30 setembro 2014

o beco sem saída

É altura de eu corrigir ligeiramente o curso e colocar directamente a questão: Qual é o regime de afectação de recursos característico da cultura católica - é aquele que é baseado na dádiva (caridade)?

Não.

O regime de afectação de recursos próprio da cultura católica inclui todos os regimes conhecidos de afectação de recursos - o caritativo (baseado no amor e na dádiva), o capitalista ou calvinista (baseado no interesse próprio e na troca) e o socialista ou luterano (baseado no poder político e na imposição ou tributação).

(E ainda todas as combinações possíveis entre eles. Assim, por exemplo, a instituição da cooperativa é uma combinação entre os dois primeiros).

Como não podia deixar de ser. A cultura católica é uma cultura de tudo - não exclui nada.

(Por que é que a cultura católica aceita tudo, e não exclui nada? Porque tudo aquilo que existe no mundo é obra de Deus e, portanto, há-de ter algum bem. A questão é saber utilizar cada coisa para o bem. Por exemplo, existe algum bem no homicídio? Claro, em legítima defesa da vida do próprio ou da de outros).

Aquilo que a cultura católica também faz é estabelecer a diferença e, com ela, a hierarquia. E existe para ela uma hierarquia de regimes de afectação de recursos. O primeiro é a dádiva, o segundo é a troca e só em último lugar vem o da imposição ou tributação.

(Esta hierarquia deriva da hierarquia de valores correspondente na cultura católica: primeiro, o amor, depois o interesse próprio e só em último lugar a imposição).

Portanto a cultura católica não exclui nem o capitalismo (baseado na troca) nem o socialismo (baseado no poder do Estado). Só que não os considera prioritários como regimes de afectação de recursos. Prioritária é a dádiva ou caridade.

A cultura católica não se opõe nem ao capitalismo nem ao socialismo, antes os aceita a um e ao outro. Aquilo que a cultura católica não aceita é que o capitalismo seja o sistema principal de afectação de recursos numa sociedade, e menos ainda o socialismo.

Se a Doutrina Social da Igreja tivesse, desde Leão XIII, sido posta nesta base, em lugar de dizer que rejeitava quer o capitalismo quer o socialismo, e que tinha uma terceira via - que nunca explicitou, uma espécie de segredo muito bem guardado -, teria evitado a baralhada intelectual em que se transformou e o beco sem saída a que chegou.

8 comentários:

Neyhlup Josand disse...

Desculpe lá as várias provocações mas como ainda o considero um cristão novo...

"O sistema de governação da Igreja possui autoridade e uma hierarquia - Papa, bispo, diácono. A autoridade do Papa, em particular, é plena, suprema e universal e que ele pode sempre livremente exercer."
http://portugalcontemporaneo.blogspot.pt/2007/10/possui-autoridade-e-hierarquia.html

E a Infalibilidade papal?

Fora isso: é normal que a doutrina social não tenha a consistência interna dum socialismo ou liberalismo daí que seja muito mais adequada à efectiva aplicação prática na governação do que os dois "ismos" anteriores. Se há coisa que não existe é um ser humano igual a outro e mais ainda, o mesmo ser humano ter sempre a mesma reacção ao mesmo estímulo. Ou seja é bom que existam um conjunto de princípios e valores mas não premissas lógicas imutáveis.

O que distingue o bom governante católico é o pragmatismo e a não filiação ideológica absoluta.

Neyhlup Josand disse...

Portanto Leão XIII nunca se teria enganado...

Mas a minha opinião é de que a César o que é de César. É mais fácil manter a credibilidade de todas as instituições.

Tenho mesmo muita pena que não exista um partido democrata cristão em Portugal( esqueçam o CDS).

Textículos disse...

Uma questão de afectação de recursos!?

Nearly 5,000 people died via euthanasia in the Netherlands

http://www.dutchnews.nl/news/archives/2014/09/nearly_5000_people_died_via_eu.php

mujahedin مجاهدين disse...

Neyhup,

da infalibilidade papal:

https://www.youtube.com/watch?v=xdPvHUXf58M

Neyhlup Josand disse...

Olá Mujahedin. Obrigado pela referência. Estamos sempre a aprender e a expandir o nosso Mundo

Do que vi, Isso parece-me a semente de mais uma seita a nascer ;)

Embora se possa aceitar que é apenas uma questão filosófica, pode ser um cisma se atingisse uma proporção maior.

Estou deliberadamente a provocar Pedro Arroja porque acho graça à sua devoção ao catolicismo e à "tradição" católica, sendo ele um homem jovem no cristianismo, no sentido aristotélico.

Além de estar a testar a consistência interna do código de valores e princípios.

Amavelmente ele tem estado a responder nalguns casos e isso é também prova de boa índole, porém tem ainda pouca maturidade na sua ideia de sistema de Governo. Ainda está muito preso aos "ismos" seja por identificação seja por contraposição.

Neyhlup Josand disse...

"A responsabilidade de todos pelo bem comum

As exigências do bem comum derivam das condições sociais de cada época e estão estreitamente conexas com o respeito e com a promoção integral da pessoa e dos seus direitos fundamentais.

Essas exigências referem-se, antes de mais, ao empenho pela paz, à organização dos poderes do Estado, a uma sólida ordem jurídica, à salvaguarda do ambiente, à prestação dos serviços essenciais às pessoas, alguns dos quais são, ao mesmo tempo, direitos do homem: alimentação, morada, trabalho, educação e acesso à cultura, saúde, transportes, livre circulação das informações e tutela da liberdade religiosa. Não se há de olvidar o aporte que cada nação tem o dever de dar para uma verdadeira cooperação internacional, em vista do bem comum da humanidade inteira, inclusive para as gerações futura"
(...)

"As tarefas da comunidade política

A responsabilidade de perseguir o bem comum compete, não só às pessoas consideradas individualmente, mas também ao Estado, pois que o bem comum é a razão de ser da autoridade política. Na verdade, o Estado deve garantir coesão, unidade e organização à sociedade civil da qual é expressão, de modo que o bem comum possa ser conseguido com o contributo de todos os cidadãos. O indivíduo humano, a família, as corpos intermédios não são capazes por si próprias de chegar ao seu pleno desenvolvimento; daí serem necessárias as instituições políticas, cuja finalidade é tornar acessíveis às pessoas os bens necessários — materiais, culturais, morais, espirituais — para levar uma vida verdadeiramente humana. O fim da vida social é o bem comum historicamente realizável"

http://www.vatican.va/roman_curia/pontifical_councils/justpeace/documents/rc_pc_justpeace_doc_20060526_compendio-dott-soc_po.html#Significado e principais implicações

Pedro Sá disse...

Vamos brincar à caridadezinha
Festa, canasta e boa comidinha!

zazie disse...

Para quem tinha dúvidas está aqui a prova. O Pedro Sá, como jacobino escardalho e xuxialista acaba de o exemplificar.

A "caridadezinha" é um termo depreciativo que só deve existir em Portugal, pois até a URSS já deixou o comunismo.

É isto. Para eles até um benemérito, alguém que pode legar uma biblioteca, um jardim, uma série de coisas de interesse público é um ser desprezível que joga canasta e brinca à "caridadezinha".

Somos um país sem cheta e com a idolatria do Estado por este motivo- por ideologia jacobina que o 25 de Abril trouxe.