31 março 2017

franciscanos e clarissas

A história do franciscanismo ilustra várias coisas, e eu gostaria agora de ilustrar outra. Não sem primeiro lembrar que muitos séculos antes de  Marx ter nascido já a Igreja sabia o que era o comunismo e lidava com ele. E mais, sabia como os fraticelli, por outras palavras, os comunistas - a versão herética do franciscanismo - tratavam as mulheres.

Estamos de volta a Francisco e a Clara. As Clarissas são chamadas a Segunda Ordem de S. Francisco porque pretendem replicar para as mulheres o voto de pobreza absoluta que S. Francisco instituiu para os homens.

A Igreja aceitou com facilidade o voto de pobreza absoluta para os franciscanos, mas a sua aceitação do voto de pobreza absoluta para as clarissas foi bastante mais difícil, e não sem que antes outros arranjos tivessem sido estabelecidos e postos em prática.

Os franciscanos eram frades mendicantes que se propunham viver na mais completa pobreza, vivendo daquilo que lhes davam. E, na linguagem impressiva do seu biógrafo Chesterton, quando Francisco pedia algo para comer, não pedia o melhor bocado de pão que tivessem para lhe dar, pedia o pior. E quando pedia algo para se cobrir, não era a melhor peça de vestuário que tivessem para lhe oferecer, mas o pior pano que lhe pudessem dar.

Era assim, mendigando na rua que os primeiros franciscanos se sustentavam e sobreviviam. A Igreja não teve dificuldade em aceitar o seu voto de pobreza absoluta.

Mas, quanto às clarissas  - mulheres a pedir na rua, ainda por cima, como era o caso de Clara, mulheres bonitas a pedir na rua...?

Não, nem pensar. Isso não podia ser. Está-se mesmo a ver no que é que isso ia dar.

Os fraticelli, na sua oposição radical à propriedade privada e no seu igualitarismo recusavam até possuir os conventos onde habitavam, quanto mais sustentar as clarissas. Em linguagem moderna, eram uns irresponsáveis que não assumiam sequer a responsabilidade pelas suas próprias casas. E, quanto às mulheres, elas eram iguais aos homens e, portanto, que fossem para a rua mendigar como eles.

Durante um período, Roma ainda chamou a si a responsabilidade pelos conventos franciscanos e pelas clarissas. Mas, com o tempo, tudo acabou por se esclarecer.

Foi assim:

Os fraticelli foram declarados heréticos. Os conventos foram devolvidos aos franciscanos. E uma bula papal declarou ser obrigação dos franciscanos sustentar as clarissas.

É obrigação dos homens sustentar as mulheres (excepto quando elas possam sustentar-se a si próprias) - é a lição a tirar.

Uma lição verdadeira e tão clara como o nome da santa - e que eu, já passados tantos séculos, não me cansaria de repetir aos quatro ventos.

Clara e Francisco

É numa linha finíssima como aquela que existe entre o homem que se realiza plenamente abdicando voluntariamente de toda a propriedade privada e aquele  que pretende impor a abolição da propriedade privada a todos os outros que são traçadas as fronteiras da civilização

E é nessa linha finíssima - a de uma mundo com propriedade privada e um outro mundo sem ela -, que é a linha divisória entre a ordem e o caos, entre a paz e a violência, entre a civilização e a barbárie, que a Igreja está sempre presente.

Encontramo-la em muitas outras situações, e aquela que imediatamente me ocorre inspira-se em notícias vindas recentemente a público na comunicação social portuguesa acerca da qual a posição da Igreja é: homossexuais sim, relações homossexuais não (Catecismo: 2357-9).

A melhor descrição curta que conheço do amor entre Francisco e Clara é esta. A fonte é também credível porque o autor, Leonardo Boff, é, ele próprio, um fraticelli - um ex-frade e teólogo franciscano.

É claro que a curiosidade popular há muito que especula sobre a natureza desta relação, e eu gostaria de perder uns segundos com ela.

Não, não houve sexo. Conheceram-se ela tinha 18 anos e ele 29. Ela era de uma beleza deslumbrante. Mas é seguro que ela fugiu de casa virgem para os braços de Francisco e morreu virgem.

Porquê?

Porque, se tivesse havido sexo, ambos tinham regressado ao mundo de onde haviam decidido sair. Como não regressaram é porque não houve sexo.

E teriam tido uma excelente vida nesse mundo, ele vinha de uma família abastada, e a família dela era rica e nobre. Mas ainda assim tinha sido, para ambos,  uma vida vulgar. Ora, vulgares é que este homem e esta mulher não eram.

Pelo contrário, tratava-se de duas personalidades absolutamente fora do vulgar que tinham em comum a mesma inspiração na figura que mais encorajou, em toda a história da humanidade, um homem ou uma mulher a realizarem plenamente a sua personalidade, independentemente do que os outros pensassem acerca deles - Cristo.

A questão que pretendo aqui tratar é, porém, a seguinte:

Por que é que Clara moderou Francisco, como é que ela impediu que ele próprio se tornasse um fraticelli, um adepto de uma causa que, na altura como hoje, é uma causa extremamente fracturante - a abolição da propriedade privada?

Por causa do grande amor que ele tinha por ela.

Ela pertencia a uma família muito rica e, embora a família não estivesse  em bons termos com ela, ela nunca aceitaria que a família sofresse por causa dela. E era isso que teria acontecido se os fraticelli tivessem prevalecido.

Francisco sabia que Clara nunca aprovaria a abolição da propriedade privada. Por isso, nunca deu esse passo.


Clara de Assis

Chesterton é o autor de uma biografia de S. Francisco de Assis, um biografia colorida, como é próprio dele.

Terá sido o interesse em descortinar as origens intelectuais do comunismo que levou Chesterton à figura de S. Francisco. Mais tarde, viria a declarar que o comunismo é o franciscanismo sem a acção moderadora da Igreja.

O que é que a Igreja moderou no franciscanismo?

Um homem nascido numa família rica e que, depois de uma alegada visão que o impelia a reparar as paredes de uma igreja, decide renunciar a tudo, rasgar as vestes e atirá-las ao pai, e levar uma vida de extrema pobreza e de original extravagância, tem todas as condições para se tornar um extremista radical.

Não aconteceu. Mas ainda durante a sua vida, uma facção emergiu entre os frades franciscanos disposta a levar o franciscanismo ao extremo, e que mereceu a pronta oposição do próprio Francisco. Ficaram conhecidos por fraticelli e viriam a dar um imenso trabalho à Igreja Católica.

Uma coisa é um homem renunciar voluntariamente a toda a propriedade privada e levar uma vida de obstinada miséria considerando que, ao fazer assim, está a imitar a vida de Cristo. Outra coisa - que está a um pequeno passo da anterior -, é considerar que essa renúncia  a toda a propriedade privada é o que Deus quis para todos os homens, e tornar-se um proponente e um lutador radical pela abolição da propriedade privada.

Foi este passo que os fraticelli deram, mas que Francisco nunca deu.

Quem moderou Francisco?

Uma mulher por quem ele tinha um grande amor - Clara de Assis.

Quem moderou os franciscanos?

Outra mulher, Maria - a figura da Igreja.

Por que é que os comunistas (e os fraticelli antes deles) deram o passo que Francisco e a Igreja Católica se recusaram a dar?

Não havia mulher a inspirá-los.

29 março 2017

Oh Nené...

Eu imagino o filósofo alemão Immanuel Kant a escrever aquela sua obra e a ter uma mulher (que, na realidade, nunca teve), Imagino-os depois a caminharem juntos ao fim da tarde em Konisberga. É natural que ele falasse sobre o que estava a escrever e, ela, nos tempos livres, fosse dando uma leitura aos textos dele.

O que eu estou certo também é que numa dessas caminhadas, quando ele perguntasse o que ela achava da "obra",  um dia ela lhe responderia:

-Oh Nené...mas se nem eu compreendo aquilo que tu andas para aí a escrever ... como é que queres que as outras pessoas compreendam?...

Imagino também o Rosseau, no mesmo setting, a escrever o seu tratado de educação (Émile). Qual seria a reacção da mulher (que ele teve, mas com quem nunca viveu; e de quem teve cinco filhos, que abandonou) numa dessas caminhadas a dois, em que ele lhe perguntasse o que ela pensava sobre a sua "obra".

-Olha... se sabes tão bem educar crianças... não percebo por que é que não educaste os teus filhos...

Eu, que tenho mulher, tenho sentido na pele a dureza de comentários como estes, que o Descartes, o Kant, o David Hume, o Adam Smith, o Nietzsche e a generalidade dos filósofos modernos nunca sentiram, ou porque não tinham mulher ou porque a relação com as suas mulheres acabou - como não podia deixar de ser - por se tornar uma relação muito distante. Como foi o caso do Marx, que deve ter ouvido como ninguém:

-Andas para aí a pregar contra o capitalismo...e não tens dinheiro para dar de comer aos teus filhos...

-Andas para aí a defender o proletariado...e não pagas à empregada doméstica que tens em casa...  

Até eu, que sou um santinho ao pé do Marx, que sempre arranjei dinheiro para dar de comer aos filhos e pagar à empregada doméstica, não me canso de ouvir comentários destes que são devastadores para o entusiasmo de um homem pela sua "obra" intelectual.

Cada vez que vou à televisão, então, rezo para que a minha mulher não esteja a ver. De uma das últimas vezes não resultou. Ainda entrei em casa a tentar disfarçar a conversa:

-O que é o jantar?...

Mas ela olhou para mim com um ar consternado, encolheu os ombros, e disse-me:

-Casei-me com um homem racional ... e agora estou casada com um místico...

28 março 2017

o método cardinalício

Tem demorado, é lento, mas acabaremos por lá chegar: o método cardinalício.

Também aqui no Jornal Oficial.

Se a Igreja não possuísse o melhor sistema político que a humanidade pode conceber e praticar, há muito que tinha desaparecido.

É um sistema político que inclui tudo - democracia, autoridade, lei, assistência aos pobres... -, mas tudo com moderação.

Quando se vira as costas à Igreja, é o exagero em tudo - seja por excesso seja por defeito.

E o desgoverno.

27 março 2017

O Kant ia sozinho

Desde há mais de trinta anos que eu tenho um hábito parecido com o do Kant.

Sim, com o do Kant. Custa-me imenso admiti-lo e ainda mais escrever sobre o assunto.

Mas a revelação é tão importante para os argumentos que a seguir tenho para desenvolver, que me rendi à necessidade.

É o seguinte:

Desde há mais de trinta anos que, a seguir ao jantar, faço uma caminhada que tem sempre o mesmo percurso. São cerca de três quilómetros e meio, que me demoram cerca de 45 minutos a percorrer. Todos os dias, qualquer que seja o estado do tempo.

Pelas minhas contas, só nestas caminhadas nocturnas, já andei quase quarenta mil quilómetros, que é a distância de uma volta à Terra em torno do Equador.

O Kant também tinha uma hábito semelhante. Mas existem, pelo menos três, diferenças.

A primeira é que ele caminhava ao fim da tarde e eu caminho à noite.

A segunda é que as pessoas acertavam os relógios à passagem dele, e não o fazem à minha.

A terceira é a mais difícil de explicar. E é a mais decisiva de todas. É uma diferença que, estou certo, fez de mim um homem radicalmente diferente do Kant, a despeito da igualdade do hábito..

Hesito em expô-la, com medo das consequências e por não estar certo de ter ainda apreendido o seu pleno significado.

Mas, enfim, lá vai. É o que tem de ser.

A terceira diferença é a seguinte:

O Kant ia sozinho e eu vou com a minha mulher.


capitalismo

O Hayek foi um dos maiores intelectuais do capitalismo durante o último século. Infelizmente, como ele próprio admitiu, morreu sem saber quem criou os valores (propriedade privada, contrato, etc.) que tornaram o capitalismo possível.

Eu não quero morrer como o Hayek. E já cheguei à resposta. Foi Deus. E esses valores foram sempre cultivados pela Igreja Católica, com algumas excepções que são referidas adiante.

Quanto à questão que o rui a. levanta aqui, que é a de saber se a Igreja aceita ou não o capitalismo, a resposta é mais óbvia porque está no Catecismo (art. 2425) - é Sim com reservas:

2425. A Igreja rejeitou as ideologias totalitárias e ateias, associadas, nos tempos modernos, ao «comunismo» ou ao «socialismo». Por outro lado, recusou, na prática do «capitalismo», o individualismo e o primado absoluto da lei do mercado sobre o trabalho humano (167). Regular a economia só pela planificação centralizada perverte a base dos laços sociais: regulá-la só pela lei do mercado é faltar à justiça social, «porque há numerosas necessidades humanas que não podem ser satisfeitas pelo mercado» (168). É necessário preconizar uma regulação racional do mercado e das iniciativas económicas, segundo uma justa hierarquia dos valores e tendo em vista o bem comum.

As reservas são compreensíveis. A primeira diz respeito ao individualismo (calvinista) que subjaz ao capitalismo. A Igreja defende uma visão comunitária da sociedade, correspondendo aos apelos de Cristo de que somos todos irmãos, todos filhos do mesmo Pai. Não pode, portanto, subscrever o individualismo ("cada um por si") que destrói a comunidade.

Quanto às regras do mercado. A Igreja não pode subscrever que sejam leis (de mercado ou jurídicas) a governar a sociedade. A ideia de uma sociedade governada por leis - seja o Estado de Direito dos socialistas sejam as leis de mercado capitalistas - é judaísmo puro, que o protestantismo imitou.

Acima das leis, o Cristianismo veio pôr as pessoas, na figura paradigmática de Cristo. As leis estão ao serviço das pessoas, e não o inverso. São pessoas, e não as leis, que devem constituir a autoridade suprema de uma sociedade humana.

A propósito, uma observação. Já se vê no elenco de afastamentos em relação à doutrina católica introduzidos pelo 25 de Abril, que eu vinha a fazer, que uma das razões para a situação actual em que Portugal se encontra foi a substituição da autoridade pessoalizada que era típica do Estado Novo por essa concepção abstracta e destruidora que é  o "Estado de Direito Democrático" .

Eu sei que os juristas detestam ouvir isto. Mas tem de ser porque é  a Verdade.

26 março 2017

mais importante

Portugal está falido, não por excesso de catolicismo, mas por falta dele. Portugal está falido porque se afastou do catolicismo. Foi isto que afirmei no post anterior e que agora desejo ampliar.

Portugal vinha a crescer enormemente antes do 25 de Abril - na realidade, fê-lo em todo o período do Estado Novo, sem comparação com qualquer outro país da Europa Ocidental. Foi um período de enorme progresso económico e social, que não encontra paralelo em qualquer período da história do país desde que há registos estatísticos.

No dia 25 de Abril de 1974 a Igreja Católica não mudou. Quem mudou foi Portugal.

E como é que Portugal mudou em relação à Igreja Católica?

Afastando-se dela e da sua doutrina.

Como?

É preciso começar por aquilo que é mais importante, antes de tratar outros aspectos menos importantes - e é esse o propósito deste post.

E aquilo que é mais importante é a família.

A doutrina da Igreja estabelece uma hierarquia de instituições, primeiro a família, depois a empresa e só em último lugar o Estado (que é, portanto, subsidiário), correspondente a uma hierarquia nos processos de afectação dos recursos: primeiro a dádiva, depois o interesse pessoal, em último lugar o poder político.

Ora, com a Revolução de 25 de Abril iniciou-se um processo que inverteu esta hierarquia, a qual passou  ser Estado em primeiro lugar, empresa em segundo e só em último lugar a família.

A destruição maciça da família que se tem operado nas últimas décadas - e que pode ser testemunhada pela evolução das taxas de nupcialidade, de divórcio e de fertilidade no país, para já não falar dessas coisas esotéricas como o casamento homossexual ou a adopção por casais do mesmo sexo - é o principal afastamento de Portugal em relação à doutrina católica e o principal factor responsável por Portugal se encontrar falido.

Pois se os portugueses, cada vez menos, conseguem governar uma família como esperam eles poder governar o Estado?

Afinal

Afinal parece que há mesmo uma divisão profunda, de que ninguém se atreve a falar...

Gostaria de destacar três pontos:

O primeiro é o de que finalmente se começa a reconhecer que a razão das dificuldades dos países do sul em relação com os países do norte no seio da União Europeia assenta na cultura - e toda a cultura tem uma base religiosa.

A segunda é a de que o Vasco Pulido Valente usa clichés acerca da Igreja católica que são falsos e baseados em aparência, como aquele de que a cultura católica favorece um Estado absorvente. Ora, aquilo que a Igreja Católica defende é um Estado subsidiário (cf. Catecismo: 1883-5)), que é exactamente o oposto do Estado absorvente.

Finalmente, e mais importante. As dificuldades de Portugal, agora como em outros períodos da sua história desde 1820 - a única excepção é o período do Estado Novo - não derivam de ele ser católico. Derivam de ele se ter afastado do catolicismo.

Vale a pena insistir neste ponto. É que o VPV, com aqueles seus clichés herdados da geração de 70 que ele tanto cultiva, ainda acabará a dizer - ele ou outro por ele - que Portugal está falido por causa da Igreja Católica.   

Quando a verdade é exactamente ao contrário. Portugal está falido porque se afastou dos princípios da doutrina católica. Portugal está falido por falta de catolicismo, não por excesso dele.

25 março 2017

num país católico

Nascer num país católico é nascer numa família em que o pai é extremamente austero e a mãe extremamente permissiva.

Catolicismo é isto - a convivência entre os opostos e a constante procura de um equilíbrio entre eles.

Os filhos, alguns saem mais à mãe e outros mais ao pai, e até há aqueles que saem ao meio, reflectindo o equilíbrio perfeito entre os pais.

Quanto à família, quem a observa de fora, tão depressa  diz que é o resultado da educação que a mãe lhe deu, como a que lhe foi dada pelo pai, como ainda a de ambos.

É por isto que o catolicismo engana, tão depressa é uma coisa, como no momento seguinte é capaz de ser outra. E, sobretudo, pode a todo o momento parecer aquilo que não é.

Uma cultura universal, com todas as diferenças que existem no mundo, não podia ser senão assim.

o catolicismo engana

Um homem que chegue de Marte e se feche num quarto a ler a doutrina católica, tal como se expressa no Catecismo, e a quem depois se pergunta qual é a figura central do cristianismo - um homem ou uma mulher -, vai responder:

-Um homem.

Porém, quando sair à rua, e vir as manifestações populares do catolicismo, vai concluir que se enganou.

-Afinal... é uma mulher.

Ou ainda: quem olhar para a hierarquia católica, feita só de homens, vai concluir que o catolicismo é uma religião (e uma cultura) predominantemente de homens.

Erro. É uma religião (e cultura) predominantemente de mulheres porque aqueles homens estão lá todos para servir uma mulher.

Por que é que o catolicismo engana, por que é que a aparência nunca é coincidente com a realidade, por que é que uma e outra são frequentemente opostas?

No seu artigo de hoje no Observador o Padre Portocarrero de Almada refere vários episódios deste mistério.

Claro que precisam

Se as mulheres precisam de ser protegidas?

Claro que precisam.

E os homens ainda mais.

De quê?

Da sua inabilidade para viver.

O ênfase na qualidade de vida, tão apreciada nos países do sul da Europa e às vezes tão ressentida nos países do norte, é um dos resultados desta intervenção feminina.

23 março 2017

num dia em que me roubaram a carteira

Foi há cerca de sete anos. Uma das minhas filhas fazia 25 anos e a família restrita reuniu-se num jantar para celebrar.

Foi ela que tomou a iniciativa da conversa dizendo que na véspera tinha estado a jantar com um amigo.

Por curiosidade, perguntei:

-E quem pagou o jantar?

-Pagámos a meias...

-A meias!?...

Ela abriu os olhos com  espanto e respondeu:

-Sim ... a meias...

Nessa altura, eu disse:

-Olha... esse rapaz pode ser muito teu amigo... mas não serve para teu marido...

O espanto dela era agora ainda maior.

Mas eu expliquei:

-É que para poder ser teu marido devia ter pago o jantar e ainda por cima agradecer a tua companhia...

Ela já sorria de incredulidade e os olhos abriam-se mais, à volta era o silêncio.

E eu perguntei-lhe:

-Já viste a tua mãe alguma vez pagar um jantar?

Ela nunca tinha visto.

(Mas de então para cá já aconteceu. Foi há cerca de dois anos, num dia em que me roubaram a carteira.)

13 de Maio

No dia 13 de Maio mais de um milhão de pessoas vão a Fátima gastar dinheiro com uma mulher.

Simbolicamente, é esta a diferença entre os países do sul da Europa e os países do norte da Europa sujeitos à influência protestante. Nestes, nunca se encontrará semelhante homenagem à figura da mulher.

É desta diferença que resultam todas as dificuldades por que está a passar a União Europeia.

Só o pensamento católico começa por perguntar-se o que é um homem e o que é uma mulher, e como se relacionam entre si. As ideologias protestantes - liberalismo e socialismo - assumem que homem e mulher são iguais e procedem como se isso fosse verdade. É um erro fatal.

22 março 2017

da desfeminilização das mulheres

O protestantismo foi, em primeiro lugar, um violentíssimo ataque ao estatuto da mulher na sociedade. Só os países que permaneceram católicos, e não obstante as ofensivas protestantes, é que conseguiram guardar esse estatuto da mulher.

Perguntar-se-á, mas o protestantismo não foi, em primeiro lugar, um ataque à Igreja Católica? Claro que foi, mas o que é a Igreja Católica senão, ela própria,  uma mulher (Maria)?

Das duas principais correntes que saíram do protestantismo - o luteranismo e o calvinismo - a primeira é muito mais anti-mulher do que a segunda. E assim se passa, por consequência,  com as duas ideologias que saíram, respectivamente, de uma e de outra - o socialismo é muito mais anti-mulher do que o capitalismo.

Nós estamos a passar actualmente em Portugal, sob o impulso de partidos socialistas radicais a influenciar o Governo, uma fase anti-mulher que só encontra paralelo no período da Primeira República, também ele dado a radicalismos socialistas.

A novidade é que, no Parlamento, esse movimento anti-mulher é hoje conduzido, em grande parte, por mulheres - mulheres que são o exemplo acabado da desfeminilização das mulheres.

O gado era outro

É claro que o ministro Dijsselbloem tocou no ponto fulcral. O que faz a diferença entre os países do norte da Europa e os países do sul, entre os países de cultura predominantemente protestante e os países de cultura predominantemente católica (ou ortodoxa, como a Grécia), são as mulheres.

Foi por não ter sido atendida esta diferença que os países do norte têm hoje superavits nas suas contas externas e os do sul défices; que o euro é um projecto destinado ao falhanço; e que a União Europeia está a entrar em fase de desagregação também por causa disso.

E a diferença está em que os países do sul da Europa valorizam muito mais as mulheres do que os países do norte.

É certo que o ministro holandês, naquela expressão "copos e mulheres", parece não estar a referir-se às mulheres em geral mas a um certo tipo de mulheres. Mas mesmo estas últimas são muito melhor tratadas nos países do sul do que nos do norte. O país do ministro é conhecido, aliás, por ter sido o primeiro a expô-las em montras como qualquer mercadoria.

O nosso Ramalho Ortigão era um pouco bronco, e bastante provinciano, e um dia foi passear para a Holanda com o intuito de escrever um livro de viagens, que acabou por escrever com esse título. Veio da lá muito impressionado, entre outras coisas, com as feiras de gado que viu na Holanda.

Ora, eu fui à Holanda pela primeira vez cerca de um século depois do Ramalho Ortigão. O meu objectivo  também era o de ver uma feira de gado. E vi, em Amsterdão. Só que o gado era outro.

21 março 2017

As mulheres

As mulheres no centro da cultura católica (e ortodoxa) dos países do sul da Europa.

Os copos é para festejar.

Nos países do norte da Europa eles festejam mais os homens.

(What a discrimination, spending money on women! This guy, Dijsselbloem, does not know that in little Portugal the women-filled CIG and the Squeaky girls are watching him. They will put him in jail - 5 years!. If not for other reason, possibly because they cannot find a man who would spend money on them).

PS. O Jornal Oficial está indignado.

19 março 2017

Dia do Pai

Nenhum par de adolescentes chateia a mãe desta maneira quando o pai está por perto.

a face do socialismo

17 março 2017

retribuir-lhes

A semana passada comemorou-se o Dia Internacional da Mulher. Ainda li alguns artigos de opinião sobre o assunto mas, em breve, desisti. Não encontrei nenhum articulista ou comentador que tivesse para dizer às mulheres nesse dia aquilo que eu tinha, e gostaria, de lhes dizer.

O tema dos artigos era invariavelmente o da igualdade, e os progressos que tinham sido feitos ao longo das últimas décadas no sentido de tornar as mulheres mais iguais aos homens.  Ora, há muito que eu me tinha posto a questão de saber como é que seria o mundo se todas as mulheres fossem iguais a mim.

E cheguei à conclusão que seria miserável.

Nessa altura decidi mesmo  alargar o âmbito da questão. Como sou homem e não devo ser muito diferente dos outros homens (a afirmação de que "os homens são todos iguais" é  sobretudo verdadeira mas quando aplicada às mulheres é sobretudo falsa), interroguei-me como é que seria o mundo se todas as mulheres fossem iguais aos homens.

E cheguei à mesma conclusão, seria um mundo miserável (embora um pouco menos miserável do que se elas fossem todas iguais a mim).

Posto isto, o que é que eu tinha para dizer às mulheres nesse dia, e que digo agora com atraso?

O seguinte:

As melhores coisas que eu tive na vida foram-me dadas por mulheres.
Obrigado.

A minha dificuldade é em retribuir-lhes.

Mas estou a fazer um esforço. O assunto sobre o qual tenho vindo a escrever ao longo dos últimos dias é parte  desse esforço. Normalmente, elas aceitam gratamente a retribuição se fôr feita nas pessoas dos filhos delas, ou dos netos.

16 março 2017

Bluff

Quando, em Janeiro, o Ministério da Saúde anunciou em grandes parangonas que libertava 21 milhões de euros para construir a nova ala pediátrica do Hospital de S. João, a surpresa, entre as pessoas directa ou indirectamente ligadas a esta obra, foi geral.

Mas não para mim. A mensagem dirigida à Associação mecenática que está a realizar a obra era clara: "Vão-se embora que já não precisamos de vocês". Nos dias seguintes, esta mensagem teve desenvolvimentos concretos que eu prefiro aqui omitir.

A Associação mecenática permaneceu firme no terreno com o estaleiro da obra instalado no local à espera que o HSJ desocupe o espaço para que os trabalhos possam prosseguir.

Ainda que fosse verdadeiro, o anúncio vinha tarde. Há contratos e compromissos firmados pela Associação mecenática - alguns envolvendo o próprio Ministério da Saúde e o HSJ, que está sob a sua tutela - que vão ter de ser cumpridos, e a obra feita.

O pior - o pior, mesmo -, como se viria a confirmar a semana passada, é que era tudo mentira - o Ministro da Saúde não tinha nada os 21 milhões que anunciara para fazer a obra.

Conclusão: o Ministro da Saúde não faz nem quer que se faça (a título gratuito para o Estado) um hospital pediátrico que substitua o barracão metálico - em que, por vezes, falta o aquecimento e  chove lá dentro - onde, desde há nove anos, estão internadas as crianças no Hospital central da região Norte e que é o segundo maior do país.

Logo a seguir, numa intervenção no Porto Canal chamei-lhe mentiroso e cruel. Já expliquei em baixo por que é que lhe chamei mentiroso. Faltava explicar por que é que lhe chamei também cruel.

não gora nada

Gorada... Que engraçado...gorada...do verbo gorar...

Ora agora goras tu ora agora goro eu...

Então, esta obra que é:

1) Doada por uma Associação mecenática ao Estado, e cuja aceitação foi objecto de um despacho do Ministério da Saúde;

2) Que é de utilidade pública, tal como reconhecida pelo Ministério da Segurança Social, que atribuiu tal estatuto à Associação mecenática que tem por missão realizá-la.

3) Que mobilizou centenas de mecenas entre pessoas singulares, empresas e outras instituições, e muitos mais são esperados no futuro;

4) Que é objecto de um contrato de empreitada assinado entre a Associação mecenática e um consórcio de construtoras no valor de 20,2 milhões de euros, o qual é do conhecimento do Ministério da Saúde, e foi submetido ao escrutínio do Tribunal de Contas;

5) Que é enquadrada por um Protocolo Tripartido entre a Associação mecenática, o Hospital de S. João (com a aprovação da tutela, o Ministério da Saúde) e o consórcio  construtor, o qual também foi submetido ao escrutínio prévio do Tribunal de Contas;

6)  Que foi inaugurada pelo Primeiro-Ministro do país;

7) Que está no terreno e que já foram realizados trabalhos pelos quais a Associação mecenática  pagou quase um milhão de euros à construtora, e que só não avança porque o actual Governo deu ordens ao HSJ para não cumprir o Protocolo que assinou;

8)  Em que o dono da obra - a Associação mecenática - se mantém firme no local da obra  à espera que o Ministério da Saúde (via HSJ) cumpra aquilo que assinou e desimpeça o espaço para que a obra possa prosseguir

esta obra, dizia, é para ser gorada por quem?

Pelo ministro Betinho?

Ele que tire daí a ideia.

Aqui o ministro Betinho não gora nada.

Se há uma pessoa que teria capacidade para gorar tudo isto seria eu.

E eu, obviamente, decidi não gorar nada.

Está tudo de pé. E firme que nem uma rocha.

15 março 2017

gorada?

Transcrição do e-mail enviado ontem à jornalista Natália Faria do Público:


Cara Natália,

Sobre a sua notícia de ontem acerca da ala pediátrica do HSJ, a frase final

"... gorada que foi a tentativa de fazer avançar a obra por via do mecenato."

não corresponde à verdade e é danosa para as pessoas e instituições que se juntaram em torno da Associação Joãozinho e cuja generosidade tornou possível pôr de pé um projecto credível para a realização desta obra, a qual está a decorrer e que só se encontra interrompida porque o Ministério da Saúde (via HSJ) não está a cumprir aquilo que assinou.

A este propósito remeto-a para  a Mensagem do Presidente aqui:

http://associacaojoaozinho.niuiu.com/

e estou naturalmente ao seu dispôr para prestar os esclarecimentos que considerar adequados.

Creia-me com os melhores cumprimentos.


Pedro Arroja
Presidente
Associação Humanitária "Um Lugar para o Joãozinho"

Parlamento

O assunto chegou ao Parlamento. E o ministro está a ser apertado. Naturalmente, mete os pés pelas mãos. Não se consegue mentir indefinidamente em público sem um dia se ser apanhado:

Já questionado sobre um despacho que na semana passada retomou o estudo sobre a nova ala pediátrica do Hospital de São João, que a Administração Regional de Saúde do Norte anunciou em janeiro que já tinha sido aprovado pela tutela, Adalberto Campos Fernandes falou de um “despacho-tipo” para dar seguimento a projetos pendentes nos hospitais e que requerem investimentos avultados e disse que estava em causa apenas a articulação do projeto funcional.

Os deputados do PSD só questionaram o ministro sobre este projeto, mas recorde-se que na semana passada saíram cinco despachos do mesmo género e também a nova maternidade de Coimbra voltou a estar em estudo, quando o projeto também já tinha sido aprovado pela tutela. Todos os despachos pedem um relatório até 15 de abril, para habilitar decisões políticas. Na semana passada o i procurou obter esclarecimentos do ministério sobre o significado desta data, sem sucesso. (aqui)

14 março 2017

so much

Aquilo que tenho vindo a reportar é apenas um exemplo dos compromissos assumidos pelo Ministro da Saúde e que ele sabe que não pode cumprir porque lhe falta o dinheiro.

O orçamento de investimento do Ministério da Saúde para 2017 é de 80 milhões de euros para todos os hospitais do país e tem vindo a diminuir fortemente nos últimos anos. A ala pediátrica do Hospital de S. João não está no OE2017. Mas, em teoria, poderia vir a ser inscrita no OE2018. O problema é que a obra custa 20 milhões de euros e só ela aumentaria o orçamento de investimento do Ministério da Saúde em 25%.

Impossível. Controlo do deficit oblige.

(Não houve um jornalista que fosse ver os números e confrontasse o Ministro: "Donde é que lhe vem o dinheiro?". Mas, enfim, os jornalistas acreditam que os Ministros tiram dinheiro do chapéu. Ainda se fala numa crise da fé...).

Mas não é caso único. Agora, dia-sim-dia-não cai-lhe em cima um novo caso de promessas feitas e não cumpridas.

A semana passada foi o Hospital de Gaia. Aqui é um caso de dinheiro orçamentado, mas, mesmo esse, nunca mais é libertado para o destinatário.

Hoje são as horas extra para médicos e enfermeiros. Os enfermeiros já marcaram uma greve. Os médicos perfilam-se a seguir.

Eu estou até convencido que ele prometeu jobs for the boys na Guarda, e agora os boys estão zangados porque ele não lhos entregou.

You can lie so much. Sooner or later truth will meet you.

13 março 2017

Dia 13

Dia 13 é dia de milagres em Portugal: reapareceram hoje os 21 milhões tirados do chapéu há dois meses.

À esquerda do ministro, confirmando com gestos de cabeça que os "procedimentos estão muito adiantados", está o secretário de Estado que na semana passada assinou o Despacho que manda regressar tudo à estaca zero.

PS. O Jornal Oficial reporta agora a segunda versão oficial (a primeira era mentira). Já houve um desenvolvimento. A repórter anterior foi substituída por uma nova. Um progresso

10 março 2017

o ministro Betinho

Uma fada coloca todos os dias o Jornal Oficial debaixo do travesseiro do ministro Betinho. E o ministro Betinho só acredita no Jornal Oficial.

Todos os jornais já vinham noticiando o assunto desde há anos. Mas agora era diferente. Naquela manhã de 19 de Janeiro, o ministro Betinho acordou às 9:24, esfregou os olhos, fez três movimentos de karaté, tirou o Jornal Oficial debaixo do travesseiro e nem queria acreditar.

Uma notícia colocada às 8:46  no Jornal Oficial dava conta de uma situação dramática envolvendo crianças num grande Hospital do país.

Em jejum, ainda em roupão, o ministro Betinho pegou no telemóvel e deu ordens firmes ao seu Ministério. Que fosse feito imediatamente um comunicado a dizer que o ministro Betinho libertava prontamente 21 milhões de euros para resolver o problema. E que fosse informado o Presidente do Hospital.

O ministro Betinho dorme de chapéu e, acto contínuo, tirou  21 milhões do chapéu.

O Presidente do Hospital ficou muito contente. Houve quem o avisasse: "Não acredite... olhe que o ministro Betinho é um mentiroso...". Mas ele não ligou.

O Jornal Oficial também ficou feliz. Tinha sido um dia de milagre para o Jornal Oficial. Às 8.46 denunciara a situação; às 11:00, o ministro Betinho fazia sair o comunicado e o problema estava resolvido - um caso de eficiência nunca visto na administração pública do país..

Às 18:49 o Jornal Oficial  dava a notícia e congratulava-se justificadamente pelos seus feitos. Por um momento, o mundo pareceu orwelliano, tantas emoções num só dia.

O Presidente do Hospital ficou então à espera que o ministro Betinho lhe fizesse chegar o dinheiro para fazer a obra, através de um despacho ou de qualquer outro documento oficial.

E um Despacho acabou por chegar, a 7 de Março.

Só que o ministro Betinho em lugar de lhe enviar o dinheiro... enviou-lhe uma Comissão.

Uma Comissão para fazer estudos sobre se o problema das crianças devia ou não ser resolvido, uma análise custo-benefício e outras coisas tais e, sobretudo, que fizesse recomendações acerca da maneira como é que se iria arranjar o dinheiro para pagar aquilo.

Em menos de dois meses tinham-se esfumado os 21 milhões que o ministro Betinho tinha tirado do chapéu naquela prodigiosa manhã de 19 de Janeiro.

O Presidente do Hospital ficou decepcionado.

O Jornal Oficial ficou em silêncio.

09 março 2017

Um mentiroso

Um mentiroso.

associação/ dissociação

A “DISSOCIAÇÃO”, como o termo indica é um estado mental de afastamento da realidade, diferente do delírio psicótico que implica um corte com a realidade.

A dissociação tem graus diferentes que vão desde ignorar voluntariamente um determinado assunto, para minimizar a ansiedade que lhe está associada, ao devaneio mental, até à doença das múltiplas personalidades.

Na Programação Neurolinguística – PNL – a “dissociação” é a designação que se atribui a uma posição percetual externa, por oposição à “associação”, que é quando vemos o mundo pelos nossos próprios olhos.

Quando estamos associados, isto é, quando vemos o mundo pelos nossos próprios olhos, a representação da realidade evoca um conjunto de emoções e sensações distintas das que emergem quando estamos dissociados.

Pensemos nas fobias, por exemplo. Uma pessoa que tenha aracnofobia (fobia de aranhas) entra em pânico quando está próxima de uma aranha, mas tem uma reação diferente quando recorda o episódio, vendo-se de fora. Neste caso aprecia o ridículo da situação, pode até rir, e sente alívio pelo distanciamento.

Imaginem-se ao volante de um automóvel que se aproxima de um cruzamento e que, de súbito, se apercebem de que o semáforo mudou para vermelho (estado associado). Como reagem? O que sentem?

Nessa situação, eu sinto “stress”. Entro em estado de alerta, foco a consciência no momento, confiro o que se passa à minha volta, em frações de segundo, e travo ou acelero, de modo a evitar qualquer acidente. Apanho um susto, por assim dizer.

Agora imaginem-se à janela de um edifício a verem-se ao volante de um automóvel que se aproxima de um cruzamento, sem abrandar, quando o semáforo passa para vermelho (estado dissociado).

Nesta perspetiva, eu não sinto stress, mas curiosidade, e sou mais rápido a julgar o meu próprio comportamento ao volante. ‹‹Faz muitas destas e vais ver›› - pensaria.

Em psicoterapia neurolinguística, a dissociação pode ser utilizada para consciencializar o cliente das diferentes perspetivas que a mesma situação ou problema oferece. Num conflito entre duas pessoas, por exemplo, podemos pedir ao cliente que se coloque na posição de um observador independente e que nos dê a sua perspetiva nessa “posição percetual”.


Como tudo muda quando muda a perspetiva; é impressionante, não é?

08 março 2017

abaixo de cão

Transcrição de um e-mail que hoje enviei à jornalista Margarida Gomes do Público, com cópia ao director, David Dinis:


Margarida,


Não existe financiamento público para a construção da Ala Pediátrica do Hospital de S. João, como hoje ficou claro:

Não tem vergonha de andar a reportar mentiras?

Não deve ficar admirada que, nos EUA, o Presidente Trump trate abaixo de cão os seus colegas que assim procedem.

Cumprimentos.

Pedro Arroja
Presidente

06 março 2017

A Verdade

São cada vez mais os artigos de opinião que têm como tema a verdade. Se este interesse corresponder a uma tendência, é a democracia partidária que está em causa. E as ideologias também.

A Verdade era também um tema preferido de Salazar. Num discurso de 1929  escreveu assim: "Como a vida social, a política e a administração pública devem apoiar-se na verdade; por temperamento, por convicção, por imposição da consciência, defendo esta forma de dirigir a administrar".

Este discurso tinha o título "Política de Verdade. Política de Sacrifício. Política Nacional", numa associação entre a Verdade, a Comunidade (expressa na Nação) e o Dever (em lugar dos "direitos").

A democracia partidária é o governo por opinião, e os partidos exprimem correntes de opinião. Uma opinião é uma visão pessoal da realidade. Porém, quando as pessoas se desinteressarem de opiniões sobre a realidade e quiserem é saber a Verdade sobre ela - como pode estar a acontecer - os partidos entram em crise e, em última instância, passam de moda.

E as ideologias também, porque quer a ideologia socialista quer a liberal estão fundadas em opiniões, não na Verdade, embora cada uma delas contenha alguns elementos da Verdade. A ideologia socialista é fundada na opinião de que a forma de relacionamento principal entre as pessoas, ao longo da história, é a luta; a ideologia liberal, diz que é a competição. A verdade, porém, é que é a cooperação, seguida pela competição e só em último lugar pela oposição (luta).

Não resisto aqui a contar uma pequena história pessoal, precisamente na altura em que eu próprio me desinteressei de opiniões, incluindo as ideologias.

Tenho um amigo que sempre gostou muito de me ver em debates. Devo dizer que é só um  (ou poucos mais), e não uma multidão, caso em que eu já teria formado um partido ou, mais provavelmente, uma seita religiosa.

Para  tristeza dele, de há uns anos para cá eu decidi não participar mais em debates. E no último em que participei, ele deslocou-se propositadamente do Porto a Lisboa para me ver. Foi no Instituto de Defesa Nacional. E só aceitei porque, como disse ao Director do IDN que me convidou, o convite me era feito por um general, e eu o interpretava como uma ordem.

As coisas correram como o meu amigo  esperava. No final, já cá fora,  disse-lhe:

-JP... Este é que foi mesmo o último...

-Mas porquê...?

-Oh JP... É que eu já não tenho paciência para ouvir opiniões... Já não me interessam opiniões ... Agora só me interessam verdades...

Eu estava a entrar numa fase da minha vida em que o tempo que está pela frente começa a parecer curto de mais. E eu quero levar comigo um certo número de verdades - em primeiro lugar, acerca de mim próprio. Já não tenho mais tempo para ouvir opiniões. Se eu não aprendi nada de certo e verdadeiro até aqui, quando é que vou aprender? A partir de agora, só quero verdades. Opiniões já não me interessam.

Se isto aconteceu comigo - cansar-me de opiniões e agora passar o tempo à procura da Verdade - é muito natural que aconteça com outras pessoas. E os sinais que vêm dos EUA, e que agora vejo replicados em Portugal, apontam nessa direcção.

Aproveito para revelar uma Verdade que descobri recentemente e que me deixou muito feliz, embora seja lateral ao assunto que pretendo tratar. As aparências sugerem que um homem e uma mulher que vivem muito tempo juntos - num casamento ou noutro tipo de relação - ficam cada vez mais iguais um ao outro. Seria de esperar que o tempo e a convivência  tornassem as suas personalidades mais iguais. Mas não é assim. A Verdade é ao contrário. Uma longa convivência entre um homem e uma mulher torna-os cada vez mais diferentes.

É talvez por isso que os adeptos radicais da igualdade são contra o casamento -  o casamento não torna o homem e a mulher mais iguais, torna-os mais diferentes, torna o homem mais homem e a mulher mais mulher.

Se, no limite, toda a gente quiser saber da Verdade, e não mais de opiniões, evidentemente que o regime de democracia partidária fica falido, embora o que fique falido sejam os partidos e não necessariamente a democracia. É que a Verdade é só uma, ao contrário das opiniões que são plurais. A Verdade é una e indivisível, pelo que o regime político da Verdade não pode ter partidos. Se Salazar estava muito preocupado em governar com Verdade, então ele não podia admitir partidos.

Para governar pela Verdade, um regime de autoridade - uma autoridade que representa a Verdade - é inevitável. E na nossa tradição cristã, embora a Verdade esteja presente em todos os elementos da Criação, e em todas as  obras humanas,  ela encontra-se, em primeiro lugar, nas pessoas, sendo Cristo o exemplo paradigmático desta mesma Verdade.

Permaneça e seja aprofundado o interesse pela Verdade e nós caminhamos para regimes políticos de autoridade pessoal. Começo a ver sinais nos EUA. Nós imitaremos.

05 março 2017

prostituição democrática

O José do Porta da Loja tem andado a dar no Público com fartura e contundência.

É bem merecido. Que vergonha de jornalismo.

Já só vende 13 mil exemplares, como um qualquer jornal de Província.

Eu nasci num tempo de jornalistas ferozmente independentes do poder político, frequentemente resvalando para a oposição.

Ver agora jornalistas deitados na cama com o poder político é a pior forma de prostituição democrática que consigo imaginar.


04 março 2017

mulheres

Cristo escolheu doze homens como seus embaixadores ou enviados - os apóstolos.

Para pregar o cristianismo em público, ele só quis homens, uma tradição que a Igreja ainda hoje mantém.

Por que é que ele não terá querido mulheres?

Seria Ele uma irascível machista, que hoje estaria sob a mira da CIG?

maternidade

Coitadinhas das mães. É preciso legislar para acabar com a  maternidade.

São uns sentimentalões.

02 março 2017

The Truth

Eu estou encantado por a Verdade se ter tornado um tema de discussão pública. E a última contribuição a esta discussão  foi o anúncio do New York Times durante a cerimónia de apresentação dos Oscars. Tinha o título The Truth.

Tem de ser dar, em boa parte, a Trump o mérito por trazer o tema da Verdade para as páginas dos jornais. O tema até já gerou neologismos, como post-verdade. Mas o meu interesse pelo assunto resulta do seguinte. A ser mantido no centro do debate público, o tema da Verdade é o prenúncio do fim da democracia partidária. É o fim das ideologias.

E é também o triunfo de uma antiga reivindicação do catolicismo sobre o protestantismo, que é a de que Cristo veio ao mundo, em primeiro lugar,  para dizer a Verdade, e não, como pretendem os protestantes, para fazer Justiça (é difícil compreender como é que se pode fazer Justiça sem antes conhecer a Verdade).

A democracia partidária tem sido adequadamente descrita como o sistema de governo por opinião. A opinião é uma visão pessoal sobre a realidade, e não é necessariamente coincidente com a Verdade. É na congregação de opiniões semelhantes sobre a realidade que se formam os partidos políticos, exactamente da mesma maneira que é na congregação de opiniões semelhantes sobre a realidade que se formam as seitas protestantes.

A Verdade, escreveu S. Tomás de Aquino, é a adequação do espírito à realidade, mas é um pouco mais do que isso. É também uma convicção íntima sobre a realidade e é isso que a torna particularmente difícil de propagar. Ao contrário da opinião que, sendo uma convicção exterior sobre a realidade, é mais fácil de transmitir. É fácil proselitar sobre a opinião, é muito difícil fazê-lo sobre a Verdade.

Um exemplo ajudará a esclarecer a situação e o ponto a que quero chegar.

É uma verdade absoluta para mim que uma criança precisa de um pai e de uma mãe para ser convenientemente educada. Aos vinte anos de idade, eu nunca teria afirmado isto como verdade e muito menos como verdade absoluta.  O que é que me leva a fazê-lo hoje, e não naquela altura?

Uma convicção íntima resultante da experiência que tenho hoje, mas não tinha na altura, resultante de educar os meus filhos (agora acrescida - e confirmada - por ver os meus filhos a educarem os deles) . Fazendo o balanço, há imensas coisas que eu lhes pude dar  - muitas delas aparentemente insignificantes e que, cada uma de per se,  não faria a diferença, mas que em conjunto são de uma relevância extraordinária - e que a mãe, só por si, não lhes poderia dar. E há ainda mais coisas que a mãe lhes pôde dar e que eu seria incompetente para o fazer.

Se ao meu lado, por exemplo, num debate televisivo, está alguém a contestar, dizendo que não senhor, um casal de homossexuais pode educar tão bem uma criança como um casal heterossexual, que os homossexuais em casal são pessoas tão boas e tão competentes para educar uma criança como um homem e uma mulher, eu acredito que essa pessoa vai ser mais popular do que eu. Primeiro, porque está a apresentar uma novidade e as pessoas gostam de novidades - e na nossa cultura católica, que é uma cultura feminina, nem se fala... Segundo, porque está a apelar ao sentimento de quem nos ouve,  defendendo os homossexuais enquanto eu pareço desmerecê-los.

Vale a pena fazer aqui um parêntesis para dizer que os defensores das causas fracturantes são sempre uns sentimentalões. Aquilo que lhes sobra em sentimento falta-lhes em cabeça. A arma deles é o sentimento, não a razão. Coitadinhos dos homossexuais... vamos permitir que eles também se casem e adoptem crianças. Coitadinhos dos doentes terminais...vamos permitir que eles se matem. Coitadinhas das mulheres que engravidam sem querer...vamos permitir que elas abortem. Não vale a pena pretender ter um debate racional com estas pessoas. Não existe razão nelas,  apenas sentimento.

Qualquer pessoa que tenha vivido o suficiente - não é preciso sequer que tenha criado filhos, basta ter observado o que viu à sua volta durante a vida - depois de me ouvir, vai dizer de si para si: "Claro que uma criança precisa de um pai e de uma mãe". Mas esta convicção íntima não é excitante, nem original, não causa furor anunciá-la ao mundo. A outra é que é excitante e original e produz um imenso impacto anunciá-la nos jornais e na televisão. E o autor torna-se um herói, um protector dos coitadinhos, um franciscano dos homossexuais, dos doentes terminais e das mulheres indesejadamente grávidas.

No fim, porém, uma coisa é verdade e a outra é mentira.

Entretanto, noto que já me desviei muito do meu tópico principal ou que ele é longo de mais para ser tratado num só texto (a Verdade é que a minha mulher me chama para jantar). Continua no próximo capitulo.


01 março 2017

anónima

O João Braga está feito. Com a CIG à perna são pelo menos cinco anos de cadeia. Ainda por cima, ele admira o Trump...

"Mas por que é que tu andas para aí a falar...tens alguma necessidade de andares a ser insultado por putos...?" - foi assim que a mulher dele reagiu ao jantar, ele em silêncio.

Como é que eu sei?

Fonte anónima.