28 setembro 2014

Não tem nome

Exemplifico o significado do meu post anterior com o problema chamado da afectação dos recursos.

Este é o problema central da chamada Ciência Económica, e existe mesmo uma forte corrente de economistas, na linha de Lionel Robbins, que define esta ciência em torno deste problema: como afectar recursos  escassos entre fins alternativos.

É também em torno deste problema que se consumiram as energias dos melhores economistas do último século, e se dividiram os Prémios Nobel, com uns a afirmarem que o mercado é a instituição ou o processo mais adequado para resolver esse problema enquanto outros defendem que a solução está no Estado.

A atribuição conjunta do Prémio Nobel de 1974 a Hayek e a Myrdal deu razão às duas partes, embora, mais tarde, a solução liberal tenha sido mais vezes premiada (v.g., Friedman, Becker) do que a socialista (v.g., Solow, Stiglitz).

É a discussão que eu tenho designado por "Mete Estado, Tira Estado" e que, como se sabe, nunca chega a conclusão nenhuma e só cria inimigos. (O economista Gunnar Myrdal, que recebeu o Prémio Nobel em 1974, ameaçou renunciar a ele se o Prémio viesse algum dia a ser atribuído a Friedman - o que viria a acontecer, e logo no ano seguinte).

Que nem uma nem outras das soluções são verdadeiras - embora a do liberalismo seja menos falsa do que a do socialismo - está aí à vista. O mercado de habitação em Portugal é bastante privado, e no entanto gerou uma crise enorme de sobreprodução - não faltam por aí casas à venda e sem comprador. Por outro lado, o sector das auto-estradas pertence ao Estado. Também ocorreu uma crise de sobreprodução, não faltam por aí auto-estradas vazias.

O liberalismo entrega a identificação das necessidades ao indivíduo, isolado da comunidade. E o desejo ou o incentivo para as produzir também a um indivíduo - o empresário - que depois responde a ele frequentemente através de uma empresa. E depois acredita que este segundo conjunto de indivíduos que não se conhecem entre si nem aos outros, vai produzir um número de casas que é exactamente igual ao número de casas que o primeiro conjunto de indivíduos - que também não se conhecem entre si e aos outros - desejava. O preço, variando para cima e para baixo, estabelece a igualdade.

É preciso muita sorte para que isto aconteça, uma "mão invisível" como lhe chamou Adam Smith, uma verdadeira mão de Deus.

Do lado socialista as coisas são ainda piores. Pois se os decisores políticos não conhecem as necessidades dos milhões de cidadãos que compõem o país, como é que eles vão acertar no número adequado de auto-estradas, ou de serviços de saúde, ou de batatas se decidirem também meter-se neste negócio?

Só se forem deuses (que é aquilo que frequentemente eles acreditam que são).

Imagine agora uma família com cinco filhos, um dos quais gosta muito de sapatos - tem seis pares na prateleira -,   recebeu um par deles novo há apenas dois meses, enquanto um outro mais dado às coisas do intelecto e menos vaidoso, há cinco anos que não tem um par de sapatos novo, e aqueles que usa já ameçam ficar rôtos.

Ambos os filhos pedem um par de sapatos novos à mãe (ou ao pai), mas os recursos são escassos e por agora só há dinheiro para comprar um par de sapatos, e não dois.

A quem é que a mãe vai comprar os sapatos novos?

Eis o sistema católico de afectação de recursos.

Primeiro, as necessidades individuais são escrutinadas por quem as conhece. Segundo, considerações de justiça são introduzidas na decisão. Terceiro, a decisão é tomada por uma autoridade benevolente.

Neste sistema de afectação de recursos estão presentes ao mesmo tempo questões económicas (as necessidades individuais e os recursos disponíveis) , de justiça (quem merece?) e de poder ou autoridade (a decisão final), que nas ideologias protestantes aparecem separadas nas esferas autónomas da Economia, do Direito e da Política.

Haverá alguém capaz de contestar esta decisão da mãe? (supondo todos os outros factores iguais, v.g., que os filhos são igualmente bem-comportados, estudiosos, etc.).

Não há. É uma decisão irrebatível, perfeita e completamente racional.

Como é que se chama este sistema de afectação de recursos, que é praticado diariamente por mihões de pais e mães, mas que nunca é considerado na  Ciência Económica?

Não tem nome. E não tem nome porque ninguém lhe liga ou porque ainda ninguém reparou nele. E também não é minha preocupação baptizar aqui a criança antes de a fazer nascer.

Questão mais importante é a de saber se este sistema de afectação de recursos é generalizável e realizável em outras comunidades mais vastas do que a família, como a aldeia, o bairro, o município, a nação ou até o mundo.

6 comentários:

Rui Alves disse...

O mercado de habitação em Portugal é bastante privado, e no entanto gerou uma crise enorme de sobreprodução

Privado sim, mas pouco:

A construção e aquisição de casas foram artificialmente induzidas por crédito barato, resultado de decisões estatais sobre as taxas de juros e a emissão de moeda.

As rendas sociais, de cariz estatal, arruinaram o mercado de arrendamento urbano e dificilmente deixaram outra alternativa que não fosse a aquisição de casa própria na periferia.

Temos portanto um mercado privado mas fortemente distorcido e condicionado por estímulos e intervencionismo estatais.

Embora eu também não acredite na teoria da mão invisível, o mercado de habitação própria em Portugal não me parece um exemplo adequado para a refutar.

Anónimo disse...

Caro Rui Alves,

Se você concordasse com todo o meu argumento (incluindo os detalhes, como aquele que você menciona) eu diria que você não era português.
Abc.
PA

Neyhlup Josand disse...

O problema português é menos atribuível ao sistema político ou económico mas à moral vigente.

O sistema "comunitário" que propõe não é adequado a grande parte das necessidades das sociedades modernas, entre as quais a portuguesa, que exige confiança num líder que não se conhece pessoalmente e interacção com muitas pessoas que muitas vezes nem se comprenderão quanto à forma de dizer bom dia.

Pode é discutir quais as decisões que podem ser comunitárias e as estatais, ou a forma como se escolhe o líder. O sistema moral que parece defender é o cristão católico apostólico romano, mas já Cristo dizia, a César o que é de César.

Como até acredito no ditado: " O que nasce torto tarde ou nunca se endireita" gostaria de ter estado presente em alguns momentos cruciais da História para perceber quem éramos e o que nos moldou:
1) Como foi conquistada a Independência?

2) Quem era Afonso Henriques e de quem se rodeou?

3) Como era a relação de D.João II, Manuel I, a Igreja e os Judeus

4)Quem ganhou e quem perdeu com as Guerras contra Napoleão e o que saiu da guerra civil entre liberais e miguelistas?

e muito mais...


Anónimo disse...

O exemplo apresentado sobre o mercado da habitação não é de todo feliz.
O mercado da habitação foi em muitos lados totalmente privado, com excelentes resultados. Só para nomear alguns: temos Mykhonos, Veneza, parte das cidades portuguesas tais como o Porto e Lisboa. Os nossos (horríveis) subúrbios são tudo menos privados. São uma mistura.


Tiago

Pedro Sá disse...

Nenhuma decisão de afectação de recursos é irrebatível.

Rui Alves disse...

Como adaptaria esta distinção entre liberalismo, socialismo e racionalismo familiar (chamemos assim) noutros domínios mais políticos, nomeadamente na liberdade de expressão?