia da manhã já estava no meu escritório, à espera que as pessoas chegassem aos empregos. Tinha dois telefonemas a fazer.
Pelas dez, falei ao director da Lucios que me tinha ido pedir para a empresa se apresentar ao concurso, mesmo não tendo sido convidada. Eu tinha gostado da atitude daquela empresa, chegando-se espontaneamente à frente numa obra mecenática e ombreando com as grandes. Ainda por cima, estava ali mesmo à mão, a sede era na Maia.
Disse-lhe que precisava de falar urgentemente com ele. Respondeu-me que estava numa reunião, ali a trezentos metros do meu escritório e que dentro de uma hora estaria comigo.
Quando chegou, expus-lhe a situação e contei-lhe a história da Teixeira Duarte. Estaria a Lucios ainda disponível para fazer a obra? Respondeu-me que o Eng. Filipe Azevedo, que era o dono da empresa, estava em França a acompanhar trabalhos que a empresa tinha lá, mas que até ao final do dia me daria uma resposta.
Disse-lhe que, por uma questão de segurança - faltava apenas pouco mais de uma semana para o lançamento da primeira-pedra - iria também falar ao Eng. Rui Vieira de Sá, da Somague, que me tinha recebido muito bem e que tinha grande apreço pela obra do Joãozinho.
Respondeu-me que o fizesse. Por acaso, - acrescentou - a Lucios e a Somague até tinham um consórcio em Moçambique que estava a funcionar muito bem.
Pouco depois estava a falar para a Somague. O Eng. Vieira de Sá ouviu-me em silêncio do outro lado da linha, e no fim respondeu-me:
-Pode contar connosco!...
Pu-lo ao corrente da minha conversa com a Lucios e ele disse-me que não via inconveniente nenhum.
Ao final do dia, recebi um e-mail da Lucios: "O Eng. Filipe Azevedo manda dizer que, sozinhos ou em consórcio, faremos a obra".
Se Deus não estava comigo, não sei quem poderia estar.
Nessa noite, em casa, sentei-me à secretária, e enviei um e-mail à administração do HSJ a informar do que se tinha passado, antes de me deitar e adormecer profundamente: A Teixeira Duarte, à última da hora, tinha-me exigido uma garantia de cinco milhões de euros. Mas o problema já estava resolvido. A ala pediátrica do HSJ seria construída pelo consórcio Lucios-Somague.
Eu não fazia ideia na altura de que naquela mensagem só estava a dar à administração do HSJ meia-novidade. Como viria a concluir mais tarde, sem margem para erro, a exigência da Teixeira Duarte tinha partido da administração do seu grande e fiel cliente - o Hospital de S. João.
É que, a partir daquele dia, e até ao final do ano, eu iria passar a gastar mais de metade do meu tempo a lidar com os obstáculos que, uns atrás dos outros, a administração do Hospital de S. João iria colocar no caminho da obra. Um deles acabaria por me valer um processo-crime na Justiça.
26 agosto 2017
Dra. Manuela Eanes
O Jantar de Gala no Pavilhão Dragão-Caixa esteve inicialmente agendado para 2 de Março, véspera da cerimónia do lançamento da primeira-pedra, que teria lugar na manhã seguinte no HSJ, e na qual estava prevista a presença do primeiro-ministro. Muitos convidados viriam de Lisboa e, assim, juntavam os dois eventos numa só deslocação ao Porto, pernoitando na cidade.
Estávamos no início de Fevereiro, e era preciso trabalhar depressa, em pelo menos duas frentes. Primeiro, arranjar trezentos convidados para encher o Pavilhão Dragão-Caixa, ao preço de mil euros por pessoa. Segundo, finalizar o trabalho com a Teixeira Duarte para que a cerimónia do lançamento da primeira-pedra não fosse apenas uma cerimónia (como já tinha acontecido várias vezes no passado), mas o lançamento efectivo da obra com a construtora no local.
Olhando em retrospectiva, aquele mês de Fevereiro viria a ser um mês estranho, muito estranho, em que pela primeira vez eu senti que alguma coisa não estava bem mas, na altura, não sabia o quê nem porquê.
No almoço com o presidente Pinto da Costa, duas semanas antes, tínhamos tomado várias decisões no que respeita ao Jantar de Gala.
Primeiro, não haveria borlas.
Segundo, o trabalho de angariação dos convidados - na realidade, mecenas - para o Jantar seria repartido entre o F.C. Porto, a Associação Joãozinho e o HSJ, ficando eu encarregado de pedir ao Professor António Ferreira que agisse para esse fim. O objectivo era contactar empresas que comprassem mesas (de oito lugares), pondo lá quem quisessem. O presidente Pinto da Costa e eu próprio daríamos o exemplo, comprando uma mesa cada um. A Associação Joãozinho centralizaria todas as confirmações.
O terceiro ponto respeitava à Dra. Manuela Eanes. Quando contei a história do meu trabalho ao presidente Pinto da Costa mencionei o "Milagre das Manuelas" e como tinha sido decisivo para a obra do Joãozinho que estava à beira de se concretizar. Disse-lhe então que, por minha vontade, a nova ala pediátrica do HSJ se chamaria "Hospital Pediátrico Dra. Manuela Eanes". Ela estava agora com mais de 80 anos e tinha passado uma vida a fazer bem a crianças.
Ele achou a ideia maravilhosa. Desde os ano 80, quando o general Eanes era Presidente, que se tinha estabelecido uma grande relação de amizade entre ele e o casal Eanes. Ele próprio se encarregaria de convidar o casal Eanes e o nome do hospital seria anunciado durante o Jantar. Fiquei eu de falar com o Professor António Ferreira sobre o assunto e obter o seu acordo. E preparei até um texto a suportar a ideia que, dias mais tarde, lhe enviei por e-mail.
Em meados do mês, eu desdobrava-me em convites para o Jantar e em reuniões com a Teixeira Duarte. Do F.C. Porto tinham chegado à Associação várias confirmações e a Associação também já tinha algumas. Do Hospital de S. João é que não tinha vindo nenhuma.
No Domingo, a uma semana da realização do Jantar, o Professor António Ferreira fez questão de vir à nossa reunião executiva semanal, que se realizava nas instalações da minha empresa. Vinha pedir, quase exigir, o adiamento do Jantar. Resisti o mais que pude, depois de todo aquele trabalho que o F.C.Porto e a Associação tinham tido para angariar os convidados. Mas, muito contrariado, acabei por ceder.
Ainda pensei que obteria alguma gratificação quando lhe perguntei se ele tinha lido o e-mail que lhe tinha enviado com a sugestão do presidente Pinto da Costa e minha de dar o nome da Dra. Manuela Eanes à nova ala pediátrica do HSJ, mas ele respondeu-me:
-Qual e-mail?...
O Jantar de Gala acabaria por se realizar mês e meio depois. Nenhuma mesa foi angariada pelo HSJ e nenhum administrador do HSJ esteve presente. A única excepção foi o Professor António Ferreira que foi convidado pessoalmente pelo presidente Pinto da Costa para a sua mesa. Quem eu fiquei a admirar foi a Professora Amélia Ferreira, nova directora da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, que reservou uma mesa em nome da Faculdade e lutou enormemente com a burocracia até a pagar.
Porém, o pior do mês de Fevereiro estava ainda para chegar. E seria muito pior.
Estávamos no início de Fevereiro, e era preciso trabalhar depressa, em pelo menos duas frentes. Primeiro, arranjar trezentos convidados para encher o Pavilhão Dragão-Caixa, ao preço de mil euros por pessoa. Segundo, finalizar o trabalho com a Teixeira Duarte para que a cerimónia do lançamento da primeira-pedra não fosse apenas uma cerimónia (como já tinha acontecido várias vezes no passado), mas o lançamento efectivo da obra com a construtora no local.
Olhando em retrospectiva, aquele mês de Fevereiro viria a ser um mês estranho, muito estranho, em que pela primeira vez eu senti que alguma coisa não estava bem mas, na altura, não sabia o quê nem porquê.
No almoço com o presidente Pinto da Costa, duas semanas antes, tínhamos tomado várias decisões no que respeita ao Jantar de Gala.
Primeiro, não haveria borlas.
Segundo, o trabalho de angariação dos convidados - na realidade, mecenas - para o Jantar seria repartido entre o F.C. Porto, a Associação Joãozinho e o HSJ, ficando eu encarregado de pedir ao Professor António Ferreira que agisse para esse fim. O objectivo era contactar empresas que comprassem mesas (de oito lugares), pondo lá quem quisessem. O presidente Pinto da Costa e eu próprio daríamos o exemplo, comprando uma mesa cada um. A Associação Joãozinho centralizaria todas as confirmações.
O terceiro ponto respeitava à Dra. Manuela Eanes. Quando contei a história do meu trabalho ao presidente Pinto da Costa mencionei o "Milagre das Manuelas" e como tinha sido decisivo para a obra do Joãozinho que estava à beira de se concretizar. Disse-lhe então que, por minha vontade, a nova ala pediátrica do HSJ se chamaria "Hospital Pediátrico Dra. Manuela Eanes". Ela estava agora com mais de 80 anos e tinha passado uma vida a fazer bem a crianças.
Ele achou a ideia maravilhosa. Desde os ano 80, quando o general Eanes era Presidente, que se tinha estabelecido uma grande relação de amizade entre ele e o casal Eanes. Ele próprio se encarregaria de convidar o casal Eanes e o nome do hospital seria anunciado durante o Jantar. Fiquei eu de falar com o Professor António Ferreira sobre o assunto e obter o seu acordo. E preparei até um texto a suportar a ideia que, dias mais tarde, lhe enviei por e-mail.
Em meados do mês, eu desdobrava-me em convites para o Jantar e em reuniões com a Teixeira Duarte. Do F.C. Porto tinham chegado à Associação várias confirmações e a Associação também já tinha algumas. Do Hospital de S. João é que não tinha vindo nenhuma.
No Domingo, a uma semana da realização do Jantar, o Professor António Ferreira fez questão de vir à nossa reunião executiva semanal, que se realizava nas instalações da minha empresa. Vinha pedir, quase exigir, o adiamento do Jantar. Resisti o mais que pude, depois de todo aquele trabalho que o F.C.Porto e a Associação tinham tido para angariar os convidados. Mas, muito contrariado, acabei por ceder.
Ainda pensei que obteria alguma gratificação quando lhe perguntei se ele tinha lido o e-mail que lhe tinha enviado com a sugestão do presidente Pinto da Costa e minha de dar o nome da Dra. Manuela Eanes à nova ala pediátrica do HSJ, mas ele respondeu-me:
-Qual e-mail?...
O Jantar de Gala acabaria por se realizar mês e meio depois. Nenhuma mesa foi angariada pelo HSJ e nenhum administrador do HSJ esteve presente. A única excepção foi o Professor António Ferreira que foi convidado pessoalmente pelo presidente Pinto da Costa para a sua mesa. Quem eu fiquei a admirar foi a Professora Amélia Ferreira, nova directora da Faculdade de Medicina da Universidade do Porto, que reservou uma mesa em nome da Faculdade e lutou enormemente com a burocracia até a pagar.
Porém, o pior do mês de Fevereiro estava ainda para chegar. E seria muito pior.
na cadeira
No dia em que eu fizer a lista das dez personalidades mais fascinantes que conheci na vida, e por quem tenho maior admiração, ele estará certamente lá. É certo que nunca vou chegar ao ponto a que chegou o cigano da história que ele próprio me contou no dia em que regressava de uma visita a uma delegação do F.C. Porto numa terra da Província.
-Senhor Pinto da Costa... tenho tanta admiração por si... que a semana passada nasceu-me um filho... e pus-lhe o seu nome...
-Ah sim?... E que nome é que lhe pôs ... Jorge ... Nuno ... Jorge Nuno...?
-Nãooooo... Pus-lhe Jorge Nuno Pinto da Costa!...
-Senhor Pinto da Costa... tenho tanta admiração por si... que a semana passada nasceu-me um filho... e pus-lhe o seu nome...
-Ah sim?... E que nome é que lhe pôs ... Jorge ... Nuno ... Jorge Nuno...?
-Nãooooo... Pus-lhe Jorge Nuno Pinto da Costa!...
Desde que, indo de Lisboa, fui estudar para o Porto em 1972 que comecei a observar com desgosto a ascendência do F.C. Porto ameaçando o Benfica, que tinha liderado o futebol nacional na última década e meia. Em criança eu tinha sido um benfiquista ferrenho, feito sócio do clube aos 5 anos de idade, tinha assistido à estreia do Eusébio e vibrado com todos os grandes êxitos do Benfica no país e no estrangeiro.
Eu reconhecia grande qualidade a um treinador como o José Maria Pedroto e a muitos dos jogadores que iam passando pelo F. C. Porto - e o peruano Cubillas foi para mim o melhor de todos, uma opinião que, muitos anos mais tarde, vi partilhada pelo antigo futebolista, e agora treinador, Jaime Pacheco. Mas nenhum era um Eusébio.
Quando a liderança do F.C. Porto se consolidou a partir do final da década, eu continuava a procurar no relvado o Eusébio do F.C. Porto e nunca o encontrava. Só muitos anos mais tarde me dei conta que procurava no sítio errado. O Eusébio do F. C. Porto estava sentado na cadeira da presidência.
Passados anos, no início da década de 90, rendido à evidência, fiz um comentário muito elogioso sobre ele aos microfones da TSF. No dia seguinte, recebi um telefonema a agradecer-me e a convidar-me para almoçar. Nunca um benfiquista deve ter tido tanta admiração por ele, a qual é retribuída com genuína amizade.
Enviei-lhe um e-mail em Janeiro, através da sua secretária, a pedir-lhe que me recebesse e a dizer-lhe ao que ia. Eu sabia que o F.C. Porto era um mecenas muito desgastado pelo Joãozinho ao longo dos últimos anos. O seu presidente, e os seus jogadores, actuais e veteranos - o caso mais notável era o do Vítor Baía - eram constantemente solicitados para eventos sociais de fund rasing em favor do Joãozinho, ou para visitarem as crianças internadas na ala pediátrica do HSJ.
O presidente Pinto da Costa recebeu-me nas instalações do Estádio do Dragão, em cujo restaurante almoçámos. Por razões pessoais, ele era um homem muito grato ao Hospital de S. João. Ouviu-me, contei-lhe os progressos que tinha realizado, convidei-o para a cerimónia do lançamento da primeira- pedra, e fiquei a aguardar a reacção.
-Vamos já organizar um grande jantar de gala para o Joãozinho!...
Uma semana depois, eu estava à direita dele, sentado numa grande sala de reuniões do Estádio do Dragão, rodeado de pessoal executivo do F.C. Porto, enquanto ele, à cabeceira, distribuía instruções sobre a organização do jantar.
O jantar viria a realizar-se no Pavilhão do Estádio do Dragão a 23 de Abril - o dia em que, curiosamente, ele completava 33 anos na presidência do F. C. Porto. Foi seguido de um espectáculo com o Rui Reininho e o Paulo Gonzo, ambos convidados pelo presidente, e transmitido em directo pelo Porto Canal.
Estiveram presentes trezentas pessoas e cada lugar custava mil euros. Descontando os custos do jantar, a Associação encaixou nessa noite 250 mil euros em favor da obra do Joãozinho.
-Vamos já organizar um grande jantar de gala para o Joãozinho!...
Uma semana depois, eu estava à direita dele, sentado numa grande sala de reuniões do Estádio do Dragão, rodeado de pessoal executivo do F.C. Porto, enquanto ele, à cabeceira, distribuía instruções sobre a organização do jantar.
O jantar viria a realizar-se no Pavilhão do Estádio do Dragão a 23 de Abril - o dia em que, curiosamente, ele completava 33 anos na presidência do F. C. Porto. Foi seguido de um espectáculo com o Rui Reininho e o Paulo Gonzo, ambos convidados pelo presidente, e transmitido em directo pelo Porto Canal.
Estiveram presentes trezentas pessoas e cada lugar custava mil euros. Descontando os custos do jantar, a Associação encaixou nessa noite 250 mil euros em favor da obra do Joãozinho.
25 agosto 2017
Continente
O melhor presente veio no dia a seguir ao Natal, e na semana mais morta do ano. Terminada a reunião, corri para casa, sentei-me ao computador, e escrevi o seguinte para dar a boa-nova aos meus colegas da Associação:
Relatório da reunião com o Continente
Data: 26 Dez 2014
Local: HSJ
Presentes: PA, Prof. António Ferreira (Presidente, HSJ), Eng. Luís Moutinho (CEO, Continente)
Foi acordado que o Continente instalaria um supermercado no recinto do HSJ. Uma percentagem das vendas (a determinar) reverte a favor da Associação.
O Prof. António Ferreira disse que iria oferecer aos 5700 funcionários do HSJ a opção de serem pagos através de um cartão Continente até ao limite legal isento de impostos (cerca de 150 euros/mês)
O Eng. Luís Moutinho referiu que seria capaz de pôr o supermercado a funcionar dentro de 4 meses. Para o efeito, ficou marcada uma reunião para o dia 5 de Janeiro entre os serviços técnicos do HSJ e os serviços técnicos do Continente, a ter lugar no HSJ, para tratar de questões técnicas (localização, superfície do supermercado, etc.).
Perguntei ao Eng. Luís Moutinho se seria possível entregar à Associação um montante por conta até ao dia 26 de Fevereiro, dado o compromisso de sinal assumido com a TD para o início da obra. Respondeu prontamente que sim.
Avaliação global: Excelente.
Tinha sido um ano de sonho.
de massa
Dezembro tinha chegado, e tinha sido um ano em cheio. A construtora estava escolhida e eu trabalhava agora com o Eng. Gouveia Capelão no lançamento da obra, alternadamente no meu escritório no Porto e na sede da Teixeira Duarte no Lagoas Park, em Oeiras.
Durante o ano, tinha angariado várias dezenas de grandes mecenas e descoberto várias avenidas alternativas contribuindo para pagar a obra. A receptividade dos bancos estava a ser excelente. O Ministério da Saúde aceitava a obra e encorajava-a. O reconhecimento da utilidade pública da Associação estava a caminho. Tinha mesmo encontrado a solução para o alegado excesso de capacidade da ala pediátrica do HSJ.
Havia apenas uma pequena questão que me começava a preocupar. No início de Dezembro, eu tinha-me comprometido com o Eng. Capelão a fazer um pagamento inicial de um milhão de euros até uma semana antes do início da obra, previsto para 3 de Março.
Neste primeiro ano, não tinha sido minha preocupação angariar dinheiro, já que não existia obra. Contava para esse pagamento com o dinheiro que o Professor António Ferreira me prometera em Janeiro, correspondente aos donativos recebidos pelo Hospital para o Joãozinho, enquanto o Projecto esteve sob a sua tutela. Estávamos em Dezembro e o dinheiro ainda não tinha chegado.
À parte este detalhe - que, na verdade, ainda não era uma grande preocupação - o ano de 2014 tinha sido coroado de êxitos em favor da obra do Joãozinho, e um ano que, do ponto de vista profissional - se assim se pode dizer - foi um dos melhores anos da minha vida.
Eu estava longe de adivinhar, enquanto fazia este balanço, que o melhor do ano de 2014 estava ainda para chegar.
Tudo começou no início do mês quando um amigo me convidou para assistir a uma conferência que teria lugar semana e meia depois no Chiado, em Lisboa. Tratava-se de um almoço-conferência, o tema era a família e a conferencista era americana.
Portugal é um país cheio de coisas boas, mas as conferências não são seguramente o seu forte, e há muito que eu andava retirado desses circuitos. Mas como tinha agora sempre coisas a fazer em Lisboa relacionadas com o Joãozinho, aceitei, não sem resmungar comigo próprio: "Uma americana a falar da família...".
A cultura anglo-saxónica e calvinista tem certamente uma tradição familiar mais forte que a cultura germânica e luterana, mas muito inferior à da cultura latina ou católica dos países do sul da Europa: "Ainda se a conferencista fosse uma espanhola, uma italiana, uma francesa... ou mesmo uma portuguesa...".
Lá compareci no almoço. Seguiu-se a conferência. A conferencista ainda não falava há cinco minutos e o meu espírito já voava por outros céus, e assim permaneceu até ao final da palestra. Já não me lembro em que pensava. Aquilo que sei é que, onde quer que o meu espírito andasse, às tantas o meu olhar ficou fixo no perfil de um senhor que escutava atentamente a conferencista duas mesas distante da minha.
Era o senhor Alexandre Soares dos Santos.
Devo ter permanecido assim por largos minutos até que dei um salto na cadeira
-Mecenas-de-massa!...,
e a palavra massa veio-me ao espírito com o duplo significado de muita gente e de muito dinheiro.
No final, ainda estive vai-não-vai para lhe ir falar, mas contive-me. Em breve, eu estava era desejoso de me ver livre dali, negociar o trânsito da saída de Lisboa, e deixar o meu espírito assentar no horizonte da auto-estrada em direcção ao Porto.
A primeira conclusão que tirei foi a de que fiz bem em não lhe falar:
-Se eu tenho uma solução no Porto, para quê andar abaixo-e-acima a caminho de Lisboa!?...
E foi auto-estrada acima que me lembrei da inauguração da Casa Ronald McDonald, que tinha tido lugar em Março no Hospital de S. João, e para a qual eu tinha sido convidado. Era uma Casa com oito ou doze quartos - já não estou bem recordado - destinada a receber familiares de crianças internadas no HSJ, que vinham de longe e não tinham dinheiro para pagar a estadia na cidade.
Tratava-se de um projecto mecenático, liderado pela Fundação Ronald McDonald - uma IPSS semelhante àquela que a Associação Joãozinho em breve iria ser -, mas envolvendo outros mecenas, e era complementar do Joãozinho. A dimensão financeira é que era muito inferior - um investimento de apenas um milhão de euros. O HSJ tinha cedido à Fundação McDonald pelo período de cinquenta anos o terreno para a construção da Casa.
Ao chegar ao Porto, telefonei ao Manuel Eanes, que é administrador da NOS, uma empresa do Grupo SONAE, com um pedido:
-Podes enviar-me por e-mail o nome e o número de telefone do presidente do Continente?
Durante o ano, tinha angariado várias dezenas de grandes mecenas e descoberto várias avenidas alternativas contribuindo para pagar a obra. A receptividade dos bancos estava a ser excelente. O Ministério da Saúde aceitava a obra e encorajava-a. O reconhecimento da utilidade pública da Associação estava a caminho. Tinha mesmo encontrado a solução para o alegado excesso de capacidade da ala pediátrica do HSJ.
Havia apenas uma pequena questão que me começava a preocupar. No início de Dezembro, eu tinha-me comprometido com o Eng. Capelão a fazer um pagamento inicial de um milhão de euros até uma semana antes do início da obra, previsto para 3 de Março.
Neste primeiro ano, não tinha sido minha preocupação angariar dinheiro, já que não existia obra. Contava para esse pagamento com o dinheiro que o Professor António Ferreira me prometera em Janeiro, correspondente aos donativos recebidos pelo Hospital para o Joãozinho, enquanto o Projecto esteve sob a sua tutela. Estávamos em Dezembro e o dinheiro ainda não tinha chegado.
À parte este detalhe - que, na verdade, ainda não era uma grande preocupação - o ano de 2014 tinha sido coroado de êxitos em favor da obra do Joãozinho, e um ano que, do ponto de vista profissional - se assim se pode dizer - foi um dos melhores anos da minha vida.
Eu estava longe de adivinhar, enquanto fazia este balanço, que o melhor do ano de 2014 estava ainda para chegar.
Tudo começou no início do mês quando um amigo me convidou para assistir a uma conferência que teria lugar semana e meia depois no Chiado, em Lisboa. Tratava-se de um almoço-conferência, o tema era a família e a conferencista era americana.
Portugal é um país cheio de coisas boas, mas as conferências não são seguramente o seu forte, e há muito que eu andava retirado desses circuitos. Mas como tinha agora sempre coisas a fazer em Lisboa relacionadas com o Joãozinho, aceitei, não sem resmungar comigo próprio: "Uma americana a falar da família...".
A cultura anglo-saxónica e calvinista tem certamente uma tradição familiar mais forte que a cultura germânica e luterana, mas muito inferior à da cultura latina ou católica dos países do sul da Europa: "Ainda se a conferencista fosse uma espanhola, uma italiana, uma francesa... ou mesmo uma portuguesa...".
Lá compareci no almoço. Seguiu-se a conferência. A conferencista ainda não falava há cinco minutos e o meu espírito já voava por outros céus, e assim permaneceu até ao final da palestra. Já não me lembro em que pensava. Aquilo que sei é que, onde quer que o meu espírito andasse, às tantas o meu olhar ficou fixo no perfil de um senhor que escutava atentamente a conferencista duas mesas distante da minha.
Era o senhor Alexandre Soares dos Santos.
Devo ter permanecido assim por largos minutos até que dei um salto na cadeira
-Mecenas-de-massa!...,
e a palavra massa veio-me ao espírito com o duplo significado de muita gente e de muito dinheiro.
No final, ainda estive vai-não-vai para lhe ir falar, mas contive-me. Em breve, eu estava era desejoso de me ver livre dali, negociar o trânsito da saída de Lisboa, e deixar o meu espírito assentar no horizonte da auto-estrada em direcção ao Porto.
A primeira conclusão que tirei foi a de que fiz bem em não lhe falar:
-Se eu tenho uma solução no Porto, para quê andar abaixo-e-acima a caminho de Lisboa!?...
E foi auto-estrada acima que me lembrei da inauguração da Casa Ronald McDonald, que tinha tido lugar em Março no Hospital de S. João, e para a qual eu tinha sido convidado. Era uma Casa com oito ou doze quartos - já não estou bem recordado - destinada a receber familiares de crianças internadas no HSJ, que vinham de longe e não tinham dinheiro para pagar a estadia na cidade.
Tratava-se de um projecto mecenático, liderado pela Fundação Ronald McDonald - uma IPSS semelhante àquela que a Associação Joãozinho em breve iria ser -, mas envolvendo outros mecenas, e era complementar do Joãozinho. A dimensão financeira é que era muito inferior - um investimento de apenas um milhão de euros. O HSJ tinha cedido à Fundação McDonald pelo período de cinquenta anos o terreno para a construção da Casa.
Ao chegar ao Porto, telefonei ao Manuel Eanes, que é administrador da NOS, uma empresa do Grupo SONAE, com um pedido:
-Podes enviar-me por e-mail o nome e o número de telefone do presidente do Continente?
Dr. Ricardo Salgado
A reunião que tive no Novo Banco a 29 de Outubro de 2014 no Porto foi, sob vários aspectos, tão penosa, que me custa recordá-la. Valem-me as notas que escrevi na altura. A resolução do BES tinha ocorrido nesse Verão e o ambiente no Banco era imensamente tenso.
Fui recebido por um director e um director-adjunto, dois homens ainda novos, talvez na casa dos quarenta anos. Via-se que eram quadro superiores recentemente promovidos a lugares de direcção para substituir a administração do Dr. Ricardo Salgado que fora toda destituída.
Para amenizar o ambiente, entrei na sala a dizer,
-Muito prazer em conhecer-vos ... mas eu não gostaria de estar no vosso lugar...
Falámos sobre a situação do Banco e as frentes de trabalho em que eles estavam envolvidos, todas cheias de dificuldades. Tinham de reduzir a carteira de crédito em mais de 30%, os depósitos fugiam do Banco, e os despedimentos à vista eram muitos.
E aqui estava um cliente que lhes ia pedir crédito, ainda por cima "humanitário".
O director conhecia muito bem o Joãozinho. Tinha sido ele o executivo do Banco, sob a administração do Dr. Ricardo Salgado e do Dr. Jorge Martins no norte, que sempre tinha conduzido o mecenato do BES em relação ao Joãozinho. Contou-me que há cerca de dois anos, o Professor António Ferreira tinha pedido um milhão de euros ao BES para construir a nova ala pediátrica do HSJ.
Tinha sido ele a pôr de pé o pacote financeiro sob a autorização superior do Dr. Ricardo Salgado. O pacote incluía a afectação da doação anual de 40 mil euros que o BES faz ao HSJ exclusivamente ao Projecto Joãozinho, até a obra estar paga; a antecipação das rendas que o BES paga ao HSJ até ao final do contrato, previsto para 2017; outras medidas, de que ele agora não se recordava.
Tudo isto totalizava 880 mil euros. Para perfazer o milhão, o Dr. Ricardo Salgado autorizou pessoalmente que a diferença de 120 mil euros fosse entregue em dinheiro.
O HSJ encaixou os 120 mil euros em dinheiro. Mas quanto às outras medidas do pacote nem sequer respondeu, apesar das várias insistências do Banco.
Fiquei boquiaberto, e sem saber o que dizer. Ter ali à mão um milhão de euros para construir a ala pediátrica, e virar-lhe as costas - excepto ao cash - era algo que não conseguia compreender, eu que, desde há meses, percorria o país para arranjar dinheiro para a obra.
Perguntei-lhe se o pacote financeiro se mantinha de pé. Respondeu-me que, dadas as condições difíceis que o Banco vivia, era pouco provável. Mas que iria tentar junto da administração em Lisboa. Pela minha parte, eu iria pedir ao Professor António Ferreira para aceitar o pacote.
E assim fiz. Mas, tal como acontecera antes com o BES, também eu nunca obtive resposta.
Fui recebido por um director e um director-adjunto, dois homens ainda novos, talvez na casa dos quarenta anos. Via-se que eram quadro superiores recentemente promovidos a lugares de direcção para substituir a administração do Dr. Ricardo Salgado que fora toda destituída.
Para amenizar o ambiente, entrei na sala a dizer,
-Muito prazer em conhecer-vos ... mas eu não gostaria de estar no vosso lugar...
Falámos sobre a situação do Banco e as frentes de trabalho em que eles estavam envolvidos, todas cheias de dificuldades. Tinham de reduzir a carteira de crédito em mais de 30%, os depósitos fugiam do Banco, e os despedimentos à vista eram muitos.
E aqui estava um cliente que lhes ia pedir crédito, ainda por cima "humanitário".
O director conhecia muito bem o Joãozinho. Tinha sido ele o executivo do Banco, sob a administração do Dr. Ricardo Salgado e do Dr. Jorge Martins no norte, que sempre tinha conduzido o mecenato do BES em relação ao Joãozinho. Contou-me que há cerca de dois anos, o Professor António Ferreira tinha pedido um milhão de euros ao BES para construir a nova ala pediátrica do HSJ.
Tinha sido ele a pôr de pé o pacote financeiro sob a autorização superior do Dr. Ricardo Salgado. O pacote incluía a afectação da doação anual de 40 mil euros que o BES faz ao HSJ exclusivamente ao Projecto Joãozinho, até a obra estar paga; a antecipação das rendas que o BES paga ao HSJ até ao final do contrato, previsto para 2017; outras medidas, de que ele agora não se recordava.
Tudo isto totalizava 880 mil euros. Para perfazer o milhão, o Dr. Ricardo Salgado autorizou pessoalmente que a diferença de 120 mil euros fosse entregue em dinheiro.
O HSJ encaixou os 120 mil euros em dinheiro. Mas quanto às outras medidas do pacote nem sequer respondeu, apesar das várias insistências do Banco.
Fiquei boquiaberto, e sem saber o que dizer. Ter ali à mão um milhão de euros para construir a ala pediátrica, e virar-lhe as costas - excepto ao cash - era algo que não conseguia compreender, eu que, desde há meses, percorria o país para arranjar dinheiro para a obra.
Perguntei-lhe se o pacote financeiro se mantinha de pé. Respondeu-me que, dadas as condições difíceis que o Banco vivia, era pouco provável. Mas que iria tentar junto da administração em Lisboa. Pela minha parte, eu iria pedir ao Professor António Ferreira para aceitar o pacote.
E assim fiz. Mas, tal como acontecera antes com o BES, também eu nunca obtive resposta.
humanitário
Quando regressei de férias em Setembro, considerei que era o momento também de iniciar o "Dossier Banca". Não que eu não tivesse feito ainda qualquer contacto com a banca a propósito do Joãozinho. Na realidade, um dos primeiros contactos que fiz, logo em Março, foi com um banco - o BES.
O BES era o principal banqueiro do HSJ e possuía uma agência nas instalações do Hospital por onde passavam os vencimentos dos seus mais de cinco mil e setecentos empregados e que tinha a reputação de ser a agência bancária mais rentável do país.
Encontrei-me no edifício-sede do BES no Porto, na Avenida dos Aliados, com o administrador para o norte, Dr. Jorge Martins, que estava acompanhado pelo director, Dr. Miguel Ferreira. Nenhum de nós podia imaginar nesse dia que, cinco meses depois, o BES já não existiria e nenhum dos dois permaneceria no seu respectivo lugar.
Enquanto o Projecto Joãozinho esteve sob a tutela do HSJ, o BES foi o seu maior mecenas, seguido, talvez, pela PT. Precisamente por isso, e em virtude da sua relação de negócios com o HSJ, o BES era um caso especial e que eu trataria à parte dos outros bancos.
E o que é que eu tinha para pedir aos bancos?
Um "financiamento humanitário" - uma expressão inovadora no mundo da banca e que eu próprio criei. Imagina-se logo que eu andava à procura de financiamento com uma taxa de juro baixíssima, até inferior à Euribor. Sim, também era isso, mas não era sobretudo isso que eu significava com a expressão.
Por "financiamento humanitário" eu significava, principalmente, um financiamento assente em garantias que eram geralmente mais frágeis do que aquelas que a banca normalmente exige, mas, em virtude do carácter humanitário da obra, eram as únicas que eu tinha para dar.
E que garantias eram essas?
Eram de três ordens. Primeiro, as receitas correntes da Associação provenientes de contribuições mecenáticas eventuais, e sem carácter recorrente. Muitas empresas multinacionais podiam comprometer-se com uma contribuição este ano, e talvez também para o outro, mas não por mais tempo, porque os mandatos das administrações eram geralmente limitados a três ou quatro anos, e a administração que viesse a seguir não podia estar vinculada pelas decisões mecenáticas da anterior.
Segundo, iria ter acordos de mecenato com empresas, com contribuições plurianuais que variariam entre três e dez anos. Evidentemente, estes acordos eram garantias frágeis para os bancos. Eles previam contribuições da empresa sob certas condições (v.g., a obra estar em andamento), mas não eram compromissos absolutamente vinculativos e que se pudessem fazer valer em tribunal.
Terceiro, teria protocolos tripartidos, em que o HSJ, que seria o dono da ala pediátrica, cederia um direito (v.g., naming) ou se comprometia a prestar um serviço (v.g., assistência às crianças deficientes protegidas pelo senhor Américo Amorim) e em que a empresa beneficiária se comprometia, por seu turno, por um certo número de anos, a fazer uma contribuição à Associação Joãozinho, sendo o produto desta contribuição destinado ao pagamento da obra.
A prestação de cuidados de saúde a crianças africanas, financiada pelas fundações associadas às multinacionais farmacêuticas, estava aqui incluída.
Em Dezembro, eu estava na sede do Santander, em Lisboa, e fui recebido pelo senhor José Leite Maia, um homem que aparentemente tinha subido a escadaria hierárquica do banco a pulso, e que era do Porto. Conhecia muito bem o Joãozinho. A avaliação que fiz da reunião foi "Muito Boa".
Em Outubro, já tinha voltado ao BES, que agora se chamava Novo Banco, e fui recebido por dois directores. A avaliação que dei à reunião foi "Excelente".
Em Maio de 2015 fui recebido pelo estado-maior da Caixa Geral de Depósitos no Porto, que incluía a directora-central e mais três directoras. Avaliação global da reunião: "Muito boa". Também já tinha estado no Banco Popular.
Quando me encontrei com o Dr. Fernando Nogueira, na sede da Fundação Millenium-BCP, pedi-lhe que me arranjasse uma reunião com o presidente do Banco, Dr. Nuno Amado, e que ele estivesse também presente. Três semanas depois, a reunião estava marcada. Fui eu a adiá-la porque entretanto outros problemas subitamente me ocuparam. A reunião permanece adiada até hoje.
Entretanto, já a 10 de Setembro tinha ido a Lisboa falar com o meu antigo professor e colega Carlos Costa, agora Governador do Banco de Portugal. Ele era assistente de História da Ciência Económica na FEP quando eu frequentei a cadeira. Dois anos mais tarde, éramos colegas, ele assistente daquela cadeira e eu de Estatística.
O Dr. Carlos Costa é natural de Oliveira de Azeméis, uma terra servida pelo HSJ do Porto. Não conhecia o Joãozinho, mas interessou-se muito pelo projecto. Ele tinha sido director do BEI - Banco Europeu de Investimentos e eu ia-lhe pedir um contacto para lá. Disse-me que dada a natureza do projecto Joãozinho, o mais adequado seria o Banco do Conselho Europeu.
Eu não sabia que o Conselho Europeu tinha um banco, mas fiquei contente por saber. Sobretudo porque o Dr. Carlos Costa ficou de me arranjar um contacto para eu ir lá pedir um "financiamento humanitário" para o Joãozinho.
O BES era o principal banqueiro do HSJ e possuía uma agência nas instalações do Hospital por onde passavam os vencimentos dos seus mais de cinco mil e setecentos empregados e que tinha a reputação de ser a agência bancária mais rentável do país.
Encontrei-me no edifício-sede do BES no Porto, na Avenida dos Aliados, com o administrador para o norte, Dr. Jorge Martins, que estava acompanhado pelo director, Dr. Miguel Ferreira. Nenhum de nós podia imaginar nesse dia que, cinco meses depois, o BES já não existiria e nenhum dos dois permaneceria no seu respectivo lugar.
Enquanto o Projecto Joãozinho esteve sob a tutela do HSJ, o BES foi o seu maior mecenas, seguido, talvez, pela PT. Precisamente por isso, e em virtude da sua relação de negócios com o HSJ, o BES era um caso especial e que eu trataria à parte dos outros bancos.
E o que é que eu tinha para pedir aos bancos?
Um "financiamento humanitário" - uma expressão inovadora no mundo da banca e que eu próprio criei. Imagina-se logo que eu andava à procura de financiamento com uma taxa de juro baixíssima, até inferior à Euribor. Sim, também era isso, mas não era sobretudo isso que eu significava com a expressão.
Por "financiamento humanitário" eu significava, principalmente, um financiamento assente em garantias que eram geralmente mais frágeis do que aquelas que a banca normalmente exige, mas, em virtude do carácter humanitário da obra, eram as únicas que eu tinha para dar.
E que garantias eram essas?
Eram de três ordens. Primeiro, as receitas correntes da Associação provenientes de contribuições mecenáticas eventuais, e sem carácter recorrente. Muitas empresas multinacionais podiam comprometer-se com uma contribuição este ano, e talvez também para o outro, mas não por mais tempo, porque os mandatos das administrações eram geralmente limitados a três ou quatro anos, e a administração que viesse a seguir não podia estar vinculada pelas decisões mecenáticas da anterior.
Segundo, iria ter acordos de mecenato com empresas, com contribuições plurianuais que variariam entre três e dez anos. Evidentemente, estes acordos eram garantias frágeis para os bancos. Eles previam contribuições da empresa sob certas condições (v.g., a obra estar em andamento), mas não eram compromissos absolutamente vinculativos e que se pudessem fazer valer em tribunal.
Terceiro, teria protocolos tripartidos, em que o HSJ, que seria o dono da ala pediátrica, cederia um direito (v.g., naming) ou se comprometia a prestar um serviço (v.g., assistência às crianças deficientes protegidas pelo senhor Américo Amorim) e em que a empresa beneficiária se comprometia, por seu turno, por um certo número de anos, a fazer uma contribuição à Associação Joãozinho, sendo o produto desta contribuição destinado ao pagamento da obra.
A prestação de cuidados de saúde a crianças africanas, financiada pelas fundações associadas às multinacionais farmacêuticas, estava aqui incluída.
Em Dezembro, eu estava na sede do Santander, em Lisboa, e fui recebido pelo senhor José Leite Maia, um homem que aparentemente tinha subido a escadaria hierárquica do banco a pulso, e que era do Porto. Conhecia muito bem o Joãozinho. A avaliação que fiz da reunião foi "Muito Boa".
Em Outubro, já tinha voltado ao BES, que agora se chamava Novo Banco, e fui recebido por dois directores. A avaliação que dei à reunião foi "Excelente".
Em Maio de 2015 fui recebido pelo estado-maior da Caixa Geral de Depósitos no Porto, que incluía a directora-central e mais três directoras. Avaliação global da reunião: "Muito boa". Também já tinha estado no Banco Popular.
Quando me encontrei com o Dr. Fernando Nogueira, na sede da Fundação Millenium-BCP, pedi-lhe que me arranjasse uma reunião com o presidente do Banco, Dr. Nuno Amado, e que ele estivesse também presente. Três semanas depois, a reunião estava marcada. Fui eu a adiá-la porque entretanto outros problemas subitamente me ocuparam. A reunião permanece adiada até hoje.
Entretanto, já a 10 de Setembro tinha ido a Lisboa falar com o meu antigo professor e colega Carlos Costa, agora Governador do Banco de Portugal. Ele era assistente de História da Ciência Económica na FEP quando eu frequentei a cadeira. Dois anos mais tarde, éramos colegas, ele assistente daquela cadeira e eu de Estatística.
O Dr. Carlos Costa é natural de Oliveira de Azeméis, uma terra servida pelo HSJ do Porto. Não conhecia o Joãozinho, mas interessou-se muito pelo projecto. Ele tinha sido director do BEI - Banco Europeu de Investimentos e eu ia-lhe pedir um contacto para lá. Disse-me que dada a natureza do projecto Joãozinho, o mais adequado seria o Banco do Conselho Europeu.
Eu não sabia que o Conselho Europeu tinha um banco, mas fiquei contente por saber. Sobretudo porque o Dr. Carlos Costa ficou de me arranjar um contacto para eu ir lá pedir um "financiamento humanitário" para o Joãozinho.
é tarde
Foi no processo de reconhecimento da Associação Joãozinho como IPSS que ocorreu um evento, ao qual na altura não dei qualquer importância, mas que viria a revelar-se decisivo para o desenvolvimento da obra. Tinha a ver com a qualidade de associados dos cinco administradores do HSJ e do próprio HSJ enquanto pessoa colectiva, e também com a sua participação em lugares de direcção.
Na realidade, o Professor António Ferreira, presidente do Hospital, e o Dr. João Oliveira, número dois da administração, eram directores não executivos, e a Dra. Ana Maria Príncipe, assessora do presidente, era mesmo vogal executiva da direcção.
Ora a lei das IPSS's tinha sido recentemente alterada porque muitas instituições públicas criavam IPSS's como verdadeiros sacos azuis para aí colocarem os seus próprios executivos e os seus boys, recorrendo a fundos, frequentemente europeus, que depois utilizavam, em grande medida para se pagarem a si próprios, directamente ou em despesas, numa altura em que os salários da função pública estavam congelados e até tinham sido reduzidos.
A conclusão era a de que todos os membros da administração do HSJ tinham de sair da Associação e dos lugares de direcção.
A Dra. Fátima Pereira foi então junto do HSJ e, com o Dr. João Oliveira, tratou do assunto, que foi inicialmente recebido com alguma surpresa, e só resolvido depois de ela lhe enviar a lei.
De uma assentada, saíam de sócios os cinco administradores do HSJ e o próprio HSJ, e da direcção o Professor António Ferreira, o Dr. João Oliveira e a Dra. Ana Maria Príncipe. Para o lugar desta última, entrou a Dra. Susana Almeida e a direcção passou a ser composta por três elementos apenas, todos executivos.
Para substituir os sócios excluídos, e dada a pressa em fazer avançar o processo junto do Ministério da Segurança Social, a Dra. Fátima Pereira e eu próprio pedimos a pessoas das nossas relações, e que sabiam a obra que estávamos a fazer, que se fizessem sócias da Associação.
A partir deste momento, a Associação Joãozinho passava a ser totalmente independente do Hospital de S. João, cumprindo a letra e o espírito da alteração legislativa, e não havia maneira de o Hospital de S. João ter qualquer interferência nela.
Estávamos em Janeiro de 2015, a obra iria ser começada dentro de mês e meio. Sem que eu pudesse antecipar na altura, a partir deste momento as relações entre o Hospital de S. João e a Associação Joãozinho iriam tornar-se muito difíceis, e a obra do Joãozinho preparava-se para encontrar sérios obstáculos no caminho.
Porém, um homem apaixonado aos sessenta anos é muito pior do que aos vinte. Só vê o que lhe interessa. Não apenas não dei qualquer importância ao assunto, como continuei entusiasmado a trabalhar para o Joãozinho saltando os obstáculos, à medida que iam surgindo, como um atleta olímpico salta as barreiras com os olhos fixos na meta.
Foram necessários quase seis meses para eu cair na realidade. Foi no início do Verão, e foi necessário uma pessoa sentar-se em frente a mim - uma mulher, claro - olhar-me nos olhos e perguntar-me:
-Sabe o que se diz no Hospital?...
-Não...
-"Temos de pôr o Pedro Arroja fora da Associação..."
Creio que fiquei atónito, em silêncio, julgo que baixei os olhos, mas lembro-me de, mais tarde, ter dito para os meus próprios botões: "Agora...é tarde...".
Na realidade, o Professor António Ferreira, presidente do Hospital, e o Dr. João Oliveira, número dois da administração, eram directores não executivos, e a Dra. Ana Maria Príncipe, assessora do presidente, era mesmo vogal executiva da direcção.
Ora a lei das IPSS's tinha sido recentemente alterada porque muitas instituições públicas criavam IPSS's como verdadeiros sacos azuis para aí colocarem os seus próprios executivos e os seus boys, recorrendo a fundos, frequentemente europeus, que depois utilizavam, em grande medida para se pagarem a si próprios, directamente ou em despesas, numa altura em que os salários da função pública estavam congelados e até tinham sido reduzidos.
A conclusão era a de que todos os membros da administração do HSJ tinham de sair da Associação e dos lugares de direcção.
A Dra. Fátima Pereira foi então junto do HSJ e, com o Dr. João Oliveira, tratou do assunto, que foi inicialmente recebido com alguma surpresa, e só resolvido depois de ela lhe enviar a lei.
De uma assentada, saíam de sócios os cinco administradores do HSJ e o próprio HSJ, e da direcção o Professor António Ferreira, o Dr. João Oliveira e a Dra. Ana Maria Príncipe. Para o lugar desta última, entrou a Dra. Susana Almeida e a direcção passou a ser composta por três elementos apenas, todos executivos.
Para substituir os sócios excluídos, e dada a pressa em fazer avançar o processo junto do Ministério da Segurança Social, a Dra. Fátima Pereira e eu próprio pedimos a pessoas das nossas relações, e que sabiam a obra que estávamos a fazer, que se fizessem sócias da Associação.
A partir deste momento, a Associação Joãozinho passava a ser totalmente independente do Hospital de S. João, cumprindo a letra e o espírito da alteração legislativa, e não havia maneira de o Hospital de S. João ter qualquer interferência nela.
Estávamos em Janeiro de 2015, a obra iria ser começada dentro de mês e meio. Sem que eu pudesse antecipar na altura, a partir deste momento as relações entre o Hospital de S. João e a Associação Joãozinho iriam tornar-se muito difíceis, e a obra do Joãozinho preparava-se para encontrar sérios obstáculos no caminho.
Porém, um homem apaixonado aos sessenta anos é muito pior do que aos vinte. Só vê o que lhe interessa. Não apenas não dei qualquer importância ao assunto, como continuei entusiasmado a trabalhar para o Joãozinho saltando os obstáculos, à medida que iam surgindo, como um atleta olímpico salta as barreiras com os olhos fixos na meta.
Foram necessários quase seis meses para eu cair na realidade. Foi no início do Verão, e foi necessário uma pessoa sentar-se em frente a mim - uma mulher, claro - olhar-me nos olhos e perguntar-me:
-Sabe o que se diz no Hospital?...
-Não...
-"Temos de pôr o Pedro Arroja fora da Associação..."
Creio que fiquei atónito, em silêncio, julgo que baixei os olhos, mas lembro-me de, mais tarde, ter dito para os meus próprios botões: "Agora...é tarde...".
24 agosto 2017
invulgar
Faltavam pouco mais de quatro meses para o início da obra e eu tinha muitos assuntos a tratar, alguns absolutamente prioritários. Um deles, era obter a aceitação da obra por parte do Ministério da Saúde.
Desde aquela reunião com o Dr. Paulo Rangel e o Dr. Avides Moreira que eu tinha ficado com o sentimento que isto de dar coisas ao Estado - mesmo tratando-se de uma obra para crianças doentes no valor de vinte milhões de euros - não é coisa fácil, não é para qualquer um, e tem muito que se lhe diga.
O Estado português estava na altura falido - uma situação da qual ainda não recuperou totalmente -, e sob as imposições da troika. Mas a ideia com que fiquei, da conversa com os juristas da Cuatrecasas, foi a de que que o Estado português era uma espécie de fidalgo falido.
Ao Estado português, não é qualquer um que lhe dá e não é qualquer coisa que se lhe dá. É preciso que ele aceite, e imponha as suas condições. Na realidade, é preciso pedir-lhe que aceite - e tudo isso é objecto de um processo jurídico complexo.
Fiquei, por isso, um pouco surpreendido quando, no final de Novembro, me encontrei com o secretário de Estado Manuel Teixeira no Ministério da Saúde. Disse-me que tanto ele como o ministro tinham grande apreço pelo Projecto do Joãozinho que consideravam "uma iniciativa extraordinária e absolutamente invulgar".
Em Janeiro, o Dr. Manuel Teixeira publicou um despacho a louvar a iniciativa e a declarar não ver quaisquer impedimentos à aceitação da obra por parte do Estado.
Igualmente prioritário era requerer o estatuto de utilidade pública da Associação Joãozinho, que decorria da obtenção do estatuto de IPSS - Instituição Privada de Solidariedade Social.
Existiam duas razões prementes para isso. A primeira era a de que, com o início da obra, em breve eu iria começar a pedir dinheiro aos mecenas, e o estatuto de utilidade pública da Associação permitir-lhes-ia deduzir nos impostos as suas contribuições mecenáticas.
A segunda era a de que o estatuto de utilidade pública permitia à Associação obter o reembolso de metade do IVA. A obra custava cerca de vinte milhões de euros, mais IVA, o qual chegava quase aos cinco milhões. Dispondo do estatuto de utilidade pública, a Associação poupava quase dois milhões e meio de euros em IVA.
É claro que, sendo uma obra doada ao Estado, não fazia sentido que estivesse sujeita a qualquer montante de IVA. Mas a lei era assim e, para obter o reembolso da outra metade, eu teria de actuar junto dos deputados à Assembleia da República - o que viria a fazer mais tarde -, pedindo-lhes que fizessem uma pequena alteração à lei das IPSS's - a saber, que, quando a obra fosse doada ao Estado, o reembolso do IVA fosse total.
O processo deu entrada no Ministério do Trabalho e da Segurança Social em Novembro, devidamente instruído com o historial do Projecto Joãozinho, os mecenas actuais e potenciais, a sua comissão de honra, os documentos do concurso para a obra - nessa altura, a Teixeira Duarte já era a vencedora conhecida - e outra documentação, à qual se juntou mais tarde o despacho do secretário de estado da Saúde.
Em Janeiro fui chamado a Lisboa pelo director do serviço, Dr. Rui Santos. Deu-me os parabéns. Passavam-lhe pela mão todos os pedidos de reconhecimento de IPSS's, e nunca lhe tinha passado um com tão grandiosa missão e em tão avançado estado de realização. Pouco tempo depois, à Associação Joãozinho era reconhecido o estatuto de IPSS e, por implicação, o estatuto de utilidade pública.
Desde aquela reunião com o Dr. Paulo Rangel e o Dr. Avides Moreira que eu tinha ficado com o sentimento que isto de dar coisas ao Estado - mesmo tratando-se de uma obra para crianças doentes no valor de vinte milhões de euros - não é coisa fácil, não é para qualquer um, e tem muito que se lhe diga.
O Estado português estava na altura falido - uma situação da qual ainda não recuperou totalmente -, e sob as imposições da troika. Mas a ideia com que fiquei, da conversa com os juristas da Cuatrecasas, foi a de que que o Estado português era uma espécie de fidalgo falido.
Ao Estado português, não é qualquer um que lhe dá e não é qualquer coisa que se lhe dá. É preciso que ele aceite, e imponha as suas condições. Na realidade, é preciso pedir-lhe que aceite - e tudo isso é objecto de um processo jurídico complexo.
Fiquei, por isso, um pouco surpreendido quando, no final de Novembro, me encontrei com o secretário de Estado Manuel Teixeira no Ministério da Saúde. Disse-me que tanto ele como o ministro tinham grande apreço pelo Projecto do Joãozinho que consideravam "uma iniciativa extraordinária e absolutamente invulgar".
Em Janeiro, o Dr. Manuel Teixeira publicou um despacho a louvar a iniciativa e a declarar não ver quaisquer impedimentos à aceitação da obra por parte do Estado.
Igualmente prioritário era requerer o estatuto de utilidade pública da Associação Joãozinho, que decorria da obtenção do estatuto de IPSS - Instituição Privada de Solidariedade Social.
Existiam duas razões prementes para isso. A primeira era a de que, com o início da obra, em breve eu iria começar a pedir dinheiro aos mecenas, e o estatuto de utilidade pública da Associação permitir-lhes-ia deduzir nos impostos as suas contribuições mecenáticas.
A segunda era a de que o estatuto de utilidade pública permitia à Associação obter o reembolso de metade do IVA. A obra custava cerca de vinte milhões de euros, mais IVA, o qual chegava quase aos cinco milhões. Dispondo do estatuto de utilidade pública, a Associação poupava quase dois milhões e meio de euros em IVA.
É claro que, sendo uma obra doada ao Estado, não fazia sentido que estivesse sujeita a qualquer montante de IVA. Mas a lei era assim e, para obter o reembolso da outra metade, eu teria de actuar junto dos deputados à Assembleia da República - o que viria a fazer mais tarde -, pedindo-lhes que fizessem uma pequena alteração à lei das IPSS's - a saber, que, quando a obra fosse doada ao Estado, o reembolso do IVA fosse total.
O processo deu entrada no Ministério do Trabalho e da Segurança Social em Novembro, devidamente instruído com o historial do Projecto Joãozinho, os mecenas actuais e potenciais, a sua comissão de honra, os documentos do concurso para a obra - nessa altura, a Teixeira Duarte já era a vencedora conhecida - e outra documentação, à qual se juntou mais tarde o despacho do secretário de estado da Saúde.
Em Janeiro fui chamado a Lisboa pelo director do serviço, Dr. Rui Santos. Deu-me os parabéns. Passavam-lhe pela mão todos os pedidos de reconhecimento de IPSS's, e nunca lhe tinha passado um com tão grandiosa missão e em tão avançado estado de realização. Pouco tempo depois, à Associação Joãozinho era reconhecido o estatuto de IPSS e, por implicação, o estatuto de utilidade pública.
um legado
A Liga dos Amigos do Hospital de S. João não é, nem de longe, o principal mecenas do Joãozinho. Mas é, de certeza, o mais presente. Em todos os momentos importantes para o Joãozinho, o Professor Serafim Guimarães, catedrático jubilado da Faculdade de Medicina do Porto, que preside à direcção, está presente, às vezes com um emblemático cheque na mão.
A Liga dos Amigos, desde há muito tempo que tinha uma importância para entregar ao Joãozinho, mas, por qualquer razão, nunca o tinha feito. Em matéria de dinheiro, o Professor Serafim Guimarães ouvia bastante o Dr. Miguel Cadilhe que, embora já não ocupando qualquer lugar nos órgãos sociais da Liga, tinha uma especial palavra a dizer no que respeitava ao Joãozinho.
Ora, eu encontrava-me agora frequentemente com o Dr. Miguel Cadilhe, e não apenas por causa do Joãozinho, de que ele também era mecenas. Ele mora a quinhentos metros do meu escritório. Pouco tempo antes, ele tinha feito uma apresentação do meu livro F. - Portugal é uma Figura de Mulher no auditório da Câmara Municipal de Vila Nova de Gaia, com o produto das vendas a reverter para o Joãozinho.
Sendo um homem dado aos números, foi o único crítico que notou uma particularidade do livro, e fê-lo logo a abrir: "Embora seja um livro dedicado à sua neta, o professor Pedro Arroja ocupa mais de um terço do livro a tratar da Justiça no país".
Eu conheci o Dr. Miguel Cadilhe em 1972, muito antes de ele me conhecer a mim. Foi quando entrei para a Faculdade de Economia da Universidade do Porto, ele era já assistente - talvez o mais prestigiado de todos os assistentes, certamente aos meus olhos, e ainda não teria 30 anos. Mais tarde, como director do gabinete de estudos do BPA havia de lançar o primeiro boletim de análise económica da conjuntura no país.
Mas não apenas isso. Os cursos de Economia chegaram a Portugal através do Direito e do Instituto Superior de Comércio, e o curso que eu fui encontrar no Porto, em um quarto era Direito, em outro quarto Contabilidade e Gestão, no terceiro quarto Matemática, e só o último quarto era Economia. Ora, devia-se ao Dr. Miguel Cadilhe um novo modo de encarar duas disciplinas centrais num curso de Economia - Estatística e Econometria - as quais, juntamente com Economia I e Contabilidade Industrial constituíam os cadeirões do curso.
Faltavam poucos meses para eu ser aluno dele em Estatística, estava no segundo ano do curso, quando se deu o 25 de Abril e quase todos os professores foram politicamente saneados. Acabaria eu, dois anos depois, a ser monitor de Estatística - ainda como estudante do 4º ano - e mais tarde assistente.
Nessa qualidade, fui co-autor de uma sebenta que dava seguimento àquela que ele tinha deixado na cadeira. Dez anos depois, fui o primeiro regente doutorado da cadeira de Econometria, uma cadeira que ele próprio tinha ministrado juntamente com o Dr. António Filipe.
Nessa qualidade, fui co-autor de uma sebenta que dava seguimento àquela que ele tinha deixado na cadeira. Dez anos depois, fui o primeiro regente doutorado da cadeira de Econometria, uma cadeira que ele próprio tinha ministrado juntamente com o Dr. António Filipe.
Curiosamente, como ele, também eu já tinha sido empregado no BPA, logo depois de terminar o meu curso comercial em Lisboa. Mais tarde, depois de abandonar o Governo, e ainda no seio do BPA, ele fundou o Instituto de Estudos Superiores Financeiros e Fiscais no Edifício Heliântia em Valadares e foi o seu primeiro presidente. Dez anos depois, era eu o presidente.
Ele também já tinha sido presidente de uma Associação mecenática - a Fundação Rei Afonso Henriques -, e eu agora era o mesmo, na Associação Joãozinho. No sector financeiro, ele tinha sido presidente de bancos mas, também aqui, eu não conseguia igualá-lo - eu só tinha conseguido ser presidente de pequenas sociedades financeiras.
Ele também já tinha sido presidente de uma Associação mecenática - a Fundação Rei Afonso Henriques -, e eu agora era o mesmo, na Associação Joãozinho. No sector financeiro, ele tinha sido presidente de bancos mas, também aqui, eu não conseguia igualá-lo - eu só tinha conseguido ser presidente de pequenas sociedades financeiras.
Ministro das Finanças é que nunca fui, nem ele decidiu seguir a carreira académica. Apesar de todas estas coincidências, só conheci o Dr. Miguel Cadilhe no final do seu mandato como ministro - na minha opinião, o melhor e o mais produtivo ministro das Finanças que Portugal teve em democracia - e mesmo aí o contacto foi breve. Na altura, eu comentava para os jornais, as rádios e televisões sobre assuntos económicos e financeiros.
Em Janeiro de 1990 o Dr. Miguel Cadilhe abandonava o Ministério das Finanças farto da escalada de ataques, mesquinhezes e perfídias, que retrataria num livro que escreveu poucos meses depois. Não há montanha sem névoa, nem mérito sem calúnia", dizia a abrir. E, depois, resumiria o seu trabalho à frente do Ministério das Finanças, escrevendo: "Quem semeia reformas, colhe tempestades"
Em Janeiro de 1990 o Dr. Miguel Cadilhe abandonava o Ministério das Finanças farto da escalada de ataques, mesquinhezes e perfídias, que retrataria num livro que escreveu poucos meses depois. Não há montanha sem névoa, nem mérito sem calúnia", dizia a abrir. E, depois, resumiria o seu trabalho à frente do Ministério das Finanças, escrevendo: "Quem semeia reformas, colhe tempestades"
Pois neste encontro que tive com ele no meu escritório, para além de outros assuntos, falámos dos progressos do Joãozinho - um Projecto que ele acompanhava desde o seu início em 2009. Podia agora anunciar-lhe que a obra seria feita pela Teixeira Duarte e teria início a 3 de Março.
Disse-lhe também que tinha estado com o Eng. Vergílio Folhadela, administrador da RAR (Refinarias de Açúcar Reunidas, SA), e que fiquei muito entusiasmado com a reunião. Foi então que ele me contou um episódio passado com o senhor Macedo Silva, fundador da RAR, e um dos grandes mecenas da cidade do Porto.
O Dr. Miguel Cadilhe era presidente da Fundação Rei Afonso Henriques, e andava - como eu agora -, a recolher contribuições junto das grandes empresas do país. Nunca lhe ocorreu bater à porta da RAR. Aconteceu, porém, que um dia recebeu um telefonema do senhor Macedo Silva - pretendia encontrar-se com ele.
No encontro, o senhor Macedo Silva vinha dizer-lhe que apreciava muito a obra que a Fundação hispano-portuguesa vinha a fazer, especialmente em prol da candidatura do nosso Alto Douro Vinhateiro a Património Mundial, e confiava muito na pessoa do seu presidente para a realizar. Em seguida, tirou um cheque de montante avultado do bolso e deu-lho a fim de ser consignado à referida candidatura. Era assim o senhor Macedo Silva - um legado mecenático que, depois de morrer, deixou para sempre na RAR.
O Dr. Miguel Cadilhe era presidente da Fundação Rei Afonso Henriques, e andava - como eu agora -, a recolher contribuições junto das grandes empresas do país. Nunca lhe ocorreu bater à porta da RAR. Aconteceu, porém, que um dia recebeu um telefonema do senhor Macedo Silva - pretendia encontrar-se com ele.
No encontro, o senhor Macedo Silva vinha dizer-lhe que apreciava muito a obra que a Fundação hispano-portuguesa vinha a fazer, especialmente em prol da candidatura do nosso Alto Douro Vinhateiro a Património Mundial, e confiava muito na pessoa do seu presidente para a realizar. Em seguida, tirou um cheque de montante avultado do bolso e deu-lho a fim de ser consignado à referida candidatura. Era assim o senhor Macedo Silva - um legado mecenático que, depois de morrer, deixou para sempre na RAR.
Duas semanas depois de me encontrar com o Dr. Miguel Cadilhe, recebi da Liga dos Amigos do HSJ vinte mil euros para a obra do Joãozinho, que estavam bem guardados e consignados no balanço da Liga.
Poucos meses depois, eu estava a assinar com o Eng. Vergílio Folhadela, na sede da RAR, um Acordo de Mecenato mediante o qual a RAR se comprometia a contribuir com 500 mil euros para a obra do Joãozinho, ao ritmo de cinquenta mil euros por ano, durante dez anos - o primeiro cheque entregue na altura.
Quarenta mecenas como este - fiz as contas - e a obra estaria paga.
Poucos meses depois, eu estava a assinar com o Eng. Vergílio Folhadela, na sede da RAR, um Acordo de Mecenato mediante o qual a RAR se comprometia a contribuir com 500 mil euros para a obra do Joãozinho, ao ritmo de cinquenta mil euros por ano, durante dez anos - o primeiro cheque entregue na altura.
Quarenta mecenas como este - fiz as contas - e a obra estaria paga.
3 de Março
Se os primeiros sete meses de trabalho no Joãozinho tinham sido intensos e muito gratificantes, os quatro meses que se seguiriam, após o regresso de férias e até ao final do ano, seriam ainda mais.
As prioridades continuavam a ser as mesmas - primeiro a obra, e só depois o dinheiro. Era agora mais que certo que o dinheiro viria com a obra em andamento. Não me preocupava o milhão de euros que teria de pagar à construtora com o início da obra.
Esse dinheiro viria do HSJ, correspondente aos fundos angariados em favor do Joãozinho durante os cinco anos em que o Projecto esteve sob a sua direcção. Meses antes, no dia em que a Associação foi fundada, no seu gabinete, o Professor António Ferreira tinha falado em cerca de um milhão e duzentos mil euros.
No final de Setembro, já perto do final do prazo para apresentação das propostas, uma construtora bateu-me à porta - a Lucios - através de um seu director. Sabia que estava a decorrer um concurso para a construção da nova ala pediátrica do HSJ, não tinha sido convidada, mas gostaria de apresentar uma proposta.
Eu só tinha convidado as grandes empresas do sector da construção do país. A Lucios tem uma dimensão abaixo destas. É uma empresa familiar de média dimensão que já vai na terceira geração, com sede na Maia e muito conhecida no norte do país, menos no sul, embora também já com actividade multinacional.
A Lucios tinha construído o edifício da nova Faculdade de Medicina, anexo ao Hospital de S. João, onde eu já tinha estado e de que tinha ouvido falar muito bem. Decidi alargar o prazo do concurso por mais uns dias e admiti também a Lucios.
Em meados de Outubro, todas as propostas tinham dado entrada. Para me ajudar tecnicamente, eu contei com um engenheiro que me tinha sido recomendado pela Mota-Engil e que era dono de uma empresa de fiscalização. Em breve me transmitiu que todas as propostas eram igualmente credíveis do ponto de vista técnico - estávamos a falar das melhores empresas de construção do país, todas elas multinacionais.
A decisão seria, portanto, pelo preço. Entre a proposta mais barata e a mais cara a variação do preço era pequena, menos de 10%. Mas a proposta mais barata e a única abaixo de vinte milhões de euros era a da Teixeira Duarte.
Comuniquei a todas as empresas concorrentes - ao mesmo tempo que agradeci muito a cada uma delas -, que a obra seria realizada pela Teixeira Duarte. Fiz o mesmo à administração do HSJ onde a notícia foi muito bem recebida.
Nos últimos anos, a Teixeira Duarte tinha ganho quase todos os concursos no HSJ, e quem visitasse o Hospital não poderia deixar de notar a sua presença constante. Existia uma excelente relação entre a administração da empresa e a administração do HSJ, bem como entre o pessoal técnico da empresa e o pessoal técnico do Hospital.
Comecei imediatamente a trabalhar com o Eng. Gouveia Capelão, administrador da Teixeira Duarte, nos preparativos para o lançamento da obra que, em breve, teria data de início prevista: 3 de Março de 2015. Trata-se do dia do aniversário da assessora do presidente do HSJ que me tinha levado para o Projecto Joãozinho e que era agora minha colega na direcção da Associação.
Era uma pequena homenagem que eu lhe prestava pelos vários anos de dedicação ao Joãozinho. Chama-se Ana Maria Príncipe. A promessa que lhe tinha feito a ela, mas também a Deus, começaria a ser cumprida naquele dia.
As prioridades continuavam a ser as mesmas - primeiro a obra, e só depois o dinheiro. Era agora mais que certo que o dinheiro viria com a obra em andamento. Não me preocupava o milhão de euros que teria de pagar à construtora com o início da obra.
Esse dinheiro viria do HSJ, correspondente aos fundos angariados em favor do Joãozinho durante os cinco anos em que o Projecto esteve sob a sua direcção. Meses antes, no dia em que a Associação foi fundada, no seu gabinete, o Professor António Ferreira tinha falado em cerca de um milhão e duzentos mil euros.
No final de Setembro, já perto do final do prazo para apresentação das propostas, uma construtora bateu-me à porta - a Lucios - através de um seu director. Sabia que estava a decorrer um concurso para a construção da nova ala pediátrica do HSJ, não tinha sido convidada, mas gostaria de apresentar uma proposta.
Eu só tinha convidado as grandes empresas do sector da construção do país. A Lucios tem uma dimensão abaixo destas. É uma empresa familiar de média dimensão que já vai na terceira geração, com sede na Maia e muito conhecida no norte do país, menos no sul, embora também já com actividade multinacional.
A Lucios tinha construído o edifício da nova Faculdade de Medicina, anexo ao Hospital de S. João, onde eu já tinha estado e de que tinha ouvido falar muito bem. Decidi alargar o prazo do concurso por mais uns dias e admiti também a Lucios.
Em meados de Outubro, todas as propostas tinham dado entrada. Para me ajudar tecnicamente, eu contei com um engenheiro que me tinha sido recomendado pela Mota-Engil e que era dono de uma empresa de fiscalização. Em breve me transmitiu que todas as propostas eram igualmente credíveis do ponto de vista técnico - estávamos a falar das melhores empresas de construção do país, todas elas multinacionais.
A decisão seria, portanto, pelo preço. Entre a proposta mais barata e a mais cara a variação do preço era pequena, menos de 10%. Mas a proposta mais barata e a única abaixo de vinte milhões de euros era a da Teixeira Duarte.
Comuniquei a todas as empresas concorrentes - ao mesmo tempo que agradeci muito a cada uma delas -, que a obra seria realizada pela Teixeira Duarte. Fiz o mesmo à administração do HSJ onde a notícia foi muito bem recebida.
Nos últimos anos, a Teixeira Duarte tinha ganho quase todos os concursos no HSJ, e quem visitasse o Hospital não poderia deixar de notar a sua presença constante. Existia uma excelente relação entre a administração da empresa e a administração do HSJ, bem como entre o pessoal técnico da empresa e o pessoal técnico do Hospital.
Comecei imediatamente a trabalhar com o Eng. Gouveia Capelão, administrador da Teixeira Duarte, nos preparativos para o lançamento da obra que, em breve, teria data de início prevista: 3 de Março de 2015. Trata-se do dia do aniversário da assessora do presidente do HSJ que me tinha levado para o Projecto Joãozinho e que era agora minha colega na direcção da Associação.
Era uma pequena homenagem que eu lhe prestava pelos vários anos de dedicação ao Joãozinho. Chama-se Ana Maria Príncipe. A promessa que lhe tinha feito a ela, mas também a Deus, começaria a ser cumprida naquele dia.
23 agosto 2017
aos domingos
Quando, em Agosto, interrompi o trabalho para férias, o Projecto Joãozinho estava a carburar a todo o vapor. Tinham sido sete meses de trabalho intenso e imensamente gratificante. O concurso para a obra estava lançado, a qual seria, em última instância, realizada pela Mota-Engil. A receptividade junto dos mecenas potenciais tinha sido excelente. Novas avenidas tinham sido abertas para o financiamento da obra.
No regresso de férias, passaria à concretização.
As reuniões executivas semanais tinham lugar aos domingos, pelas seis da tarde, com a presença dos três membros da direcção, duas senhoras que se ocupavam dos contactos com os mecenas, e do Manuel Eanes - ocasionalmente, também algum convidado, como o Professor António Ferreira e outros administradores do HSJ.
A razão para as reuniões serem aos domingos é que o Manuel Eanes, sendo embora presidente do conselho fiscal, desde o início que se implicou muito no Projecto do Joãozinho e, como trabalhava em Lisboa, só vinha a casa no Porto aos fins-de-semana.
As reuniões tinham lugar no edifício-sede de uma empresa que tem o meu nome e de que eu sou acionista maioritário. Embora a Associação Joãozinho tivesse a sua sede oficial na morada do HSJ, todo o trabalho executivo era conduzido a partir de uma sala nesse edifício que eu tinha cedido à Associação (*).
No final de Julho, eu não tinha mãos a medir. As oportunidades que se abriam eram imensas. A nova ala pediátrica estaria equipada com uma sala de computadores onde os jovens internados poderiam prosseguir à distância os seus estudos. Iniciei negociações - neste momento interrompidas - com multinacionais informáticas para fornecerem o equipamento e darem o nome à sala, em troca de uma contribuição de cem mil euros por ano, durante cinco anos.
A sala de jogos prevista para a nova ala pediátrica já tinha sido prometida ao F. C. Porto, muito antes de eu assumir o Projecto, e até já existia um vídeo-simulação. O presidente do clube e muitos dos seus jogadores desde o início que participavam em eventos de fund raising do Joãozinho. Caber-me-ia a mim mais tarde, quando fosse oportuno, negociar a contribuição mecenática do clube.
Uma multinacional farmacêutica há muito que tinha falado com o Professor António Ferreira acerca do seu interesse em instalar na nova ala pediátrica uma pequena unidade de preparação de medicamentos - medicamentos cuja eficácia é aumentada quando preparados imediatamente antes da toma - e estava pronta a pagar bem pelo espaço. Tinha chegado finalmente o momento de dar realidade à ideia.
No Porto Canal, às Segundas-feiras, eu falava frequentemente sobre o Joãozinho e dava conta dos seus progressos. Muitas contribuições anónimas começaram a cair na conta bancária da Associação. E pessoas condenadas em tribunal por pequenos os delitos (v.g., condução sob o efeito de álcool) escolhiam agora a Associação Joãozinho para pagarem as suas penas.
As oportunidades eram tantas que, por esta altura, eu já estava convencido que, em lugar dos dez anos que inicialmente tinha previsto, seria capaz de pagar a obra até ao final do prazo da sua execução, que é de dois anos. Precisava era de um banco para intermediar a operação porque muitas das receitas viriam em forma plurianual, algumas ao longo de dez anos.
(*) Tempos depois, quando o palerma do Rangel apresentou a queixa-crime contra mim no DIAP, onde me exige uma indemnização de 50 mil euros para ele, outro tanto para a sua sociedade de advogados, diz que eu sou a face visível de várias sociedades financeiras, uma delas sediada "numa das mais conhecidas vias da Cidade do Porto, a Avenida de Montevideu, num emblemático e valiosíssimo edifício...".
E conclui: "O demandado é, por isso, pessoa que vive com desafogo, de condição económica alta, que se desdobra em actividades académicas e do mundo financeiro e em empresas de gestão de fortunas e investimentos" .
É preciso não ter vergonha.
No regresso de férias, passaria à concretização.
As reuniões executivas semanais tinham lugar aos domingos, pelas seis da tarde, com a presença dos três membros da direcção, duas senhoras que se ocupavam dos contactos com os mecenas, e do Manuel Eanes - ocasionalmente, também algum convidado, como o Professor António Ferreira e outros administradores do HSJ.
A razão para as reuniões serem aos domingos é que o Manuel Eanes, sendo embora presidente do conselho fiscal, desde o início que se implicou muito no Projecto do Joãozinho e, como trabalhava em Lisboa, só vinha a casa no Porto aos fins-de-semana.
As reuniões tinham lugar no edifício-sede de uma empresa que tem o meu nome e de que eu sou acionista maioritário. Embora a Associação Joãozinho tivesse a sua sede oficial na morada do HSJ, todo o trabalho executivo era conduzido a partir de uma sala nesse edifício que eu tinha cedido à Associação (*).
No final de Julho, eu não tinha mãos a medir. As oportunidades que se abriam eram imensas. A nova ala pediátrica estaria equipada com uma sala de computadores onde os jovens internados poderiam prosseguir à distância os seus estudos. Iniciei negociações - neste momento interrompidas - com multinacionais informáticas para fornecerem o equipamento e darem o nome à sala, em troca de uma contribuição de cem mil euros por ano, durante cinco anos.
A sala de jogos prevista para a nova ala pediátrica já tinha sido prometida ao F. C. Porto, muito antes de eu assumir o Projecto, e até já existia um vídeo-simulação. O presidente do clube e muitos dos seus jogadores desde o início que participavam em eventos de fund raising do Joãozinho. Caber-me-ia a mim mais tarde, quando fosse oportuno, negociar a contribuição mecenática do clube.
Uma multinacional farmacêutica há muito que tinha falado com o Professor António Ferreira acerca do seu interesse em instalar na nova ala pediátrica uma pequena unidade de preparação de medicamentos - medicamentos cuja eficácia é aumentada quando preparados imediatamente antes da toma - e estava pronta a pagar bem pelo espaço. Tinha chegado finalmente o momento de dar realidade à ideia.
No Porto Canal, às Segundas-feiras, eu falava frequentemente sobre o Joãozinho e dava conta dos seus progressos. Muitas contribuições anónimas começaram a cair na conta bancária da Associação. E pessoas condenadas em tribunal por pequenos os delitos (v.g., condução sob o efeito de álcool) escolhiam agora a Associação Joãozinho para pagarem as suas penas.
As oportunidades eram tantas que, por esta altura, eu já estava convencido que, em lugar dos dez anos que inicialmente tinha previsto, seria capaz de pagar a obra até ao final do prazo da sua execução, que é de dois anos. Precisava era de um banco para intermediar a operação porque muitas das receitas viriam em forma plurianual, algumas ao longo de dez anos.
(*) Tempos depois, quando o palerma do Rangel apresentou a queixa-crime contra mim no DIAP, onde me exige uma indemnização de 50 mil euros para ele, outro tanto para a sua sociedade de advogados, diz que eu sou a face visível de várias sociedades financeiras, uma delas sediada "numa das mais conhecidas vias da Cidade do Porto, a Avenida de Montevideu, num emblemático e valiosíssimo edifício...".
E conclui: "O demandado é, por isso, pessoa que vive com desafogo, de condição económica alta, que se desdobra em actividades académicas e do mundo financeiro e em empresas de gestão de fortunas e investimentos" .
É preciso não ter vergonha.
em espécie
Lisboa é a única e verdadeira cidade cosmopolita do país, talvez só aproximada, mas a uma dimensão muito menor, pelo Funchal. Tal significa, em primeiro lugar, uma cidade aberta e largamente impessoal. Em Lisboa desaguam todos os portugueses - e, nos anos mais recentes, também muitos imigrantes -, oriundos das mais diversas regiões do país, à procura de emprego e de oportunidades na vida. Em Lisboa, fora dos ambientes restritos do trabalho e da política, praticamente ninguém se conhece.
É muito diferente o Porto. Permanece a cidade burguesa por excelência do país, cheia de barreiras à entrada, de que o rio Douro não é, nem de longe, a principal. Não é fácil entrar na vida do Porto mas, uma vez lá dentro, a vida torna-se incrivelmente fácil. No Porto, toda a gente se conhece. Se uma centena de pessoas se puserem de acordo acerca de uma certa obra, essa obra vai fazer-se de certeza.
São duas excelentes cidades, cada uma ao seu estilo. Mas eu hoje não trocaria o Porto por Lisboa porque não teria em Lisboa, nem de longe, a qualidade de vida que tenho no Porto. O clima é até melhor em Lisboa e a oferta cultural nem se compara. Mas, num dia normal, eu conduzo quarenta quilómetros no Porto e arredores e raramente perco um minuto em filas de trânsito.
Durante todo o ano, aos dias de semana, pela hora do almoço, poiso num bar de praia em Francelos, quinze quilómetros ao sul da cidade, onde vou fazer jogging no passadiço, sobre a areia e a vinte metros do mar. O espaço que serve de enfermaria de apoio aos banhistas é todo meu para eu me mudar, e tenho duche quente no Inverno. Não é raro sair dali perfeitamente engravatado para uma reunião de trabalho no Porto ou mesmo em Lisboa. Quando a minha mulher às vezes me pergunta por onde é que andei durante o dia, eu respondo: "Estive no paraíso".
Vivo na cidade, mas tenho praia a novecentos metros de casa. No Porto é raro ver um imigrante e os arredores do Porto não têm nada que ver, em termos de integração social e segurança, com os arredores de Lisboa. E, acima de tudo, existe uma pessoalidade no Porto que não se encontra em Lisboa. Há muitos anos que não saio de casa para comprar um fato ou uma camisa nem para levar o carro à revisão.
Por vezes, eu perdia muito tempo a explicar em Lisboa por que é que a obra do Joãozinho era viável no Porto, mas nunca seria viável em Lisboa. Creio que nem sempre as minhas explicações foram compreendidas. De resto, o Hospital de S. Maria tinha um Projecto equivalente ao Joãozinho - chamado Maria Raposa - que nunca levantou os pés do chão, ao passo que eu estava agora a poucos meses de começar a construção da nova ala pediátrica do Hospital de S. João.
Os trabalhos de construção estavam divididos técnica e economicamente em duas fases. A primeira - dita de estruturas -, tinha uma duração de nove meses e um custo aproximado de cinco milhões de euros. A segunda - chamada de acabamentos - durava quinze meses e tinha uma custo de cerca de quinze milhões de euros.
A fase de estruturas, no meu fraco entendimento de engenharia, correspondia à abertura dos caboucos da obra e à colocação das estruturas metálicas que iriam sustentar o edifício. A fase de acabamentos correspondia ao levantamento do edifício propriamente dito. Era nesta segunda fase, também a mais cara, que iriam ser necessários a maior parte dos materiais.
Eu estava ainda muito longe desta fase - a obra nem sequer tinha ainda começado - e sem mexer um dedo já tinha recebido das Tintas Barbot a oferta das tintas para pintar o edifício.
A Dra. Luísa Marques Rôla da Cifial - filha do Eng. Ludgero Marques, o fundador da empresa e durante muito tempo presidente da AIP, agora AEP - telefonou-me para me dizer que tudo o que fosse necessário para a obra e fosse produzido pela empresa, seria oferecido. Isso incluía torneiras, louças sanitárias, ferragens electrónicas (fechaduras, dobradiças), etc.
Através do F. C. Porto, que viria a revelar-se um dos maiores mecenas do Joãozinho, recebi a informação de que a Revigrés - durante muitos anos patrocinadora de publicidade nas camisolas do clube - ofereceria todos os pavimentos necessários ao edifício.
Aproveitei para ir visitar o Dr. Paulo Nunes de Almeida, presidente da Associação Empresarial de Portugal (AEP, antiga Associação Industrial Portuense) o qual, é claro, conhecia muito bem a obra do Joãozinho.
Ficou combinado que quando se iniciasse a fase de acabamentos - estaríamos na altura a mais de um ano de distância -, a AEP organizaria uma campanha de angariação de materiais para a obra - segundo as especificações da própria obra - junto das empresas suas associadas, que eram praticamente todas as empresas industriais do norte e também algumas de outras partes do país.
Naturalmente, classifiquei a reunião como "Excelente". Quando de lá saí estimei que, dos vinte milhões de euros que a obra custava, entre quatro a cinco milhões viriam através de contribuições em espécie - e a minha estimativa era conservadora.
É muito diferente o Porto. Permanece a cidade burguesa por excelência do país, cheia de barreiras à entrada, de que o rio Douro não é, nem de longe, a principal. Não é fácil entrar na vida do Porto mas, uma vez lá dentro, a vida torna-se incrivelmente fácil. No Porto, toda a gente se conhece. Se uma centena de pessoas se puserem de acordo acerca de uma certa obra, essa obra vai fazer-se de certeza.
São duas excelentes cidades, cada uma ao seu estilo. Mas eu hoje não trocaria o Porto por Lisboa porque não teria em Lisboa, nem de longe, a qualidade de vida que tenho no Porto. O clima é até melhor em Lisboa e a oferta cultural nem se compara. Mas, num dia normal, eu conduzo quarenta quilómetros no Porto e arredores e raramente perco um minuto em filas de trânsito.
Durante todo o ano, aos dias de semana, pela hora do almoço, poiso num bar de praia em Francelos, quinze quilómetros ao sul da cidade, onde vou fazer jogging no passadiço, sobre a areia e a vinte metros do mar. O espaço que serve de enfermaria de apoio aos banhistas é todo meu para eu me mudar, e tenho duche quente no Inverno. Não é raro sair dali perfeitamente engravatado para uma reunião de trabalho no Porto ou mesmo em Lisboa. Quando a minha mulher às vezes me pergunta por onde é que andei durante o dia, eu respondo: "Estive no paraíso".
Vivo na cidade, mas tenho praia a novecentos metros de casa. No Porto é raro ver um imigrante e os arredores do Porto não têm nada que ver, em termos de integração social e segurança, com os arredores de Lisboa. E, acima de tudo, existe uma pessoalidade no Porto que não se encontra em Lisboa. Há muitos anos que não saio de casa para comprar um fato ou uma camisa nem para levar o carro à revisão.
Por vezes, eu perdia muito tempo a explicar em Lisboa por que é que a obra do Joãozinho era viável no Porto, mas nunca seria viável em Lisboa. Creio que nem sempre as minhas explicações foram compreendidas. De resto, o Hospital de S. Maria tinha um Projecto equivalente ao Joãozinho - chamado Maria Raposa - que nunca levantou os pés do chão, ao passo que eu estava agora a poucos meses de começar a construção da nova ala pediátrica do Hospital de S. João.
Os trabalhos de construção estavam divididos técnica e economicamente em duas fases. A primeira - dita de estruturas -, tinha uma duração de nove meses e um custo aproximado de cinco milhões de euros. A segunda - chamada de acabamentos - durava quinze meses e tinha uma custo de cerca de quinze milhões de euros.
A fase de estruturas, no meu fraco entendimento de engenharia, correspondia à abertura dos caboucos da obra e à colocação das estruturas metálicas que iriam sustentar o edifício. A fase de acabamentos correspondia ao levantamento do edifício propriamente dito. Era nesta segunda fase, também a mais cara, que iriam ser necessários a maior parte dos materiais.
Eu estava ainda muito longe desta fase - a obra nem sequer tinha ainda começado - e sem mexer um dedo já tinha recebido das Tintas Barbot a oferta das tintas para pintar o edifício.
A Dra. Luísa Marques Rôla da Cifial - filha do Eng. Ludgero Marques, o fundador da empresa e durante muito tempo presidente da AIP, agora AEP - telefonou-me para me dizer que tudo o que fosse necessário para a obra e fosse produzido pela empresa, seria oferecido. Isso incluía torneiras, louças sanitárias, ferragens electrónicas (fechaduras, dobradiças), etc.
Através do F. C. Porto, que viria a revelar-se um dos maiores mecenas do Joãozinho, recebi a informação de que a Revigrés - durante muitos anos patrocinadora de publicidade nas camisolas do clube - ofereceria todos os pavimentos necessários ao edifício.
Aproveitei para ir visitar o Dr. Paulo Nunes de Almeida, presidente da Associação Empresarial de Portugal (AEP, antiga Associação Industrial Portuense) o qual, é claro, conhecia muito bem a obra do Joãozinho.
Ficou combinado que quando se iniciasse a fase de acabamentos - estaríamos na altura a mais de um ano de distância -, a AEP organizaria uma campanha de angariação de materiais para a obra - segundo as especificações da própria obra - junto das empresas suas associadas, que eram praticamente todas as empresas industriais do norte e também algumas de outras partes do país.
Naturalmente, classifiquei a reunião como "Excelente". Quando de lá saí estimei que, dos vinte milhões de euros que a obra custava, entre quatro a cinco milhões viriam através de contribuições em espécie - e a minha estimativa era conservadora.
Fundações
Por essa altura, para além da indústria farmacêutica, eu já tinha definido mais dois alvos para os meus esforços de angariação de mecenas - as fundações e outras instituições de solidariedade social, e as empresas industriais do norte do país, e era destas que me ocupava nos dias em que permanecia no Porto.
Para além da Fundação Manuel António da Mota que deu o primeiro impulso ao meu trabalho, a Gulbenkian foi a seguinte. O Dr. Artur Santos Silva, presidente da Fundação, era um homem do Porto e conhecia muito bem o Joãozinho. Recebeu-me na sede do BPI no Porto, de que era então presidente honorário.
Estar a falar com o presidente da Gulbenkian, ainda por cima na pessoa do Dr. Santos Silva, que eu conhecia há muito e por quem tinha grande admiração como banqueiro, era uma duplo prazer - triplo, por estar a falar de uma obra que produzia em mim um profundo entusiasmo.
Eu devia grande parte daquilo que sou à Gulbenkian. Era altura de lhe pedir mais uma contribuição, Não vale a pena, nem seria curial, estar aqui a descrever os detalhes de cada reunião. Não havia ninguém que dissesse que não a uma obra destas e, dada a sua dimensão, era quase obrigatório a Gulbenkian estar presente. Nas notas que depois escrevi, a última linha resume tudo: "É praticamente certo que a Gulbenkian vai contribuir". Avaliação global da reunião: "Muito boa".
Seguiu-se a Fundação Champalimaud, a Santa Casa da Misericórdia do Porto, a Fundação Axa e, mais tarde, a Fundação Millenium-BCP, entre outras, como a Fundação Vítor Baía que desde o início acompanhava o Joãozinho.
O Presidente da Fundação Millenium-BCP era o Dr. Fernando Nogueira, também um antigo ministro do Professor Cavaco Silva por quem eu nutria muita estima. Há anos que não o via, mas tinha-o encontrado recentemente no Hospital de S. João, na inauguração da Casa Ronald McDonald, que a Fundação patrocinava.
Tempos depois recebeu-me na sede da Fundação, na Rua do Ouro, em Lisboa. Foi uma oportunidade para pormos a conversa em dia. O Dr. Fernando Nogueira foi o homem que mais perto me levou da política partidária. Olhando para trás, foi a única altura em que verdadeiramente estive sobre o risco vermelho.
O Professor Cavaco Silva tinha abandonado a direcção do PSD e tinha sido substituído pelo Dr. Fernando Nogueira, que disputava as próximas eleições com o Eng. António Guterres. Um dia telefonou-me a convidar-me para almoçar num hotel da Lapa. Queria que eu me juntasse a ele na campanha. Fiquei com a nítida sensação que, se ganhasse, eu seria o próximo ministro das Finanças.
Pedi-lhe uns dias para responder. Respondi que não. Eu não conseguia ver-me envolvido na vida partidária. Não duraria três meses no cargo. Ele próprio, meses depois, abandonaria a vida política e partidária para não mais voltar.
Quanto ao Projecto Joãozinho, claro que a Fundação Millenium-BCP iria contribuir, mas não já este ano (2014) por que o orçamento estava totalmente alocado. Iria incluir uma verba no orçamento para 2015. Disse-lhe que também não precisava de dinheiro em 2014 porque a obra não seria iniciada este ano, só no próximo.
Em Março de 2015, a Associação Joãozinho recebia a primeira contribuição da Fundação Millenium-BCP no valor de oito mil euros.
Para além da Fundação Manuel António da Mota que deu o primeiro impulso ao meu trabalho, a Gulbenkian foi a seguinte. O Dr. Artur Santos Silva, presidente da Fundação, era um homem do Porto e conhecia muito bem o Joãozinho. Recebeu-me na sede do BPI no Porto, de que era então presidente honorário.
Estar a falar com o presidente da Gulbenkian, ainda por cima na pessoa do Dr. Santos Silva, que eu conhecia há muito e por quem tinha grande admiração como banqueiro, era uma duplo prazer - triplo, por estar a falar de uma obra que produzia em mim um profundo entusiasmo.
Eu devia grande parte daquilo que sou à Gulbenkian. Era altura de lhe pedir mais uma contribuição, Não vale a pena, nem seria curial, estar aqui a descrever os detalhes de cada reunião. Não havia ninguém que dissesse que não a uma obra destas e, dada a sua dimensão, era quase obrigatório a Gulbenkian estar presente. Nas notas que depois escrevi, a última linha resume tudo: "É praticamente certo que a Gulbenkian vai contribuir". Avaliação global da reunião: "Muito boa".
Seguiu-se a Fundação Champalimaud, a Santa Casa da Misericórdia do Porto, a Fundação Axa e, mais tarde, a Fundação Millenium-BCP, entre outras, como a Fundação Vítor Baía que desde o início acompanhava o Joãozinho.
O Presidente da Fundação Millenium-BCP era o Dr. Fernando Nogueira, também um antigo ministro do Professor Cavaco Silva por quem eu nutria muita estima. Há anos que não o via, mas tinha-o encontrado recentemente no Hospital de S. João, na inauguração da Casa Ronald McDonald, que a Fundação patrocinava.
Tempos depois recebeu-me na sede da Fundação, na Rua do Ouro, em Lisboa. Foi uma oportunidade para pormos a conversa em dia. O Dr. Fernando Nogueira foi o homem que mais perto me levou da política partidária. Olhando para trás, foi a única altura em que verdadeiramente estive sobre o risco vermelho.
O Professor Cavaco Silva tinha abandonado a direcção do PSD e tinha sido substituído pelo Dr. Fernando Nogueira, que disputava as próximas eleições com o Eng. António Guterres. Um dia telefonou-me a convidar-me para almoçar num hotel da Lapa. Queria que eu me juntasse a ele na campanha. Fiquei com a nítida sensação que, se ganhasse, eu seria o próximo ministro das Finanças.
Pedi-lhe uns dias para responder. Respondi que não. Eu não conseguia ver-me envolvido na vida partidária. Não duraria três meses no cargo. Ele próprio, meses depois, abandonaria a vida política e partidária para não mais voltar.
Quanto ao Projecto Joãozinho, claro que a Fundação Millenium-BCP iria contribuir, mas não já este ano (2014) por que o orçamento estava totalmente alocado. Iria incluir uma verba no orçamento para 2015. Disse-lhe que também não precisava de dinheiro em 2014 porque a obra não seria iniciada este ano, só no próximo.
Em Março de 2015, a Associação Joãozinho recebia a primeira contribuição da Fundação Millenium-BCP no valor de oito mil euros.
22 agosto 2017
o burro do Castro
Eu há dias recomendei ao Toni que vá criminalizar a prima dele, embora jamais me possa ocorrer recomendar à Cati que faça o mesmo ao primo dela.
Depreciar o Toni é uma liberdade que me assiste a mim em relação a ele, mas também a ele em relação a mim. Cristo também depreciou, e fê-lo sempre com razão. É a primeira defesa do diabo que, na ética cristã, existe contra os abusos. A outra - a mais radical de todas - só é aceitável como resposta.
Agora, um de nós pôr o outro discricionariamente na prisão - ou andar a brincar à Justiça usando-me a mim como peão - é que é uma liberdade que só assiste ao Toni, e não a mim. Pelo que, enquanto os pratos desta balança não estiverem equilibrados, a história vai continuar.
E é precisamente sobre a moral da história que eu gostaria de falar neste post - tanto mais que ela tem vindo entrecortada por outra história -, dirigindo-me aos leitores mais distraídos e que tenham perdido o significado essencial dos últimos capítulos.
É uma história de igualdade - esta entre o Peter Throw e o burro Castro -, e uma história de igualdade que começa nest post - curiosamente o post mais lido na semana terminada hoje. Muitos leitores do Portugal Contemporâneo terão pressentido - e pressentiram bem - que este era um momento definidor da história.
Sentindo que Peter Throw tem uma amiga à sua espera em Cancun, uma espera que o faz feliz, Castro - o burro - fica ressentido, e recusa-se a andar. Peter descobre de imediato a igualdade fundamental que existe entre ele e o burro, e acena-lhe com uma burra. Mas só o consegue demover quando lhe promete uma burra especial, uma burra diferente - uma burra mirandesa. Mesmo pondo em risco a sua segurança pessoal, a promessa cumpre-se.
Não existe cultura mais igualitária do que a cultura católica, uma cultura onde um homem até é capaz de reconhecer a sua igualdade fundamental com um burro. A afirmação pode parecer surpreendente porque o sentimento moderno de igualdade, expresso no movimento ideológico do socialismo, provém dos países protestantes do norte da Europa.
Todos os fundadores do socialismo, seja na sua forma mais radical - o comunismo - seja na sua forma moderada - o socialismo democrático ou social-democracia - são prussianos e provêm da cultura luterana da Prússia - Kant, Hegel, Marx, Bebel, Lassalle, etc., até o próprio Lutero.
Para além da Prússia, esta cultura luterana e socialista está hoje expressa na sua forma mais genuína nos países nórdicos - Suécia, Dinamarca, Noruega, Finlândia - já que a Alemanha ficou para sempre dividida com o catolicismo ao sul. É esta cultura que nos últimos quarenta anos tem feito grandes avanços em Portugal.
É importante dizer, porém, que este apelo à igualdade que vem dos povos do norte da Europa é um apelo a uma igualdade superficial e aparente, e é o mesmo apelo igualitário que vem do judaísmo que, de resto, influenciou fortemente o protestantismo luterano. Eles apelam à igualdade porque se sentem radicalmente diferentes dos outros povos - e, naturalmente, superiores.
Nunca o socialismo poderia ter tido origem na cultura católica, que é a cultura cristã de verdadeira igualdade. Nesta, o apelo é à diferenciação - que se exprime na ideia de personalidade e na doutrina do personalismo católico. Só pessoas que se sentem radicalmente iguais podem aspirar - às vezes tão desesperadamente - a ser diferentes.
Esta diferença entre o igualitarismo genuíno da cultura católica e o igualitarismo meramente aparente da cultura protestante e socialista pode exprimir-se, na forma mais breve que conheço, num episódio concreto passado há poucos anos na Suécia. A fonte é credível porque é um filho meu.
Um grupo de jovens médicos portugueses foi à Suécia para um congresso. No final, os seus colegas suecos organizaram uma party com o aviso byob (bring your own bottle). Durante a festa, no meio da conversa e da alegria, um português deitou a mão a uma garrafa que estava sobre a mesa e serviu-se. Logo veio um sueco aflito dizer-lhe para não fazer aquilo porque aquela garrafa era de um outro (sueco).
O português ficou embarassado - nem podia acreditar. Passadas semanas, foi a vez dos suecos virem a Portugal. Ficaram muito admirados quando notaram que as garrafas que estavam na mesa podiam ser livremente consumidas por todos.
É neste profundo sentido de comunidade que se exprime o sentimento de igualdade fundamental da cultura católica. Pois se aquele que tem dinheiro para comprar uma garrafa e a levar para a festa gosta de beber, aquele que não tem - mas que está ali à volta da mesa - também há-de gostar.
Era isto que era incompreensível para os suecos. Eles serão até capazes de formar um partido político pela igualdade de beber, exigindo do Estado que dê dinheiro a todos para que todos possam beber. Dar da garrafa deles, é que não. É privativa. A igualdade deles é só da boca para fora, não da boca para dentro.
Os personagens do Peter Throw e do burro Castro ganham facilmente realidade no seio da cultura católica. São absolutamente inimagináveis na cultura do protestantismo luterano e do socialismo. Em primeiro lugar, porque eles lá já acabaram com os burros. Em segundo lugar, porque o burro do Castro, e outros burros como o Castro, há muito que acabaram também com os Peter Throws.
E com as touradas.
Depreciar o Toni é uma liberdade que me assiste a mim em relação a ele, mas também a ele em relação a mim. Cristo também depreciou, e fê-lo sempre com razão. É a primeira defesa do diabo que, na ética cristã, existe contra os abusos. A outra - a mais radical de todas - só é aceitável como resposta.
Agora, um de nós pôr o outro discricionariamente na prisão - ou andar a brincar à Justiça usando-me a mim como peão - é que é uma liberdade que só assiste ao Toni, e não a mim. Pelo que, enquanto os pratos desta balança não estiverem equilibrados, a história vai continuar.
E é precisamente sobre a moral da história que eu gostaria de falar neste post - tanto mais que ela tem vindo entrecortada por outra história -, dirigindo-me aos leitores mais distraídos e que tenham perdido o significado essencial dos últimos capítulos.
É uma história de igualdade - esta entre o Peter Throw e o burro Castro -, e uma história de igualdade que começa nest post - curiosamente o post mais lido na semana terminada hoje. Muitos leitores do Portugal Contemporâneo terão pressentido - e pressentiram bem - que este era um momento definidor da história.
Sentindo que Peter Throw tem uma amiga à sua espera em Cancun, uma espera que o faz feliz, Castro - o burro - fica ressentido, e recusa-se a andar. Peter descobre de imediato a igualdade fundamental que existe entre ele e o burro, e acena-lhe com uma burra. Mas só o consegue demover quando lhe promete uma burra especial, uma burra diferente - uma burra mirandesa. Mesmo pondo em risco a sua segurança pessoal, a promessa cumpre-se.
Não existe cultura mais igualitária do que a cultura católica, uma cultura onde um homem até é capaz de reconhecer a sua igualdade fundamental com um burro. A afirmação pode parecer surpreendente porque o sentimento moderno de igualdade, expresso no movimento ideológico do socialismo, provém dos países protestantes do norte da Europa.
Todos os fundadores do socialismo, seja na sua forma mais radical - o comunismo - seja na sua forma moderada - o socialismo democrático ou social-democracia - são prussianos e provêm da cultura luterana da Prússia - Kant, Hegel, Marx, Bebel, Lassalle, etc., até o próprio Lutero.
Para além da Prússia, esta cultura luterana e socialista está hoje expressa na sua forma mais genuína nos países nórdicos - Suécia, Dinamarca, Noruega, Finlândia - já que a Alemanha ficou para sempre dividida com o catolicismo ao sul. É esta cultura que nos últimos quarenta anos tem feito grandes avanços em Portugal.
É importante dizer, porém, que este apelo à igualdade que vem dos povos do norte da Europa é um apelo a uma igualdade superficial e aparente, e é o mesmo apelo igualitário que vem do judaísmo que, de resto, influenciou fortemente o protestantismo luterano. Eles apelam à igualdade porque se sentem radicalmente diferentes dos outros povos - e, naturalmente, superiores.
Nunca o socialismo poderia ter tido origem na cultura católica, que é a cultura cristã de verdadeira igualdade. Nesta, o apelo é à diferenciação - que se exprime na ideia de personalidade e na doutrina do personalismo católico. Só pessoas que se sentem radicalmente iguais podem aspirar - às vezes tão desesperadamente - a ser diferentes.
Esta diferença entre o igualitarismo genuíno da cultura católica e o igualitarismo meramente aparente da cultura protestante e socialista pode exprimir-se, na forma mais breve que conheço, num episódio concreto passado há poucos anos na Suécia. A fonte é credível porque é um filho meu.
Um grupo de jovens médicos portugueses foi à Suécia para um congresso. No final, os seus colegas suecos organizaram uma party com o aviso byob (bring your own bottle). Durante a festa, no meio da conversa e da alegria, um português deitou a mão a uma garrafa que estava sobre a mesa e serviu-se. Logo veio um sueco aflito dizer-lhe para não fazer aquilo porque aquela garrafa era de um outro (sueco).
O português ficou embarassado - nem podia acreditar. Passadas semanas, foi a vez dos suecos virem a Portugal. Ficaram muito admirados quando notaram que as garrafas que estavam na mesa podiam ser livremente consumidas por todos.
É neste profundo sentido de comunidade que se exprime o sentimento de igualdade fundamental da cultura católica. Pois se aquele que tem dinheiro para comprar uma garrafa e a levar para a festa gosta de beber, aquele que não tem - mas que está ali à volta da mesa - também há-de gostar.
Era isto que era incompreensível para os suecos. Eles serão até capazes de formar um partido político pela igualdade de beber, exigindo do Estado que dê dinheiro a todos para que todos possam beber. Dar da garrafa deles, é que não. É privativa. A igualdade deles é só da boca para fora, não da boca para dentro.
Os personagens do Peter Throw e do burro Castro ganham facilmente realidade no seio da cultura católica. São absolutamente inimagináveis na cultura do protestantismo luterano e do socialismo. Em primeiro lugar, porque eles lá já acabaram com os burros. Em segundo lugar, porque o burro do Castro, e outros burros como o Castro, há muito que acabaram também com os Peter Throws.
E com as touradas.
Subscrever:
Mensagens (Atom)