Eu sempre considerei muito curioso aquele livro do Sampaio Bruno que tem o título "Os Modernos Publicistas Portugueses". Era um daqueles anúncios, perfeitamente à portuguesa, a informar o mundo, que nós cá também temos disso. Tinha chegado com algum atraso, mas finalmente tinha chegado, porque a um país de cultura católica acaba por chegar tudo - caso contrário ele deixa de ser católico.
E o que é que tinha chegado?
Os jornalistas.
A invenção da imprensa - uma invenção protestante - e a propagação da chamada imprensa livre foi uma arma poderosíssima contra a Igreja Católica, e contra os países de cultura católica, pelo que o anúncio de Sampaio Bruno estava destinado a trazer mais destruição a Portugal. E trouxe.
Os primeiros publicistas portugueses, homens como Eça de Queirós, Ramalho Ortigão, Oliveira Martins eram todos profundamente anti-católicos, e profundamente críticos das tradições portuguesas, embora todos acabassem a viver no conforto delas - uma das mais confortáveis sendo a de viverem à custa do Estado.
Foi também por essa altura que Antero produziu o célebre e devastador opúsculo sobre as causas da decadência dos povos peninsulares que, na prática, se resumiam a uma só - a Igreja Católica -, sem nunca lhe ter ocorrido atribuir também a Igreja a causa do esplendor desses mesmos povos uns séculos antes.
Eu já fui um admirador da tese de Antero, mais tarde, talvez de forma independente, retomada por Max Weber. Hoje, considero-a falsa. A Igreja não foi a causa da decadência de Portugal. A Igreja e Portugal decaíram simultaneamente, feridos, quase de morte, pelo mesmo cerrado ataque que tinha tido origem no norte da Europa, e que os publicistas portugueses apenas contribuíram para agravar, agora a partir de dentro.
Se eu pudesse escolher uma imagem para o que então se passava nos finais do século XIX seria a de um ringue de boxe, onde um dos boxeurs - a Igreja Católica (e o seu espelho, Portugal) -, tinha sido tão batido pelo adversário, tinha tantos golpes e feridas, cambaleava tanto pelo ringue e mal se tinha nas pernas, que toda a assistência esperava, a todo o momento, que ele caísse redondo no chão e fosse declarado vencido por KO.
Este boxeur não estava em condições de liderar coisa nenhuma, na realidade, não faltava na assistência quem previsse com certeza que ele perderia o combate e que provavelmente até iria morrer. Dizer que este boxeur estava agora quase a morrer pelas mesmas razões que antes o mantiveram vivo e vigoroso - a doutrina católica - era uma contradição.
O boxeur estava agora quase a morrer pela força e a violência dos golpes que o oponente lhe desferiu e alguns eram golpes baixos. E vinham todos de publicistas, como Voltaire, só mais tarde também dos da casa.
O milagre é que o boxeur não morreu, nem sequer caiu ao chão. E, curiosamente, tem-se vindo lenta mas firmemente a recompor, ao ponto de haver já quem preveja que ele acabará por ganhar o combate. E na casa do adversário.
O feitiço voltou-se contra o feiticeiro. Agora são os publicistas que estão sob ataque, num país que se vai tornando crescentemente católico, e pela mão de um homem, que pela idade e pela autoridade, tem cada vez mais semelhanças com um Papa - um Papa belicoso, é certo, como tantos da tradição católica, mas ainda assim, um Papa.
28 fevereiro 2017
América católica
No seguimento do meu post anterior:
A América vai tornar-se cada vez mais católica. A cultura católica é a única que pode assegurar a paz social naquele grande e muito variado país.
Num país que nasceu com o catolicismo proibido, o catolicismo é hoje a religião maioritária nos EUA.
Os católicos foram dos eleitores que mais votaram em Trump porque um católico quer no poder uma figura semelhante à de um Papa, um homem com autoridade e que lhe assegure a liberdade, e não uma espécie de comité central como é próprio das tradições protestantes.
A América possui uma cultura de racionalidade, e só um homem pode responder racionalmente pela sua governação e assumir responsabilidades por ela. Um comité central nunca o consegue fazer.
No final do mandato de Trump, os poderes do Presidente americano, que já de si são grandes, sairão reforçados, tornando-o cada vez mais parecido com um "Papa". E em Roma, um americano está destinado a ser Papa nos próximos anos.
E é um erro pensar que o grande conflito da administração Trump será com os chineses, os russos, os muçulmanos ou os mexicanos (católicos).
Será com os judeus. O confronto com o New York Times é o primeiro sinal.
A América vai tornar-se cada vez mais católica. A cultura católica é a única que pode assegurar a paz social naquele grande e muito variado país.
Num país que nasceu com o catolicismo proibido, o catolicismo é hoje a religião maioritária nos EUA.
Os católicos foram dos eleitores que mais votaram em Trump porque um católico quer no poder uma figura semelhante à de um Papa, um homem com autoridade e que lhe assegure a liberdade, e não uma espécie de comité central como é próprio das tradições protestantes.
A América possui uma cultura de racionalidade, e só um homem pode responder racionalmente pela sua governação e assumir responsabilidades por ela. Um comité central nunca o consegue fazer.
No final do mandato de Trump, os poderes do Presidente americano, que já de si são grandes, sairão reforçados, tornando-o cada vez mais parecido com um "Papa". E em Roma, um americano está destinado a ser Papa nos próximos anos.
E é um erro pensar que o grande conflito da administração Trump será com os chineses, os russos, os muçulmanos ou os mexicanos (católicos).
Será com os judeus. O confronto com o New York Times é o primeiro sinal.
o silêncio dos derrotados
Entre 1978 e 1986 vivi no Canadá, paredes meias com os EUA. Na altura, a democracia em Portugal ainda estava por implementar, vivia-se um período de grande turbulência política. Até então, eu, de democracia partidária, na prática conhecia a expressão.
Assisti a duas eleições presidenciais nos EUA - ambas ganhas por Reagan - e a várias eleições parlamentares no Canadá, a primeira ganha pelo pai do actual Primeiro-Ministro. Assisti também a um referendo para a independência do Québec.
O referendo surpreendeu-me. Há muito que existiam vozes para a independência do Québec que exigiam um referendo - o Québec era a Província francófona num país maioritariamente anglófono. A decisão do governo central em Ottawa foi a de aceitar o referendo numa atitude de: "Resolvam lá isso e depois digam-nos o que querem fazer". Os independentistas perderam mas, se tivessem ganho, o Québec seria hoje um país independente (outro referendo na década de 90 produziu o mesmo resultado).
A questão que na altura me lembro de ter posto foi a seguinte: como é que o governo em Lisboa reagiria se a Madeira ou os Açores quisessem tornar-se independentes, mandava fazer um referendo entre os madeirenses ou os açoreanos? A resposta veio breve. Não, mandava para lá as tropas.
Era uma diferença que eu via entre a democracia canadiana e a democracia portuguesa nascente. Mas não era a única, nem sequer a principal.
Por essa altura, eu já tinha votado em Portugal, em 1976 - a primeira e única vez que votei em eleições legislativas. E seguia a política portuguesa através dos jornais. Lembro-me que quem perdia imediatamente contestava os resultados e iniciava em boicote activo a acção de quem ganhava. A oposição iniciava-se no dia seguinte às eleições perdidas, uma tradição que ainda hoje se mantém. Portugal está constantemente em campanha eleitoral.
Ora aquilo que eu mais apreciei nas eleições norte-americanas a que assisti foi o que mais tarde vim a chamar de "o silêncio dos derrotados". Havia campanha eleitoral, chegava o dia das eleições e quem perdia calava-se até às próximas eleições. A política desaparecia da vida social até às próximas eleições.
Na realidade, havia mais. Havia a expectativa da parte do eleitorado de que a oposição cooperasse com o partido ganhador. E havia uma lógica nesta expectativa que era a seguinte: Se o partido ganhador, mesmo com a cooperação da oposição, não conseguir realizar o seu programa, então é porque não é de todo capaz. E, nas próximas eleições, será arredado do poder. Pelo contrário, uma oposição que estivesse constantemente a criar problemas ao governo, quase de certeza voltaria a perder nas próximas eleições.
Havia uma certa nobreza democrática por parte da oposição que eu apreciava, uam nobreza que era feita de silêncio e cooperação.
Ora, é o silêncio dos derrotados que eu não tenho visto nos EUA depois da eleição de Trump. Para não falar na cooperação, ou falta dela, dos derrotados em relação aos vencedores.
As explicações podem ser várias para esta alteração, aos meus olhos tão drástica, da tradição democrática norte-americana. A principal pode ser a imigração. Desde a altura em que lá estive até agora a população dos EUA quase duplicou, passando de 200 para 350 milhões de habitantes, a esmagadora maioria imigrantes - muitos muçulmanos, muitos católicos também, sobretudo da América Latina. São eles que, não tendo uma tradição de democracia partidária, podem estar a alterar a tradição política americana.
A tradição de uns e de outros é de uma autoridade pessoal no poder. Trump pode representar o primeiro elo nesta cadeia de transição.
Por outras palavras, a América post-eleições parece-me hoje muito mais um país católico, como Portugal - em que a oposição contesta o governo e cria obstáculos à governação desde o dia seguinte às eleições até ao próximo acto eleitoral - do que a América da tradição protestante, cuja mensagem aos derrotados é a seguinte: "Já tiveram a oportunidade de falar e perderam. Agora calem-se. E colaborem com quem ganhou".
Assisti a duas eleições presidenciais nos EUA - ambas ganhas por Reagan - e a várias eleições parlamentares no Canadá, a primeira ganha pelo pai do actual Primeiro-Ministro. Assisti também a um referendo para a independência do Québec.
O referendo surpreendeu-me. Há muito que existiam vozes para a independência do Québec que exigiam um referendo - o Québec era a Província francófona num país maioritariamente anglófono. A decisão do governo central em Ottawa foi a de aceitar o referendo numa atitude de: "Resolvam lá isso e depois digam-nos o que querem fazer". Os independentistas perderam mas, se tivessem ganho, o Québec seria hoje um país independente (outro referendo na década de 90 produziu o mesmo resultado).
A questão que na altura me lembro de ter posto foi a seguinte: como é que o governo em Lisboa reagiria se a Madeira ou os Açores quisessem tornar-se independentes, mandava fazer um referendo entre os madeirenses ou os açoreanos? A resposta veio breve. Não, mandava para lá as tropas.
Era uma diferença que eu via entre a democracia canadiana e a democracia portuguesa nascente. Mas não era a única, nem sequer a principal.
Por essa altura, eu já tinha votado em Portugal, em 1976 - a primeira e única vez que votei em eleições legislativas. E seguia a política portuguesa através dos jornais. Lembro-me que quem perdia imediatamente contestava os resultados e iniciava em boicote activo a acção de quem ganhava. A oposição iniciava-se no dia seguinte às eleições perdidas, uma tradição que ainda hoje se mantém. Portugal está constantemente em campanha eleitoral.
Ora aquilo que eu mais apreciei nas eleições norte-americanas a que assisti foi o que mais tarde vim a chamar de "o silêncio dos derrotados". Havia campanha eleitoral, chegava o dia das eleições e quem perdia calava-se até às próximas eleições. A política desaparecia da vida social até às próximas eleições.
Na realidade, havia mais. Havia a expectativa da parte do eleitorado de que a oposição cooperasse com o partido ganhador. E havia uma lógica nesta expectativa que era a seguinte: Se o partido ganhador, mesmo com a cooperação da oposição, não conseguir realizar o seu programa, então é porque não é de todo capaz. E, nas próximas eleições, será arredado do poder. Pelo contrário, uma oposição que estivesse constantemente a criar problemas ao governo, quase de certeza voltaria a perder nas próximas eleições.
Havia uma certa nobreza democrática por parte da oposição que eu apreciava, uam nobreza que era feita de silêncio e cooperação.
Ora, é o silêncio dos derrotados que eu não tenho visto nos EUA depois da eleição de Trump. Para não falar na cooperação, ou falta dela, dos derrotados em relação aos vencedores.
As explicações podem ser várias para esta alteração, aos meus olhos tão drástica, da tradição democrática norte-americana. A principal pode ser a imigração. Desde a altura em que lá estive até agora a população dos EUA quase duplicou, passando de 200 para 350 milhões de habitantes, a esmagadora maioria imigrantes - muitos muçulmanos, muitos católicos também, sobretudo da América Latina. São eles que, não tendo uma tradição de democracia partidária, podem estar a alterar a tradição política americana.
A tradição de uns e de outros é de uma autoridade pessoal no poder. Trump pode representar o primeiro elo nesta cadeia de transição.
Por outras palavras, a América post-eleições parece-me hoje muito mais um país católico, como Portugal - em que a oposição contesta o governo e cria obstáculos à governação desde o dia seguinte às eleições até ao próximo acto eleitoral - do que a América da tradição protestante, cuja mensagem aos derrotados é a seguinte: "Já tiveram a oportunidade de falar e perderam. Agora calem-se. E colaborem com quem ganhou".
27 fevereiro 2017
divertido
“Nada disto alguma vez aconteceu na Casa Branca ao longo da nossa longa experiência de cobrir várias administrações de diferentes partidos”, escreveu esta sexta-feira o diretor do “New York Times”, Dean Baquet, em comunicado. “Protestamos com severidade a exclusão do ‘New York Times’ e outros órgãos de comunicação. O acesso livre dos media a um governo transparente é obviamente do crucial interesse público.” (aqui)
Esta deve ter divertido imenso o Trump:
-Eu é que fui eleito Presidente do EUA e o NYT é que se arroga o defensor do interesse público.
Este título, correspondente a uma afirmação do mesmo autor, também o deve ter divertido:
-Pois, pois... a coisa é só para jornalistas...Porque se eu fôr para a televisão dizer que ele andava a roubar carteiras na Quinta Avenida, um dia destes pela calada da noite, e disser que a minha fonte é anónima, ele vai dizer que eu sou um mentiroso e um caluniador.
Esta de ontem à noite também lhe deve ter causado bastante divertimento:
-O NYT anda à procura da verdade... Pensava que isso era só para cristãos...
cheia de graça
Faz hoje anos que, num silencioso desvio à humanidade até então conhecida, Deus fez nascer uma nova criança cheia de graça. Era um rapaz e tornou-se um homem em tudo semelhante aos outros, excepto em que o silencioso desvio fez dele um homem único e irrepetível.
Parabéns Joaquim.
Parabéns Joaquim.
um silencioso desvio
Eu sou capaz de defender o aborto em termos de um milhão de argumentos diferentes: da liberdade da mulher, do seu direito a dispor do seu corpo, dos riscos da maternidade, da probabilidade que o filho tem de ser um assassino, até em termos malthusianos.
Mas quando me pergunto se gostaria que a minha mãe tivesse feito um aborto quando estava grávida de mim, a resposta é um silencioso não.
Mas quando me pergunto se gostaria que a minha mãe tivesse feito um aborto quando estava grávida de mim, a resposta é um silencioso não.
o elemento inquietante
"Darei um exemplo grosseiro do que pretendo dizer. Suponhamos que um habitante da lua - uma criatura conhecedora da matemática - se põe a apreciar o corpo humano; aperceber-se-á imediatamente de que o aspecto essencial do corpo humano é a duplicação: cada pessoa é duas pessoas, e a da direita assemelha-se com grande precisão à da esquerda. Tendo reparado que existe um braço do lado direito e um braço do lado esquerdo, uma perna do lado direito e uma pena do lado esquerdo, o tal habitante da lua poderá prosseguir a sua investigação, e chegar à conclusão de que existe o mesmo número de dedos de cada lado, quer nas mãos, quer nos pés, um par de orelhas, um par de narinas, e até um par de lobos no cérebro.
Acabará então por concluir que essa duplicação é uma lei; de tal maneira que ao detectar que existe um coração de um lado, deduzirá que também existe um coração do outro lado. E é aí, no momento em que tem mais certeza de estar certo, que se engana.
É este silencioso desvio - um desvio mínimo - da precisão esperada, que constitui o elemento inquietante de todas as coisas."
(G. K. Chesterton, Ortodoxia, Lisboa: Aletheia, 2008, pp. 115-16)
Acabará então por concluir que essa duplicação é uma lei; de tal maneira que ao detectar que existe um coração de um lado, deduzirá que também existe um coração do outro lado. E é aí, no momento em que tem mais certeza de estar certo, que se engana.
É este silencioso desvio - um desvio mínimo - da precisão esperada, que constitui o elemento inquietante de todas as coisas."
(G. K. Chesterton, Ortodoxia, Lisboa: Aletheia, 2008, pp. 115-16)
a sua personalidade
Eu sou um admirador do Trump.
O que é que aprecio nele?
A sua personalidade, que é isso que a comunicação social detesta nele.
O que é que aprecio nele?
A sua personalidade, que é isso que a comunicação social detesta nele.
WASP
Donald Trump é o americano típico, o tipo de homem que fundou os EUA, e é bem representativo da tradição americana - White, Anglo-Saxon and Protestant - uma tradição que apela explicitamente à religião.
É um tipo de homem que nunca foi particularmente apreciado na Europa continental, especialmente devido à sua boldness. Mas foram homens como ele que fizeram a América, que substituiu a Europa na liderança da civilização ocidental.
Existem provavelmente muitas razões que produzem a irritação que os intelectuais, incluindo jornalistas, sentem em relação a Trump. Creio que uma das principais é o facto de ele falar em público sobre Deus e considerar a religião parte da tradição americana, que ele pretende restaurar.
Não há nada que mais irrite o establishment político da democracia partidária do que falar-se em Deus.
Falo por experiência própria.
É um tipo de homem que nunca foi particularmente apreciado na Europa continental, especialmente devido à sua boldness. Mas foram homens como ele que fizeram a América, que substituiu a Europa na liderança da civilização ocidental.
Existem provavelmente muitas razões que produzem a irritação que os intelectuais, incluindo jornalistas, sentem em relação a Trump. Creio que uma das principais é o facto de ele falar em público sobre Deus e considerar a religião parte da tradição americana, que ele pretende restaurar.
Não há nada que mais irrite o establishment político da democracia partidária do que falar-se em Deus.
Falo por experiência própria.
25 fevereiro 2017
Foi um milagre
Depois de ler as dez razões do Padre Portocarrero de Almada, a minha conclusão acerca do mistério da eleição do Trump é aquela que ele, sendo Padre, deveria ter tirado. Foi um milagre.
Estou muito menos certo, é claro, acerca do que Deus quis significar ao produzir esse milagre. Mas algumas das possíveis razões dessa racionalidade divina estão contidas nos dez parágrafos do texto - ou talvez todas, e que se resumem numa só: a comunicação social democrática não exprime as verdades em que o povo acredita. É assim nos EUA e é assim em Portugal (*).
Quem avaliar um país sem sair de casa, somente por aquilo que se diz na comunicação social, e depois se der ao trabalho de viver uma vida normal nesse país - com o seu emprego, o seu relacionamento normal com outras pessoas, etc. - vai dar-se conta que o país real é exactamente o oposto da imagem que dele construiu a partir da comunicação social.
É assim nos EUA. É assim, e mais ainda, em Portugal, pela tendência que a nossa cultura, mais do que a americana, tem para levar as coisas ao extremo.
A América elegeu o mais impopular de todos os candidatos, tal como avaliado pela comunicação social. Este é o milagre, num regime em que se espera que seja eleito o mais popular.
(*) Um exemplo fresco. Responsabilidade política é irresponsabilidade. Já viu alguém ser responsabilizado por irresponsabilidade política?
Estou muito menos certo, é claro, acerca do que Deus quis significar ao produzir esse milagre. Mas algumas das possíveis razões dessa racionalidade divina estão contidas nos dez parágrafos do texto - ou talvez todas, e que se resumem numa só: a comunicação social democrática não exprime as verdades em que o povo acredita. É assim nos EUA e é assim em Portugal (*).
Quem avaliar um país sem sair de casa, somente por aquilo que se diz na comunicação social, e depois se der ao trabalho de viver uma vida normal nesse país - com o seu emprego, o seu relacionamento normal com outras pessoas, etc. - vai dar-se conta que o país real é exactamente o oposto da imagem que dele construiu a partir da comunicação social.
É assim nos EUA. É assim, e mais ainda, em Portugal, pela tendência que a nossa cultura, mais do que a americana, tem para levar as coisas ao extremo.
A América elegeu o mais impopular de todos os candidatos, tal como avaliado pela comunicação social. Este é o milagre, num regime em que se espera que seja eleito o mais popular.
(*) Um exemplo fresco. Responsabilidade política é irresponsabilidade. Já viu alguém ser responsabilizado por irresponsabilidade política?
o mistério Trump
Tomo a liberdade de transcrever aqui na íntegra o artigo do Pe Portocarrero de Almada, do Observador, pelo que me parece ser a sua importância.
A missão da teologia é explicar mistérios. Alguns, como a trindade e a eucaristia, são sobre Deus; outros dizem respeito ao mundo, como os da sua origem e do seu fim; e outros ainda referem-se aos homens e à sua misteriosa capacidade do bem e do mal. Cada ser humano é um mistério, mas alguns há que o são mais do que outros: é o caso de Donald Trump, o actual presidente dos Estados Unidos da América.
Diga-se o que se disser, a verdade é que Trump tem o condão de irritar muita gente, da direita mais conservadora à esquerda mais progressista. Ninguém gosta do seu estilo arrogante, do seu palavreado por vezes ordinário, do seu novo-riquismo de mau gosto, para já não falar da sua incrível melena. Como se explica então que tenha ganho a eleição presidencial?! Possivelmente não se explica, mas estas dez pistas talvez ajudem a compreender melhor o mistério Trump.
1º. Trump é a expressão do politicamente incorrecto: a sua eleição é uma reacção contra o sistema político que, em nome da democracia, asfixia a liberdade. Por isso os norte-americanos elegeram um político anti-sistema, em detrimento de Hillary Clinton, que era uma profissional da política, uma funcionária do sistema.
2º. Trump tinha praticamente toda a imprensa contra ele, com excepção da Fox News e do The Telegraph. Se Watergate foi, ao lograr a demissão de um presidente dos Estados Unidos da América, o auge do poder da imprensa, a eleição de Trump foi o seu canto do cisne. Foi sobretudo graças ao Facebook, ao Twiter e ao Instagram que Trump conseguiu fazer chegar a sua mensagem ao eleitorado. Uma imprensa livre é essencial à democracia, mas a parcialidade dos media na campanha eleitoral evidenciou os interesses políticos e económicos a que, por vezes, cedem alguns meios de comunicação.
3º. Trump tem ideias claras sobre a vida humana, o casamento e a família e está disposto a lutar por elas. Os partidos ditos conservadores têm, em geral, uma atitude tíbia e envergonhada, mas os partidos de esquerda têm uma agenda clara e não perdem ocasião para a implementar: liberalização do aborto gratuito; casamento e adopção por pessoas do mesmo sexo; barrigas de aluguer; eutanásia; etc. Trump não tem respeitos humanos no que respeita à defesa da vida, do casamento natural e da família, como se viu pelas medidas já tomadas em relação ao aborto.
4º. Trump tem uma relação diferente com os lóbis. Muitos governos vivem praticamente sequestrados pelos grupos de pressão, que são uma espécie de comissários políticos da democracia. Trump já deu a entender que, na América, manda ele, porque foi ele, e não esses grupos, por muito respeitáveis que possam ser, que foi eleito presidente.
5º. Trump não tem medo da iniciativa privada, se for a que melhor serve o bem comum. A esquerda privilegia a saúde pública e o ensino estatal porque, em teoria, são os que melhor servem o interesse nacional mas, na prática, porque herdou do marxismo uma concepção totalitária do poder e desconfia da liberdade e da iniciativa privada. Trump acredita no mercado mas, como o Papa Francisco tem alertado, a lógica do descartável é injusta e profundamente desumana.
6º. Trump manda mesmo e, por isso, demitiu a procuradora-geral interina, depois de Sally Yates ter questionado a ordem presidencial que proíbe a entrada nos Estados Unidos da América a cidadãos de sete países de maioria muçulmana. Também demitiu todos os embaixadores ‘políticos’, que tinham sido nomeados pelo seu antecessor e que não eram da sua confiança. É razoável que o presidente exija lealdade aos seus funcionários, desde que não extravase as suas competências, respeite a independência do poder judicial e a separação de poderes.
7º. Trump não tem uma visão utópica ou idealista do mundo. Quer contribuir para a NATO, cuja importância estratégica reconhece, mas não se a Europa não estiver interessada na sua segurança. Em relação ao Médio Oriente, é sensível às pretensões de Israel, tendo já decidido a instalação da embaixada dos Estados Unidos da América em Jerusalém, a capital do Estado judaico, o que certamente não é uma boa notícia para os palestinianos. Quer a paz mundial, mas não apenas com os sacrifícios do seu país.
8º. Trump é a favor da liberdade religiosa, mas não admite que ninguém, nem nenhuma religião, ponha em perigo a paz e a segurança dos cidadãos norte-americanos. É justo, desde que não viole o direito fundamental de qualquer crente a professar, privada e publicamente, a sua religião. Os muçulmanos não são todos potenciais terroristas, mas é evidente que esta religião é essencialmente guerreira e que há um terrorismo maometano, que decorre do conceito islâmico de guerra santa: a jihad.
9º. Trump é patriota e defende os legítimos interesses do seu país, nomeadamente através do muro na fronteira austral. Todos os Estados têm direito a evitar a imigração ilegal e é bom não esquecer que foi Bill Clinton, um presidente democrata, quem decidiu e iniciou a construção do muro, que já se ergue em mais de mil kms, cerca de um terço da fronteira com o México. E a verdade é que Obama, durante os seus dois mandatos, não o destruiu; nem Hillary, se fosse eleita, iria fazê-lo. Mas uma América fechada sobre si mesma pode levar ao ressurgir dos nacionalismos protecionistas, com graves prejuízos para a solidariedade internacional e para os países mais necessitados.
10º. Trump é arrogante, é certo, e o seu feitio não parece ser o melhor. Não são referências adequadas à sua função: é, como é óbvio, um perigo para o seu país e para todo o mundo. Na realidade, é preocupante que um homem, por vezes tão básico e imprevisível, esteja à frente da maior superpotência mundial. Mas não é o único…
Talvez o mistério Trump se explique pelo paradoxo que melhor o define: a arrogância da esquerda num político de direita. Por tudo isto e o mais que ficou por dizer, há razões para crer que a América ‘si muove’ e, com ela, o mundo. Se é para melhor ou pior, o tempo o dirá. Para já, há que rezar: God bless America!
22 fevereiro 2017
terroristas
Dois Conselheiros de Estado, actuando como "comentadores políticos", vendem informação confidencial aos écrans de duas estações de televisão, informação que é adquirida através do acesso privilegiado às fontes e à teia de relações pessoais que os seus cargos lhes proporcionam.
E põem o Estado em polvorosa com o caso CGD em que o próprio Presidente da República é visado. Como réplica, e para abanar ainda mais o Estado, surge agora o caso das transferências para países offshores no tempo do anterior Governo.
Não se pode dizer que o negócio dos dois Conselheiros de Estado seja original. O Presidente da República, enquanto Conselheiro de Estado, deu o exemplo durante anos.
Houve um tempo - era o tempo de Salazar - em que aqueles que queriam destruir o Estado eram chamados terroristas. Atacavam o Estado a partir de fora. A diferença é que agora atacam o Estado a partir de dentro.
O Estado democrático em Portugal não precisa de inimigos. Basta-lhe ter Conselheiros.
Cito o Jornal Oficial da Geringonça para constatar que o Parlamento está a ficar muito esganiçado.
E põem o Estado em polvorosa com o caso CGD em que o próprio Presidente da República é visado. Como réplica, e para abanar ainda mais o Estado, surge agora o caso das transferências para países offshores no tempo do anterior Governo.
Não se pode dizer que o negócio dos dois Conselheiros de Estado seja original. O Presidente da República, enquanto Conselheiro de Estado, deu o exemplo durante anos.
Houve um tempo - era o tempo de Salazar - em que aqueles que queriam destruir o Estado eram chamados terroristas. Atacavam o Estado a partir de fora. A diferença é que agora atacam o Estado a partir de dentro.
O Estado democrático em Portugal não precisa de inimigos. Basta-lhe ter Conselheiros.
Cito o Jornal Oficial da Geringonça para constatar que o Parlamento está a ficar muito esganiçado.
Paz
Há semanas, procurei pôr-me aqui no espírito de F. A. Hayek - considerado o pai do liberalismo moderno - para procurar saber quais as interrogações que em 93 anos de vida dedicada à causa do liberalismo, ele levou consigo para a eternidade.
Fi-lo com base no seu último livro ("The Fatal Conceit" e o subtítulo "The Errors of Socialism") e, em particular, com base no último capítulo deste seu último livro que tem o título sugestivo "Religion and the Guardians of Tradition". Este capítulo causou calafrios em muitos dos seus seguidores, como o próprio autor admite, mas ele resolveu, não obstante, incluí-lo. Trata-se do tema da religião que, desde Kant pelo menos, está proibido aos intelectuais e cientistas, como ele.
Hayek acreditava que o capitalismo era um sistema económico muito superior ao socialismo, uma crença que não é difícil partilhar. Que o capitalismo assentava em certos valores ou tradições, como a propriedade privada, a honestidade, o cumprimento das promessas, etc. Que estas tradições - e aqui estava a parte irritante do livro - foram guardadas e trazidas à actualidade sobretudo pela religião.
Mas tendo chegado aqui, e perante a questão óbvia seguinte que era a de saber quem criou e para quê esses valores ou tradições, Hayek parou e remeteu o assunto para os teólogos:
So far as I am personally concerned I had better state that I feel as little entitled to assert as to deny the existence of what others call God, for I must admit that I just do not know what this word is supposed to mean. I certainly reject every anthropomorphic, personal, or animistic interpretation of the term through which many people succeed in giving it a meaning. The conception of a man-like or mind-liking being appears to me rather the product of an arrogant overestimation of the capacities of a man-like mind. I cannot attach meaning to words that in the structure of my own thinking, or in my picture of the world, have no place that would give them meaning. It would thus be dishonest of me were I to use such words as if they expressed any belief that I hold.
I long hesitated whether to insert this personal note here, but ultimately decided to do so because support by a professed agnostic may help religious people more unhesitantingly to pursue those conclusions that we do share. Perhaps what many people mean in speaking of God is just a personification of that tradition of values that keeps their communities alive.
(op.cit., pp. 139-40)
O ponto importante aqui é o de um racionalista que prossegue o caminho da razão por onde ela o leva, até que chega o momento em que, tendo o caminho entrado no domínio da religião, ele pára à entrada, e recusa utilizar a razão para prosseguir o caminho.
O argumento de Hayek em favor do capitalismo ficou incompleto. Ele faz uso de uma razão amputada, que serve em certos domínios mas não em outros, como a religião. Fica-se mesmo na dúvida de que, sendo a razão incompetente para trilhar certos caminhos, se será competente para trilhar os caminhos que ele a fez trilhar.
Eu penso que Hayek, a despeito da sua honestidade, estava errado acerca dos limites da razão. O argumento, indo da frente para trás, tem continuidade racional.
É assim:
Quem criou a propriedade privada (vou cingir-me apenas a este valor de suporte ao capitalismo) foi o mesmo Criador que criou o sol, o mar e a lua. É Deus. Ao criar o sol, o mar e a lua Ele visava atingir certos bens para todos nós - ele visava o bem comum. Mas nem só de sol, mar ou lua vive o homem. Por isso, Ele também criou certos valores - um código de moralidade, chamemos-lhe assim - incluindo o da propriedade privada, sem os quais a nossa vida seria impossível.
E Deus, podendo assumir qualquer forma - como a do sol ou a da lua ou qualquer outra, no fim de contas Ele é o Criador de tudo - também pode assumir forma humana ou antropomórfica. Na realidade, a propriedade privada (e todos os outros valores) são-nos transmitidos por Deus assumindo forma humana, um argumento que concretizarei já a seguir.
O paganismo não estava totalmente errado quando adorava o sol, o mar ou a lua. Deus também está neles e também se revela através deles. Mas aquilo que o Cristianismo veio fazer foi integrar o paganismo numa verdade mais abrangente e centralmente humana.
Deus revela-se através do sol, do mar e da lua, mas revela-se, em primeiro lugar, a através das pessoas - e a figura paradigmática desta revelação pessoal é Cristo. Existe Deus em cada ser humano e Deus revela-se mais através de cada ser humano do que através do sol, do mar ou da lua. O Cristianismo pôs a pessoa humana no centro da revelação e criou uma hierarquia onde vêm a seguir os outros elementos da natureza e as obras humanas.
O célebre Cântico ao Irmão Sol de S. Francisco de Assis exprime Deus em todas as obras da natureza, e não fosse o igualitarismo radical, tipicamente franciscano, que põe o homem ao mesmo nível do sol e dos animais, e seria uma descrição perfeita daquilo que pretendo afirmar. Falta-lhe, contudo, a hierarquia.
A propriedade privada foi criada por Deus e é revelada por Deus em forma antropomórfica. É-nos transmitida, em primeiro lugar, pela nossa mãe, embora também pelo pai e muitas outras pessoas, em uma miríade de episódios que ocorrem muito cedo na nossa vida.
Por exemplo, quando o irmão mais novo desata a chora porque o mais velho lhe tirou o brinquedo. Nessa altura, a mãe vai junto deles, tira o brinquedo da mão do mais velho e entrega-o ao mais novo com as seguintes palavras, dirigidas ao mais velho: "Dá esse o brinquedo ao teu irmão porque é dele". E depois, pegando num outro brinquedo que jazia abandonado no chão, coloca-o na mão do mais velho com as palavras: "Brinca com este porque este é que e teu".
Hayek recusou entrar no domínio da religião porque não se sentia capaz, mas também, talvez, por causa das surpresas que podia encontrar. E iria encontrar de certeza. É que o comportamento da mãe, que instila nos filhos o sentimento da propriedade privada, não é ditado por nenhuma consideração de eficiência económica.
Também não é por considerações de ordem económica que, chegada a hora do almoço, ela põe na mesa um prato para cada filho, e a respectiva comida lá dentro, em lugar de servir os dois filhos num prato comum (do ponto de vista da eficiência esta solução seria preferível porque com menos recursos serviria o mesmo fim, que era o de alimentar os dois filhos).
Nem o comportamento da mãe é ditado por qualquer perspectiva egoísta de bem-estar individual, porque é claro que a sua intervenção, nos dois exemplos citados, vai contra o bem-estar do filho mais velho, que queria era brincar com o brinquedo do irmão mais novo, no primeiro caso, ou deitar a mão à sua comida, no segundo.
A intervenção da mãe faz-se em nome de um bem muito maior, que não é necessariamente um bem para este ou para aquele, mas um bem para todos, um bem comum - a paz familiar. Ninguém consegue viver numa família onde os mais novos passam a vida a berrar ou porque os irmãos mais velhos lhes tiraram os brinquedos ou porque lhes deitaram a mão à comida que era devida a eles.
Paz para todos, que é um bem comum, e não eficiência económica, que é um bem geralmente privado, é que é a verdadeira razão pela qual Deus criou a propriedade privada. Que ela também promova a eficiência económica é um subproduto - e nem sequer muito importante - desta racionalidade original e divina.
Fi-lo com base no seu último livro ("The Fatal Conceit" e o subtítulo "The Errors of Socialism") e, em particular, com base no último capítulo deste seu último livro que tem o título sugestivo "Religion and the Guardians of Tradition". Este capítulo causou calafrios em muitos dos seus seguidores, como o próprio autor admite, mas ele resolveu, não obstante, incluí-lo. Trata-se do tema da religião que, desde Kant pelo menos, está proibido aos intelectuais e cientistas, como ele.
Hayek acreditava que o capitalismo era um sistema económico muito superior ao socialismo, uma crença que não é difícil partilhar. Que o capitalismo assentava em certos valores ou tradições, como a propriedade privada, a honestidade, o cumprimento das promessas, etc. Que estas tradições - e aqui estava a parte irritante do livro - foram guardadas e trazidas à actualidade sobretudo pela religião.
Mas tendo chegado aqui, e perante a questão óbvia seguinte que era a de saber quem criou e para quê esses valores ou tradições, Hayek parou e remeteu o assunto para os teólogos:
So far as I am personally concerned I had better state that I feel as little entitled to assert as to deny the existence of what others call God, for I must admit that I just do not know what this word is supposed to mean. I certainly reject every anthropomorphic, personal, or animistic interpretation of the term through which many people succeed in giving it a meaning. The conception of a man-like or mind-liking being appears to me rather the product of an arrogant overestimation of the capacities of a man-like mind. I cannot attach meaning to words that in the structure of my own thinking, or in my picture of the world, have no place that would give them meaning. It would thus be dishonest of me were I to use such words as if they expressed any belief that I hold.
I long hesitated whether to insert this personal note here, but ultimately decided to do so because support by a professed agnostic may help religious people more unhesitantingly to pursue those conclusions that we do share. Perhaps what many people mean in speaking of God is just a personification of that tradition of values that keeps their communities alive.
(op.cit., pp. 139-40)
O ponto importante aqui é o de um racionalista que prossegue o caminho da razão por onde ela o leva, até que chega o momento em que, tendo o caminho entrado no domínio da religião, ele pára à entrada, e recusa utilizar a razão para prosseguir o caminho.
O argumento de Hayek em favor do capitalismo ficou incompleto. Ele faz uso de uma razão amputada, que serve em certos domínios mas não em outros, como a religião. Fica-se mesmo na dúvida de que, sendo a razão incompetente para trilhar certos caminhos, se será competente para trilhar os caminhos que ele a fez trilhar.
Eu penso que Hayek, a despeito da sua honestidade, estava errado acerca dos limites da razão. O argumento, indo da frente para trás, tem continuidade racional.
É assim:
Quem criou a propriedade privada (vou cingir-me apenas a este valor de suporte ao capitalismo) foi o mesmo Criador que criou o sol, o mar e a lua. É Deus. Ao criar o sol, o mar e a lua Ele visava atingir certos bens para todos nós - ele visava o bem comum. Mas nem só de sol, mar ou lua vive o homem. Por isso, Ele também criou certos valores - um código de moralidade, chamemos-lhe assim - incluindo o da propriedade privada, sem os quais a nossa vida seria impossível.
E Deus, podendo assumir qualquer forma - como a do sol ou a da lua ou qualquer outra, no fim de contas Ele é o Criador de tudo - também pode assumir forma humana ou antropomórfica. Na realidade, a propriedade privada (e todos os outros valores) são-nos transmitidos por Deus assumindo forma humana, um argumento que concretizarei já a seguir.
O paganismo não estava totalmente errado quando adorava o sol, o mar ou a lua. Deus também está neles e também se revela através deles. Mas aquilo que o Cristianismo veio fazer foi integrar o paganismo numa verdade mais abrangente e centralmente humana.
Deus revela-se através do sol, do mar e da lua, mas revela-se, em primeiro lugar, a através das pessoas - e a figura paradigmática desta revelação pessoal é Cristo. Existe Deus em cada ser humano e Deus revela-se mais através de cada ser humano do que através do sol, do mar ou da lua. O Cristianismo pôs a pessoa humana no centro da revelação e criou uma hierarquia onde vêm a seguir os outros elementos da natureza e as obras humanas.
O célebre Cântico ao Irmão Sol de S. Francisco de Assis exprime Deus em todas as obras da natureza, e não fosse o igualitarismo radical, tipicamente franciscano, que põe o homem ao mesmo nível do sol e dos animais, e seria uma descrição perfeita daquilo que pretendo afirmar. Falta-lhe, contudo, a hierarquia.
A propriedade privada foi criada por Deus e é revelada por Deus em forma antropomórfica. É-nos transmitida, em primeiro lugar, pela nossa mãe, embora também pelo pai e muitas outras pessoas, em uma miríade de episódios que ocorrem muito cedo na nossa vida.
Por exemplo, quando o irmão mais novo desata a chora porque o mais velho lhe tirou o brinquedo. Nessa altura, a mãe vai junto deles, tira o brinquedo da mão do mais velho e entrega-o ao mais novo com as seguintes palavras, dirigidas ao mais velho: "Dá esse o brinquedo ao teu irmão porque é dele". E depois, pegando num outro brinquedo que jazia abandonado no chão, coloca-o na mão do mais velho com as palavras: "Brinca com este porque este é que e teu".
Hayek recusou entrar no domínio da religião porque não se sentia capaz, mas também, talvez, por causa das surpresas que podia encontrar. E iria encontrar de certeza. É que o comportamento da mãe, que instila nos filhos o sentimento da propriedade privada, não é ditado por nenhuma consideração de eficiência económica.
Também não é por considerações de ordem económica que, chegada a hora do almoço, ela põe na mesa um prato para cada filho, e a respectiva comida lá dentro, em lugar de servir os dois filhos num prato comum (do ponto de vista da eficiência esta solução seria preferível porque com menos recursos serviria o mesmo fim, que era o de alimentar os dois filhos).
Nem o comportamento da mãe é ditado por qualquer perspectiva egoísta de bem-estar individual, porque é claro que a sua intervenção, nos dois exemplos citados, vai contra o bem-estar do filho mais velho, que queria era brincar com o brinquedo do irmão mais novo, no primeiro caso, ou deitar a mão à sua comida, no segundo.
A intervenção da mãe faz-se em nome de um bem muito maior, que não é necessariamente um bem para este ou para aquele, mas um bem para todos, um bem comum - a paz familiar. Ninguém consegue viver numa família onde os mais novos passam a vida a berrar ou porque os irmãos mais velhos lhes tiraram os brinquedos ou porque lhes deitaram a mão à comida que era devida a eles.
Paz para todos, que é um bem comum, e não eficiência económica, que é um bem geralmente privado, é que é a verdadeira razão pela qual Deus criou a propriedade privada. Que ela também promova a eficiência económica é um subproduto - e nem sequer muito importante - desta racionalidade original e divina.
21 fevereiro 2017
sem-abrigo mental
Sem Deus, sem Estado, sem fronteiras, sem compatriotas, sem família, como propõe a "Open Society Foundations", do George Soros, seremos mais livres?
NÃO!
Seremos menos livres e estaremos a caminho da escravatura, estaremos de volta à barbárie, quando a vida era "curta e brutal".
Deus garante a inviolabilidade da vida, o Estado aplica o direito, cujos próprios fundamentos remetem para a Lei natural (e para Deus), a pátria é a nossa casa, a comunidade com que nos identificamos e a família o elo mais forte à natureza e à eternidade.
Sem estes pilares sociais seremos uns "sem-abrigo" mental, à mercê de tudo e de todos, apenas livres na imaginação doentia de quem não sabe o que é a liberdade.
NÃO!
Seremos menos livres e estaremos a caminho da escravatura, estaremos de volta à barbárie, quando a vida era "curta e brutal".
Deus garante a inviolabilidade da vida, o Estado aplica o direito, cujos próprios fundamentos remetem para a Lei natural (e para Deus), a pátria é a nossa casa, a comunidade com que nos identificamos e a família o elo mais forte à natureza e à eternidade.
Sem estes pilares sociais seremos uns "sem-abrigo" mental, à mercê de tudo e de todos, apenas livres na imaginação doentia de quem não sabe o que é a liberdade.
20 fevereiro 2017
O dia em que o PR decidiu enforcar-se
O episódio mais dramático relatado no livro de José António Saraiva, "Eu e os Políticos", é aquele em que Marcello Rebelo de Sousa, antes de uma reunião que iria ter lugar com Pinto Balsemão, fingiu enforcar-se num cortinado:
enquanto esperava numa sala, abriu inesperadamente a janela, saltou para uma consola exterior, puxou a fita do estore, enrolou- a à volta do pescoço e deitou a língua de fora, fingindo que se tinha enforcado. Mas quando Balsemão apareceu já Marcelo tinha recuperado a compostura.
Não estive lá para observar o que fizeram as outras pessoas presentes, mas presumo que Marcello Rebelo de Sousa só é hoje o nosso Presidente da República porque os presentes fizeram alguma coisa, muito provavelmente aquilo que eu faria se lá estivesse. Atirava-me a ele e tirava-lhe o cortinado do pescoço, nem que fosse à pancada.
Mais difícil seria explicar, quando os ânimos se acalmassem, a racionalidade da minha acção. Ter-lhe-ia dito que me opus a que ele se suicidasse porque a vida dele não lhe pertence só a ele, também pertence ao pai, à mãe, aos amigos, todos o tratam por meu ou por nosso.
-E tu... também sou teu... que apareceste agora aqui e eu nunca te tinha visto?,
poderia ele perguntar-me na altura e ter-me-ia deixado embatucado.
Mas hoje não, hoje eu teria a resposta.
-Sim, também és meu e nosso. És o meu e o nosso Presidente da República.
Ainda o imagino de língua de fora e cortinado ao pescoço, e eu a atirar-me a ele. Não teríamos Presidente da República se não fosse eu.
enquanto esperava numa sala, abriu inesperadamente a janela, saltou para uma consola exterior, puxou a fita do estore, enrolou- a à volta do pescoço e deitou a língua de fora, fingindo que se tinha enforcado. Mas quando Balsemão apareceu já Marcelo tinha recuperado a compostura.
Não estive lá para observar o que fizeram as outras pessoas presentes, mas presumo que Marcello Rebelo de Sousa só é hoje o nosso Presidente da República porque os presentes fizeram alguma coisa, muito provavelmente aquilo que eu faria se lá estivesse. Atirava-me a ele e tirava-lhe o cortinado do pescoço, nem que fosse à pancada.
Mais difícil seria explicar, quando os ânimos se acalmassem, a racionalidade da minha acção. Ter-lhe-ia dito que me opus a que ele se suicidasse porque a vida dele não lhe pertence só a ele, também pertence ao pai, à mãe, aos amigos, todos o tratam por meu ou por nosso.
-E tu... também sou teu... que apareceste agora aqui e eu nunca te tinha visto?,
poderia ele perguntar-me na altura e ter-me-ia deixado embatucado.
Mas hoje não, hoje eu teria a resposta.
-Sim, também és meu e nosso. És o meu e o nosso Presidente da República.
Ainda o imagino de língua de fora e cortinado ao pescoço, e eu a atirar-me a ele. Não teríamos Presidente da República se não fosse eu.
livres?
"The Road to Serfdom": Post-modern, post-family. post-borders pic.twitter.com/Ic6f42jaLY
— Joaquim Couto (@joaquimsacouto) February 21, 2017
12 fevereiro 2017
o agradecimento
"Reitero que o agradecimento é a mais alta forma de pensamento e que a felicidade mais não é do que a gratidão duplicada pelo espanto."
G.K. Chesterton
G.K. Chesterton
11 fevereiro 2017
meu
A mãe trata o Chiquinho por meu filho.
Existe muito dela nele.
Sem ela, ele não seria o que é.
Durante os primeiros meses de vida
O Chiquinho não precisou de mais ninguém
Para viver e crescer.
Depois, ela deixou de ser suficiente.
O Chiquinho tem pai,
Que o trata por meu filho.
Se não fosse ele,
O Chiquinho não seria o que é.
Seria diferente.
O Chiquinho tem avós,
Tias, primos, irmãos.
Todos o tratam por meu.
À medida que cresceu,
O Chiquinho teve professores
Que o tratam por meu aluno.
Sem eles, o Chiquinho seria outro.
Amigos e colegas, que o tratam por meu.
O Chiquinho teria sido diferente sem eles.
Hoje o Chiquinho é Engenheiro
Lá na empresa tratam-no por
O nosso Engenheiro.
Com razão.
Sem aquela gente toda o Francisco
Não seria Engenheiro.
Quem é que consegue
Construir casas sozinho?
E quem é que lhe compraria as casas?
Hoje, o Francisco tem família,
Mulher e filhos.
A mulher e os filhos tratam-no por meu.
Meu marido e meu pai.
Sem ela e sem eles
O Francisco não seria a mesma pessoa.
O Francisco recorre a empresas
De telemóveis, automóveis, serviços
Todas o tratam por nosso cliente.
Sem telemóvel, o Francisco seria
Uma pessoa muito diferente.
E sem os seus médicos, sapateiros,
Barbeiros, padeiros, carpinteiros também.
Todos eles influenciaram a vida do Francisco
E por isso o tratam por meu e nosso.
Onde de início só dependia da mãe
Passou a depender da comunidade
De que a própria mãe faz parte.
Aquilo que o Francisco hoje é
É o resultado muito mais
Da comunidade onde nasceu e cresceu
Do que dele próprio.
Foi a comunidade (ekklesia) que lhe deu
Mãe, pai, avós, tios e primos
A mulher com quem casou,
Os professores e os médicos que teve
E também os clientes para as casas que faz,
E os arquitectos que fazem as casas com ele.
Os padeiros, os carpinteiros, os amigos,
Os fabricantes de telemóveis e de automóveis,
Até o padre que o casou.
Um dia o Francisco decidiu que a vida era dele
E queria ter o direito a pôr termo à vida.
Mas como,
Se o Francisco não se fez a si próprio?
A relação não é de propriedade.
É de pertença.
O Francisco pertence a si próprio,
Mas pertence ainda mais à comunidade.
Sem ela, o Francisco não seria
Nada daquilo que é hoje.
Por isso, tanta gente na comunidade o trata
Por meu e por nosso.
E até quem não o conhece
O trata por nosso concidadão.
Só a comunidade pôde fazer do Francisco
Aquilo que ele hoje é.
Ele não teria sabido fazer-se sozinho.
E que segredo (ou "tecnologia") possui a comunidade
Para fazer pessoas como o Francisco?
A tradição.
E quem governa a Tradição?
Alguém que quer bem às pessoas
De modo a fazer pessoas como o Francisco.
Existe muito dela nele.
Sem ela, ele não seria o que é.
Durante os primeiros meses de vida
O Chiquinho não precisou de mais ninguém
Para viver e crescer.
Depois, ela deixou de ser suficiente.
O Chiquinho tem pai,
Que o trata por meu filho.
Se não fosse ele,
O Chiquinho não seria o que é.
Seria diferente.
O Chiquinho tem avós,
Tias, primos, irmãos.
Todos o tratam por meu.
À medida que cresceu,
O Chiquinho teve professores
Que o tratam por meu aluno.
Sem eles, o Chiquinho seria outro.
Amigos e colegas, que o tratam por meu.
O Chiquinho teria sido diferente sem eles.
Hoje o Chiquinho é Engenheiro
Lá na empresa tratam-no por
O nosso Engenheiro.
Com razão.
Sem aquela gente toda o Francisco
Não seria Engenheiro.
Quem é que consegue
Construir casas sozinho?
E quem é que lhe compraria as casas?
Hoje, o Francisco tem família,
Mulher e filhos.
A mulher e os filhos tratam-no por meu.
Meu marido e meu pai.
Sem ela e sem eles
O Francisco não seria a mesma pessoa.
O Francisco recorre a empresas
De telemóveis, automóveis, serviços
Todas o tratam por nosso cliente.
Sem telemóvel, o Francisco seria
Uma pessoa muito diferente.
E sem os seus médicos, sapateiros,
Barbeiros, padeiros, carpinteiros também.
Todos eles influenciaram a vida do Francisco
E por isso o tratam por meu e nosso.
Onde de início só dependia da mãe
Passou a depender da comunidade
De que a própria mãe faz parte.
Aquilo que o Francisco hoje é
É o resultado muito mais
Da comunidade onde nasceu e cresceu
Do que dele próprio.
Foi a comunidade (ekklesia) que lhe deu
Mãe, pai, avós, tios e primos
A mulher com quem casou,
Os professores e os médicos que teve
E também os clientes para as casas que faz,
E os arquitectos que fazem as casas com ele.
Os padeiros, os carpinteiros, os amigos,
Os fabricantes de telemóveis e de automóveis,
Até o padre que o casou.
Um dia o Francisco decidiu que a vida era dele
E queria ter o direito a pôr termo à vida.
Mas como,
Se o Francisco não se fez a si próprio?
A relação não é de propriedade.
É de pertença.
O Francisco pertence a si próprio,
Mas pertence ainda mais à comunidade.
Sem ela, o Francisco não seria
Nada daquilo que é hoje.
Por isso, tanta gente na comunidade o trata
Por meu e por nosso.
E até quem não o conhece
O trata por nosso concidadão.
Só a comunidade pôde fazer do Francisco
Aquilo que ele hoje é.
Ele não teria sabido fazer-se sozinho.
E que segredo (ou "tecnologia") possui a comunidade
Para fazer pessoas como o Francisco?
A tradição.
E quem governa a Tradição?
Alguém que quer bem às pessoas
De modo a fazer pessoas como o Francisco.
10 fevereiro 2017
O Chiquinho
Tenho estado a pensar
No dia em que o Chiquinho nasceu.
Há quem diga que foi um acaso,
Um acaso ele ter nascido naquele dia.
Mas, se é assim, houve outros acasos
Naquele dia e num curto espaço de tempo.
A maminha da mãe do Chiquinho deu leite,
Naquele mesmo dia.
Nunca tinha dado leite.
Deu pela primeira vez naquele dia.
Por acaso.
Podia ter sido quinze meses mais tarde.
E não é que o Chiquinho gostou?
Que acaso o Chiquinho gostar do leite!
Podia não ter gostado.
Mas o mais desconcertante
É ainda outro acaso.
O Chiquinho sabia mamar!
Sabia fazer os movimentos de sucção
Na maminha da mãe.
Ninguém lhe ensinou.
Mas o Chiquinho sabia.
O Chiquinho nasceu ensinado.
Tantos acasos em tão pouco tempo...
Não serão acasos a mais?
E todos na mesma direcção,
Favoráveis ao Chiquinho?
É que o acaso é aleatório,
Tanto lhe dá para o bem como para o mal.
Mas estes acasos
São todos para o bem do Chiquinho.
Não será mais racional acreditar
Que Alguém determinou:
"Chiquinho, vou-te dar vida no dia tal";
"E vou dar leite à maminha da tua mãe";
"E vou-te ensinar a mamar";
"E tu vais gostar"?
Para mim é.
No dia em que o Chiquinho nasceu.
Há quem diga que foi um acaso,
Um acaso ele ter nascido naquele dia.
Mas, se é assim, houve outros acasos
Naquele dia e num curto espaço de tempo.
A maminha da mãe do Chiquinho deu leite,
Naquele mesmo dia.
Nunca tinha dado leite.
Deu pela primeira vez naquele dia.
Por acaso.
Podia ter sido quinze meses mais tarde.
E não é que o Chiquinho gostou?
Que acaso o Chiquinho gostar do leite!
Podia não ter gostado.
Mas o mais desconcertante
É ainda outro acaso.
O Chiquinho sabia mamar!
Sabia fazer os movimentos de sucção
Na maminha da mãe.
Ninguém lhe ensinou.
Mas o Chiquinho sabia.
O Chiquinho nasceu ensinado.
Tantos acasos em tão pouco tempo...
Não serão acasos a mais?
E todos na mesma direcção,
Favoráveis ao Chiquinho?
É que o acaso é aleatório,
Tanto lhe dá para o bem como para o mal.
Mas estes acasos
São todos para o bem do Chiquinho.
Não será mais racional acreditar
Que Alguém determinou:
"Chiquinho, vou-te dar vida no dia tal";
"E vou dar leite à maminha da tua mãe";
"E vou-te ensinar a mamar";
"E tu vais gostar"?
Para mim é.
06 fevereiro 2017
O Plano de Deus
O Francisco nasceu, mas não foi ele que deu vida a si próprio.
Deram-lha.
Também lhe deram o sol para se aquecer,
O mar para beber,
E muitas outras coisas para se alimentar.
À nascença, não se tinha por si próprio.
Deram-lhe logo uma mulher para cuidar dele.
E uma família para o proteger.
E amigos para conviver.
Deram-lhe uma Língua para comunicar.
Deram-lhe uma religião para se orientar.
Professores para o ensinar.
Médicos para o tratar.
Uma sociedade organizada para ele prosperar.
Disponibilizaram-lhe profissões para ele optar.
Carros para ele guiar.
Casas para habitar.
Até lhe deram uma mulher para ele casar
O Francisco cresceu, é um jovem adulto.
E agora está convencido que tudo o que é na vida
Se deve a ele próprio.
É engenheiro
Mas não foi ele que inventou a engenharia.
Tem automóvel,
Mas não foi ele que inventou o automóvel.
Tem uma família
Mas não foi ele que inventou a família.
Fala inglês
Mas não foi ele que inventou o Inglês.
Agora, o Francisco diz que um dia quer ser ele a decidir
Racionalmente o momento em porá termo à vida.
Na verdade, a vida dele parece obedecer a um plano racional.
E benevolente.
Deram-lhe tudo o que hoje o torna feliz.
E orgulhoso.
Mas o plano não foi estabelecido por ele.
Ahhh
Esqueci-me de dizer
Que também deram a liberdade ao Francisco.
Não foi ele que a inventou.
Não para escolher os pais,
Não para escolher o dia em que nasceu,
Não para inventar o avião,
Nem o país em que cresceu.
Mas para fazer obras
E as asneiras que quiser.
Deram-lha.
Também lhe deram o sol para se aquecer,
O mar para beber,
E muitas outras coisas para se alimentar.
À nascença, não se tinha por si próprio.
Deram-lhe logo uma mulher para cuidar dele.
E uma família para o proteger.
E amigos para conviver.
Deram-lhe uma Língua para comunicar.
Deram-lhe uma religião para se orientar.
Professores para o ensinar.
Médicos para o tratar.
Uma sociedade organizada para ele prosperar.
Disponibilizaram-lhe profissões para ele optar.
Carros para ele guiar.
Casas para habitar.
Até lhe deram uma mulher para ele casar
O Francisco cresceu, é um jovem adulto.
E agora está convencido que tudo o que é na vida
Se deve a ele próprio.
É engenheiro
Mas não foi ele que inventou a engenharia.
Tem automóvel,
Mas não foi ele que inventou o automóvel.
Tem uma família
Mas não foi ele que inventou a família.
Fala inglês
Mas não foi ele que inventou o Inglês.
Agora, o Francisco diz que um dia quer ser ele a decidir
Racionalmente o momento em porá termo à vida.
Na verdade, a vida dele parece obedecer a um plano racional.
E benevolente.
Deram-lhe tudo o que hoje o torna feliz.
E orgulhoso.
Mas o plano não foi estabelecido por ele.
Ahhh
Esqueci-me de dizer
Que também deram a liberdade ao Francisco.
Não foi ele que a inventou.
Não para escolher os pais,
Não para escolher o dia em que nasceu,
Não para inventar o avião,
Nem o país em que cresceu.
Mas para fazer obras
E as asneiras que quiser.
01 fevereiro 2017
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